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A Elite do Crime

29 de março de 2000

A lista dos dez mais procurados do FBI, que a História transformou em mito, faz cinqüenta anos

Donald Eugene Webb é um dos homens mais procurados dos Estados Unidos. O FBI, a polícia federal americana, sabe detalhes de sua vida que até os amigos mais íntimos desconhecem. Como toda folha corrida, sua ficha criminal traz a data e local de nascimento, altura, peso, cor dos olhos e apelidos e informa que em 1980 matou um policial. Conta muito mais. Por exemplo, que Webb tem uma pequena cicatriz na bochecha direita e duas tatuagens, na mão direita e no peito. Assegura que é alérgico à penicilina. Ele é descrito como um especialista em disfarces e amante de cães. Mesmo com toda essa gama de minúcias, Webb figura na lista dos dez mais procurados pelo FBI há quase duas décadas sem que a polícia tenha conseguido colocar as mãos nele. Trata-se de uma exceção. Desde que a lista foi criada, está fazendo cinqüenta anos neste mês, 429 dos 458 foragidos que tiveram o rosto exposto na relação foram encontrados e presos.


 
O índice de aproveitamento de 94% atesta mais a competência do FBI do que da relação. Apenas um em cada três procurados foi capturado com o uso de informação dada por cidadãos que viram os cartazes de "procura-se". De qualquer maneira, o método virou uma grife e foi copiado pela polícia de quase todo o mundo. A história da famosa lista começou em fevereiro de 1949, de forma acidental. Uma jornalista do The Washington Daily News pediu ao FBI um levantamento dos criminosos mais perigosos para uma reportagem. A publicação gerou uma repercussão tão fabulosa que o então diretor do órgão, o legendário J. Edgar Hoover, decidiu criar uma lista permanente com uma dezena de criminosos. Acreditava que a exposição pública de seus dados e retratos pudesse ajudar em sua localização. A idéia teve sucesso imediato.

Hoje Donald Eugene Webb aparece na lista ao lado de personagens bem mais famosos e perigosos que ele. É o caso do milionário saudita Osama bin Laden, considerado inimigo público número 1 dos Estados Unidos por financiar os atentados contra as embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia, ou do narcotraficante mexicano Ramón Eduardo Arellano-Felix, chefe do cartel de Tijuana. Eric Robert Rudolph, outro figurante, é um mistério. A polícia nunca conseguiu chegar perto dele, embora seja acusado de diversas explosões de bomba, entre elas a que matou uma mulher durante as Olimpíadas de Atlanta, em 1996. Outro famoso da lista foi James Earl Ray, o assassino de Martin Luther King, em 1968. Ray esteve duas vezes entre os dez mais procurados. Na primeira vez, logo após ter cometido o crime, seu nome ficou em exposição durante dois meses, até ser preso em Londres. Quase dez anos mais tarde, Ray fugiu da cadeia, voltou para os cartazes, mas foi recapturado em 48 horas.

O perfil dos "mais procurados" mudou muito em cinqüenta anos e também o modo de divulgação. Antes, era afixado nas estações de trem. Hoje, pode ser consultado na internet. Antigamente, a maioria era constituída de assaltantes de bancos ou ladrões de carro. Agora os maiores criminosos são narcotraficantes, terroristas ou serial killers. Para entrar na lista, o criminoso deve ser considerado perigoso para a sociedade, e o FBI precisa achar que torná-lo conhecido vai ajudar em sua captura. E só sai quando é capturado, morto, absolvido ou se os critérios para sua inclusão não correspondem mais. Apenas quatro nomes foram retirados pelo último motivo. Nestes cinqüenta anos, só sete mulheres figuraram entre os criminosos mais procurados. Enquanto Donald Eugene Webb bateu um recorde ao permanecer na relação por quase 7.000 dias, Joseph Paul Cato esteve nela por apenas duas horas.