Experiência pessoal com o Sr. Helio Smidt
Meu sonho era trabalhar na Varig desde que uma aeromoça, como era chamada a profissão de comissária na época, me levara a um passeio de avião de passageiros em Congonhas. O DC-3 apenas sobrevoou a cidade e eu fiquei extasiado, me apaixonei pela aviação. Ao tomar a decisão de tentar um emprego na Varig em 1967, dirigi-me ao Departamento Pessoal e um tal de Prof. Pretto me informou que não seria admitido na empresa, pois não completara ainda 18 anos.
Não convencido com a resposta, decidi procurar alguém num cargo importante que estivesse em condições de agir ao meu favor. No saguão do aeroporto, fui informado que esse alguém chamava-se Hélio Smidt e era o diretor administrativo em São Paulo. Entretanto, não fazia idéia da posição de suma importância assumida por ele. Mais tarde descobri que era sobrinho do Sr. Rubem Berta, o fundador da empresa, e com fortes possibilidades de ser escolhido para a presidência. Assim, na minha ingenuidade de adolescente, me dirigi ao portão de entrada da Varig e pedi ao segurança para falar com ele.
Travou-se o seguinte diálogo:
- Quer falar com o Sr. Hélio Smidt?
- Sim.
- Posso saber o motivo?
- Gostaria de pedir-lhe para me arranjar um serviço.
- Não pode falar com o diretor simplesmente para pedir emprego. Existe o departamento pessoal e é onde você deve se dirigir.
- Mas...
- Não tem nada de mas - interrompeu-me - Não pense que o diretor vai atendendo qualquer um que aparece por aqui.
Suas palavras me fizeram o sangue ferver. Voltei ao saguão novamente, liguei para o PBX da Varig e pedi para falar com o Sr. Hélio. Quem me atendeu foi a secretária, perguntando-me o que desejava. Como já estava prevenido por causa do guarda, disse-lhe que era seu sobrinho. Ela imediatamente me passou a ligação. Quase estremeci ao ouvir a voz do diretor. Me desculpei por ter-me passado por seu sobrinho e pedi que me permitisse falar-lhe pessoalmente. Creio que estava num dia de excelente humor ou apenas ficou curioso com minha audácia, mas concordou. Como seguro morreu de velho, dei-lhe meu nome para que autorizasse a passagem pela portaria. Não é preciso descrever a cara do segurança quando voltei ao portão. Não teve outra alternativa senão liberar minha entrada.
Uma vez diante do Sr. Hélio, expliquei-lhe que o departamento pessoal ditava uma norma que não se aplicava a mim, pois a proibição de contratação de rapazes com idade inferior a 18 anos se dava por causa do serviço militar. Pelo fato de estar dispensado devido a convicções religiosas, essa restrição não tinha razão de ser. Ele estranhou minha afirmativa e mandou que eu lhe apresentasse o Diário Oficial da União, onde a lei referente às Testemunhas de Jeová acabara de ser promulgada. No dia seguinte estava na sua presença novamente com o jornal debaixo do braço. Ele leu, ligou na hora para o Prof. Pretto e mandou que providenciasse os papéis de admissão. Chegou até a discutir com ele, pois se tratava de novidade absoluta, que ainda não havia sido examinada pelo departamento jurídico da empresa. Enfim, como o cargo fala mais alto, ao Prof. Pretto não restou outra alternativa senão me atender. Jamais esquecerei a cara desse sujeito quando me encontrou frente a frente. Estava vermelho feito um pimentão e espumava pela boca ao falar. Lembro-me perfeitamente de suas palavras:
- Tinha justamente de ir falar com o diretor?! Por que não expôs o problema a mim? Poderia ter resolvido sem levar o caso às altas esferas.
Enfim, como esse indivíduo era o "dono" do departamento pessoal e permaneceu assim por muito tempo, colocou-me diante de um teste contábil que me deixou desnorteado. Eram páginas e páginas de logarítimos, álgebra e nem sei mais o quê. Deveria ser direcionado para contador formado, não para um rapaz de 17 anos que mal completara o ginásio e, além de tudo, detestava matemática. Assim, logicamente fui reprovado.
Ao voltar à sala do Sr. Hélio, choramingando por não ter passado no teste, ele disse que não podia fazer nada. E toda minha epopéia para ser admitido na Varig foi por água abaixo.
