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Caça ao Tesouro
 
 
 
 
Caça ao Tesouro

18 de fevereiro de 1998

Com satélite e robô, expedição procura no mar de Pernambuco toneladas de ouro de um galeão português

Um acidente terrível sepultou no mar, no dia 6 de setembro de 1726, um dos navios mais poderosos da esquadra portuguesa no século XVIII. Com uma respeitável barreira de setenta canhões de ferro espalhados sobre o convés, o galeão Santa Rosa fazia o comboio de 55 caravelas que zarpavam do Brasil colonial carregadas de ouro rumo à Europa. Tudo corria bem até que, por motivos desconhecidos, houve uma discussão a bordo, envolvendo os marinheiros e o capitão Bartholomeu Freire de Araújo. Durante o tumulto, alguém desceu ao depósito de munição, onde estavam estocadas mais de 4 toneladas de pólvora, e mandou tudo pelos ares. Dos 700 tripulantes, só três sobreviveram. A carga valiosa, de mais de 3,5 toneladas de ouro, afundou junto com a embarcação e permanece intacta até hoje no fundo do mar, em algum ponto entre a cidade do Recife e o litoral da Paraíba.


 
Quase três séculos depois do naufrágio, o tesouro do Santa Rosa está sendo caçado com a ajuda de satélites, robô submarino e outros equipamentos moderníssimos. A busca acontece nas proximidades do município de Cabo de Santo Agostinho, a 35 quilômetros do Recife. Ali, pesquisadores brasileiros do Consórcio de Pesquisas Arqueológicas Submarinas, Conpas, vasculham o mar a bordo do barco Fantasia com o objetivo de encontrar o Santa Rosa. Na farta história dos 1.500 registros de naufrágios ocorridos na costa brasileira, o galeão português tornou-se a jóia mais cobiçada pelos exploradores por causa de sua carga. Dividida em sete arcas de jacarandá, ela continha dobrões de ouro de até 53 gramas. Sozinha, uma dessas moedas pode atingir num leilão internacional a cotação de 20.000 dólares. Reunida, a fortuna valeria algo como 500 milhões de dólares.

Para colocar a mão no tesouro submerso, os exploradores estão investindo pesado. Estima-se em 1 milhão de dólares os gastos realizados até agora no litoral de Pernambuco. Caso encontrem o galeão sim, há a possibilidade de as buscas naufragarem sem que se tire do mar sequer uma âncora enferrujada , será necessário mais dinheiro ainda para viabilizar o resgate dos objetos. O orçamento, nessa etapa, pode bater na casa dos 4 milhões de dólares. "É como procurar agulha num palheiro, com a ajuda de alta tecnologia", compara Roberto Kerr, chefe da expedição.

Os trabalhos de localização são minuciosos. Começaram em 1995 e foram interrompidos várias vezes, pois a equipe só pode trabalhar durante o verão, quando as condições de visibilidade da água são as ideais. A partir desta semana, a equipe do Fantasia deve concentrar sua atenção em 200 pontos considerados suspeitos no fundo do mar. Num deles pode estar o Santa Rosa. Encontrá-lo é mais difícil do que se imagina. Depois de quase 300 anos debaixo d'água, a madeira do navio transforma-se numa massa disforme e vários microrganismos marinhos se aglutinam ao redor dos destroços. Para contornar essas dificuldades, os pesquisadores estão usando uma engenhoca chamada magnetômetro. Ela acusa a presença de metais no fundo do mar como o ferro dos canhões. A equipe conta também com a ajuda de um robô mergulhador, preparado para operar em profundidades superiores a 100 metros.

Fortuna perdida
Apesar dos riscos e custos, encontrar naufrágios valiosos é uma atividade que pode enriquecer de uma hora para outra um explorador persistente. Foi o caso do americano Mel Fisher, um ex-criador de frangos que se intitula hoje o "Maior Caçador de Tesouros do Mundo". Durante dezesseis anos ele farejou na costa da Flórida uma fortuna perdida durante o naufrágio de um galeão espanhol, o Nuestra Señora de Atocha, colhido por uma tempestade em 1622. Depois de perder a mulher e um dos filhos durante as buscas ambos morreram afogados , o mergulhador finalmente localizou o navio. O tesouro, avaliado em 180 milhões de dólares, foi repartido com os 1.100 acionistas que bancaram o custo de 15 milhões de dólares da expedição.

