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26 de abril de 2000

Construções de imigrantes alemães no Estado de Santa Catarina entram no rol dos imóveis a ser tombados como patrimônio histórico do Brasil

Casa da família Duwe, em Indaial: em estilo enxaimel

A impressão que se tem ao andar por algumas cidades do interior de Santa Catarina é de não estar no Brasil. O que se vê é uma paisagem completamente diferente da do resto do país, com ares da Europa Central, recheada da tradição dos imigrantes que vieram daquela região a partir do século XIX e ali se estabeleceram.


 
Das festas típicas à culinária, ao idioma ainda comumente falado e à arquitetura, tudo remonta a uma Europa distante da Península Ibérica, em especial à Alemanha. Para se ter uma idéia da intensidade da herança cultural da imigração, Santa Catarina é considerada a região mais representativa da arquitetura germânica fora da Europa. Grande parte dos 200.000 imigrantes alemães que vieram para o Brasil até o fim da II Guerra se fixou no Estado, formando verdadeiras ilhas culturais. Eram sobretudo agricultores que se aventuravam com os familiares durante dois ou três meses em navios abarrotados e viam na emigração oportunidades de trabalho e terras em abundância para cultivar. O maior e mais importante levantamento da imigração alemã acaba de ser concluído pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), vinculado ao Ministério da Cultura. O que se encontrou é um conjunto arquitetônico belíssimo, centenário, sem similar em outras partes.

Nos últimos dez anos, uma equipe de mais de cinqüenta profissionais elaborou, após pesquisas, o inventário de 1.000 imóveis, a maioria na zona rural, em cerca de trinta municípios de Santa Catarina e descobriu ali um verdadeiro patrimônio vivo, pouco conhecido do resto do país. Da cultura à expressividade plástica e às soluções construtivas, além de uma aula de história, tem-se verdadeiras lições de arquitetura. O resultado foi o pedido de tombamento pelo Patrimônio Histórico Nacional de cinqüenta desses imóveis pesquisados, entre residências, igrejas e estabelecimentos comerciais, todos com mais de 100 anos, já em fase de conclusão. "O que encontramos foi uma concepção arquitetônica totalmente diferente da que normalmente se vê no resto do Brasil", diz o arquiteto Dalmo Vieira Filho, superintendente do Iphan de Santa Catarina e coordenador do projeto.

Cravadas geralmente perto de rios, em regiões de matas preservadas e campos de pastagens, as construções caracterizadas por tijolos à vista revelam particularidades curiosas. A começar pelo próprio tijolo aparente, raridade no Brasil do final do século XIX. O material utilizado na construção era fabricado artesanalmente pelos próprios imigrantes - das toras de madeira que formavam a base das casas aos tijolos e telhas de cerâmica. Pouco se usava de material industrializado. Pregos, por exemplo, só nas esquadrias e ripas do telhado. Eram também os colonos que construíam suas casas, em regime de mutirão. O resultado disso foi que a tradição européia acabou transplantada fielmente para o país. O estilo enxaimel, que mistura madeira e tijolos aparentes sob telhados de grandes inclinações e telhas retas, está presente na maioria das casas. Nesses imóveis, as vigas de madeira têm papel fundamental. São elas que garantem sustentação à casa. As paredes de tijolos não têm nenhuma função estrutural, servem apenas para vedar. Mas o mais inusitado é que essas casas não estão fixadas no solo. Elas ficam totalmente suspensas, calçadas apenas sobre pedras e tijolos. Dessa maneira, são normalmente transportadas de um lugar para outro, acompanhando eventuais mudanças da família. Para tornar transportável uma casa construída no sistema enxaimel, retiravam-se os tijolos, conservando-se apenas a estrutura de madeira.

Outro aspecto que impressiona é a riqueza de detalhes revelada por esses imóveis. Determinados elementos são especialmente trabalhados. As portas e janelas, principais componentes da fachada, são alguns deles. Além de desenhos em relevo e apliques, comumente recebem a aplicação de cores. As paredes externas também mostram essa preocupação com a estética. Os tijolos aparecem formando as mais diversas combinações de tons e formatos, revelando desenhos que mais parecem entalhes. No interior das casas não é diferente. Desenhos coloridos pintados a mão, com a técnica de estêncil (em que se usam pequenos moldes vazados), costumam enfeitar faixas inteiras nas paredes. "Cada casa tem um toque pessoal", diz o arquiteto Dalmo Vieira. "Isso revela uma espécie de arte popular da imigração alemã."

Adaptações
O clima brasileiro, mais quente que o europeu, provocou algumas alterações de hábito que se refletiram no modo de construir do imigrante. Por causa do rigor do inverno europeu, era comum aos camponeses levar os animais para dentro de casa - por animais entenda-se bois, porcos e aves. Essa tradição foi abolida no Brasil. O módulo residencial comum na Europa, caracterizado por um único bloco, geralmente dividido em quarto, sala e cozinha, sofreu adaptações e ganhou cômodos adjacentes. A cozinha, espinha dorsal das casas alemãs, ocupava uma posição central, com a função de gerar calor e esquentar todo o imóvel. Era ali a área social da casa, onde se recebiam as visitas e se faziam as refeições. No Brasil, ela deixou de ser o aposento principal e passou a ter papel secundário, deslocando-se para a lateral e os fundos da casa, muitas vezes se separando do imóvel. A frente das casas ganhou uma área extra bastante utilizada, as varandas. Por outro lado, é possível identificar nas construções de outras regiões catarinenses traços da influência alemã. É comum encontrar até mesmo no litoral, área povoada originalmente por imigrantes açorianos, casas com estrutura essencialmente de madeira, suspensas do solo, e sótãos, cômodos tão comuns na Europa Central.

Internamente, muitas casas permanecem como verdadeiros museus vivos. Encontram-se mobiliário, trajes e utensílios tipicamente alemães. São detalhes que se revelam nas pequenas coisas, como nos cobertores de pena de ganso, tão usados na Europa, ou nas fechaduras e placas penduradas nas portas, com inscrições em alemão. Os moradores mais velhos constituem outra fonte preciosa de informações para os pesquisadores. Falam entre eles dialetos e conservam hábitos que algumas vezes remontam à época da colonização, já esquecidos na Europa. Essa cultura que permaneceu fechada durante tantas décadas começa agora a se abrir para o resto do país. Junto com o levantamento arquitetônico realizado pelo Iphan está sendo elaborado um projeto de conservação dos imóveis, a um custo de 3 milhões de dólares. E será lançado um roteiro turístico pela Trilha dos Imigrantes, como ficou conhecida a região onde estão concentrados no Estado, ao longo de um percurso de aproximadamente 200 quilômetros de extensão. Alguns lugares estão se adaptando para receber turistas. Nas margens das estradas, muitas ainda de terra, começam a aparecer pequenas lojas de produtos típicos das colônias alemãs, nas quais é possível encontrar queijos, pães e doces fabricados artesanalmente. A vedete é o famoso strudel, torta de massa folhada recheada de maçã ou banana. Em Pomerode, por exemplo, uma pequena cidade de pouco mais de 20.000 habitantes, a 190 quilômetros de Florianópolis, uma propriedade rural acaba de transformar o celeiro em pousada e já começa a receber visitantes.

Casa em São Bento do Sul: tijolos à vista, inovação que veio com os alemães