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11 de março de 1998

Exames de DNA desvendam, 44 anos depois, o mistério do crime que inspirou O Fugitivo


Novas provas científicas surgidas na semana passada podem esclarecer um dos maiores mistérios da história criminal americana e inocentar o médico Sam Sheppard, acusado de assassinar brutalmente sua mulher, Marilyn, em 1954. O caso provocou tamanha comoção que inspirou uma famosa série de TV dos anos 60, batizada de O Fugitivo, além de um filme homônimo estrelado por Harrison Ford, em 1993. Marilyn estava grávida, foi violentada e morta com 35 socos na residência do casal, no Estado de Ohio. Sheppard foi condenado e amargou uma década na cadeia, até que a Suprema Corte dos Estados Unidos anulou a sentença, por considerar que o julgamento não havia sido imparcial. Mesmo em liberdade, Sheppard passou o resto de sua vida amargurado e morreu aos 46 anos, devastado pelo alcoolismo. Agora, uma bateria de testes de DNA está ajudando a limpar seu nome.


 
Exames efetuados em quatro manchas de sangue do assassino e da vítima retiradas da cena do crime e preservadas até hoje demonstraram que ele não pertence ao médico nem a sua mulher. Descobriu-se, também, que o DNA analisado tem perfil muito semelhante ao de outro suspeito do caso, o faxineiro do casal, Richard Eberling. "A trilha de sangue só pode ser do assassino e está provado que ele não é o doutor Sheppard", afirmou o advogado da família, Terry Gilbert. Para reforçar as suspeitas sobre o faxineiro, o advogado apresentou ainda os resultados de testes no sêmen encontrado no corpo de Marilyn. Detectou-se no exame a presença de material genético de Sheppard e Eberling.

As novidades sobre o caso são fruto da obstinação do filho do médico, Sam Reese Sheppard. Como a residência não apresentava sinais de arrombamento e só havia outra pessoa presente ali - o próprio Sam, então com 6 anos, que estava dormindo -, a polícia concluiu que o assassino só poderia ser o marido de Marilyn. Em sua defesa, o médico sustentava que na noite fatídica estava cochilando no sofá da sala quando foi despertado por gritos no andar de cima. Ao subir, deparou com um homem alto e cabeludo. Após uma luta rápida, na qual o assassino ficou ferido e perdeu sangue, Sheppard levou a pior, ficando desacordado no chão, sem conseguir identificar o intruso.

Há dois anos, em parceria com a jornalista Cynthia Cooper, o filho de Sheppard lançou o livro Mockery of Justice (Zombando da Justiça), em que menciona pela primeira vez o nome de Richard Eberling como o provável assassino de sua mãe. Entre outras evidências, os autores apontam um anel de Marilyn achado pela polícia na casa de Eberling, em 1959, e o depoimento de vizinhos que confirmaram a existência de um homem cabeludo rondando a casa dos Sheppard um dia após o crime. O faxineiro, que está cumprindo pena desde 1984, por causa do assassinato de uma viúva, defendeu-se das novas provas apresentadas pelo advogado da família. "Encontraram meu sangue na casa porque cortei o dedo enquanto estava limpando uma janela", afirmou. No filme e inspirado pelo drama o médico, batizado de Richard Kimble, depois de uma caçada eletrizante, acha o assassino - um misterioso homem de um braço só - e consegue provar ser inocente. No enredo da vida real, a verdade só está sendo encontrada 28 anos após a morte do personagem principal. Deve custar cerca de 2 milhões de dólares de indenização ao Estado americano pelo suposto erro judicial.