Um de seus principais rivais na atividade é outro mergulhador americano, Robert Marx. Conhecido como o "Rei do Ouro", o ex-fuzileiro naval guarda uma cicatriz no ombro provocada por uma mordida de tubarão e já deu entrevistas garantindo entornar meia garrafa de uísque por dia. Por realizar buscas que estavam em desacordo com a legislação de diversos países, foi expulso da França, Itália e Espanha. No Brasil, onde atuou durante o início dos anos 80, também provocou barulho. Marx participou dos trabalhos de recuperação da nau holandesa Utrecht, que naufragou na Baía de Todos os Santos durante uma batalha com navios portugueses, em 1648. Depois do resgate da embarcação, o mergulhador americano pilhou algumas peças que estavam guardadas na Capitania dos Portos de Salvador. Desde então, o Rei do Ouro está proibido de entrar no país.

Os maiores adversários dos caçadores de tesouro são os arqueólogos. Enquanto gente como Mel Fisher e Robert Marx concentram esforços para chegar rapidamente aos objetos de valor, nem que para isso seja necessário destruir todo o navio submerso, os arqueólogos realizam um cuidadoso e paciente estudo do naufrágio, o que inclui desde análises sobre as madeiras utilizadas na construção até a catalogação de peças utilizadas no cotidiano dos tripulantes. Nesse caso, um cachimbo de barro pode ser mais valioso do que alguns dobrões de ouro. "Os caçadores de tesouros agem como um legista que arranca os anéis de ouro e destrói o cadáver sem investigar sua causa de morte", compara o historiador Francisco Alves, do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática de Portugal, um dos pontos de referência mundial sobre o assunto.

Documentos secretos
No Brasil, as principais expedições que localizaram naufrágios não geraram trabalhos científicos de fôlego para os padrões da arqueologia moderna. Foram suficientes apenas para formar o acervo do Espaço Cultural da Marinha, na Capitania dos Portos do Rio de Janeiro. Um dos itens mais valiosos expostos nesse museu é um astrolábio de bronze recolhido na exploração do galeão Sacramento, que afundou na costa de Salvador em 1668. A peça, construída em 1624, está avaliada em 400.000 reais. Achados importantes realizados em zonas de naufrágio, como ossadas de mulheres e crianças em navios de guerra, foram ignorados durante as pesquisas. "Esse tipo de descoberta mereceria uma investigação séria, pois não era comum a presença de passageiros nesse tipo de embarcação", diz o arqueólogo Gilson Rambelli, coordenador do comitê temático do patrimônio cultural subaquático do Icomos, uma organização não-governamental estabelecida em vinte países que defende a preservação dos locais de naufrágio contra o apetite dos caçadores de tesouros.

Atualmente, o foco desse debate foi transferido para o Congresso Nacional. Espera-se que, nos próximos meses, o plenário aprove uma grande mudança na regulamentação sobre as buscas realizadas em zonas de naufrágio no Brasil. A lei atual permite a exploração submarina, mas proíbe a comercialização de objetos encontrados nesses locais. Se alguma empresa encontrar algo de valioso durante a busca, deve entregar uma relatório detalhado à Marinha, revelando o mapa do tesouro. Depois, abre-se uma concorrência para determinar quem poderá fazer o trabalho de resgate. Segundo seus críticos, a lei é ingênua porque afasta os investimentos em pesquisa e acaba estimulando ações clandestinas no litoral. "Ninguém vai gastar dinheiro sem garantia de retorno, e a fiscalização é ineficiente para flagrar a atividade de piratas na costa", reconhece um oficial de alta patente da Marinha. Os arqueólogos discordam. "Se aprovada a mudança na lei, o Brasil estará indo na contramão da tendência mundial de preservação do patrimônio cultural subaquático, abrindo espaço para a atuação de caçadores de tesouros despreocupados com pesquisas científicas", afirma o arqueólogo Rambelli.

Os responsáveis pela exploração do Santa Rosa apostam numa mudança da legislação brasileira para recuperar seu investimento. Embora bastante cobiçado, até hoje o tesouro não foi encontrado por causa do segredo em torno de sua localização. Por razões estratégicas, a coroa portuguesa trancafiava a sete chaves os detalhes das rotas dos navios que partiam carregados de produtos de suas colônias. Sabe-se de alguns detalhes do naufrágio graças à correspondência trocada entre o vice-rei da Bahia, Fernando de Menezes, e os conselheiros do rei dom João V. Os documentos oficiais, porém, omitem o local preciso do acidente. As peças que servem para completar o quebra-cabeça constam somente de relatórios secretos do inquérito aberto pela corte de Portugal com o objetivo de investigar as causas da explosão. A equipe do Conpas contratou seis historiadores para refazer o trajeto do Santa Rosa. Agora, com as informações colhidas em arquivos europeus, acha que, finalmente, poderá encontrar o fabuloso tesouro perdido do galeão.