Algum tempo mais tarde, quando completei 20 anos, tentei por diversas vezes uma vaga no departamento pessoal da Varig na av. São Luís. Em todas recebi um não como resposta. Fiquei com tanta raiva que, no último formulário para pedido de emprego que preenchi, escrevi simplesmente promoção de vendas no item referente ao cargo pretendido. Sempre gostei dessa área e não fazia questão de outra coisa. Geralmente, quem está desesperadamente a fim de alguma colocação, acrescenta outras opções. Fui contra essa regra, era isso ou nada.
Jamais descobrirei se minha atitude influenciou na decisão deles, mas o fato é que fui imediatamente chamado. Nessa época, vivia na rua Sud Menucci e, por coincidência, a telefonista destacada para me localizar morava nesse mesma rua. Como o telefone de recados que dera não atendia de forma alguma, ou talvez não estivesse funcionando, ela mesmo passou pelo endereço e deixou recado para que eu me apresentasse no dia seguinte aos escritórios da Varig na rua Cons. Crispiniano.
E assim, depois de cansativos testes, fui aprovado e finalmente admitido para trabalhar na Varig. Cinco anos depois, fui promovido a assistente do departamento de propaganda, na gerência de Carlos Ivan Siqueira. Minha carreira foi meteórica e, quando menos esperava, estava despachando diretamente com o Sr. Hélio, então presidente da empresa.
Numa ocasião, recebi a missão de preparar um anúncio impresso para a Business Week. Ao mesmo tempo, o Sr. Ivan solicitou pela agência de propaganda Expressão outras duas opções para que, as três juntas, fossem apresentadas à presidência. Procediam assim em todas as campanhas que envolviam grandes verbas de publicidade. No dia marcado, estavam o Sr. Ivan, o Sr. Rubel (vice-presidente), o Sr. Hélio e eu diante das três peças publicitárias. Vamos agir democraticamente: Rubel, qual você escolhe?, perguntou o Sr. Hélio. O vice-presidente optou pela que lhe parecia mais apropriada e apresentou as razões. Não era a de minha autoria. O segundo a opinar foi o Sr. Ivan. Como o politicamente correto seria acatar a opinião do vice-presidente, ele assim o fez e desprezou o meu trabalho. Então chegou minha vez. Como poderia negar minha própria criação e apontar um trabalho de terceiros só porque era politicamente correto? Pior, eu havia detestado as outras duas peças. Vamos garoto, não tenho o dia inteiro para decidir, respondeu o Sr. Hélio. Longe de trair meus princípios, os quais me baseara a vida inteira, indiquei a obra de minha autoria como a mais adequada para a revista americana. Sabia o que estava afirmando, afinal o especialista em publicidade era eu. O Sr. Rubel nada entendia e o Sr. Ivan acabara de assumir a superintendência geral e sua preocupação maior era com a parte adminstrativa. Eu também, respondeu o Sr. Hélio. Suas palavras soaram como música em meus ouvidos naquela hora. Naturalmente, ganhou minha peça, apesar do empate. Ninguém atreveu-se a discutir com o presidente da empresa e o anúncio correu mundo, não só sendo publicado na Business Week como também na maioria das revistas de grande circulação dos principais países americanos e europeus.
Chegara a oportunidade que eu esperava havia dez anos. Certo dia, quando encontrei-me a sós com o Sr. Hélio, perguntei-lhe: Por acaso o Sr. se lembra de um jovem ambicioso que se passou por seu sobrinho e tentou usá-lo como padrinho para entrar na Varig? Ele respondeu que sim, mas eu duvidei. Muito tempo se passara e dificilmente um homem tão importante como ele iria guardar na lembrança um fato insignificante como aquele. Por outro lado, existiriam pessoas tão atrevidas assim, a ponto de invadir a privacidade de um diretor e empresa para pedir emprego? Não sei. O fato é que completei: Aprendi a lição. Entrei depois na Varig por meus próprios méritos e alcancei um cargo tão elevado que agora entro em sua sala para trabalhar ao seu lado. Ele sorriu e apertou minha mão.
Em setembro de 1986, pedi meu afastamento da Varig, mudando-me para Campos do Jordão. Quando a notícia chegou aos ouvidos do Sr. Hélio, ele afirmou com todas as letras: o Departamento de Propaganda da Varig acabou em São Paulo.
Marcos Priolli