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Festa com Sufoco
 
 
 
 
Festa com Sufoco

06 de outubro de 1999

A China comemora cinqüenta anos de comunismo com parada militar, prisões e perguntas no ar

Nenhum outro país do Terceiro Mundo poderia celebrar com tamanha pompa sua data nacional como fez a China, na sexta-feira passada, na festa dos cinqüenta anos da Revolução Comunista. O espetáculo foi grandioso: uma parada de 8 quilômetros, com meio milhão de participantes, um portentoso desfile de armas e veículos militares ao longo da Avenida da Paz Eterna, tudo acompanhado com reverência pelos mais poderosos governantes e investidores do planeta.


 
Os uniformes impecáveis e a precisão coreográfica dos movimentos na versão chinesa do passo de ganso - punhos cerrados, pés erguidos com a ponta esticada a exatamente 20 centímetros do chão - foram típicos dos regimes autoritários em seus momentos de triunfalismo máximo. É impossível negar, porém, que os chineses têm do que se orgulhar. A expectativa de vida saltou de 35 anos, em 1949, para 71. O índice de mais de 60% de analfabetismo caiu para 17%. A fome já não faz parte do cotidiano da maioria dos chineses. Com um quinto da humanidade e o título de potência nuclear há 35 anos, o país em nada lembra o império desfeito, humilhado e invadido por estrangeiros. Diante de conquistas como essas, não foi difícil encher as páginas autocongratulatórias dos discursos dos políticos e da imprensa oficial - a única permitida.

Para que a festa brilhasse, contudo, uma operação de guerra se desenrolou nas semanas anteriores. Segundo grupos de defesa dos direitos humanos com sede no exterior, a "operação arrastão" levou milhões de pessoas à cadeia, entre possíveis dissidentes, mendigos e deficientes mentais, adultos ou crianças. As fábricas entraram em recesso para que a atmosfera poluída de Pequim não maculasse a paisagem. Na véspera da festa, o primeiro-ministro Zhu Rongji disse que "atividades criminosas" - leia-se dissidentes - seriam duramente reprimidas. Para arrematar o tom de sufoco, acusou os Estados Unidos de insuflar a China a ir à guerra contra Taiwan, a ilha capitalista onde há cinqüenta anos se refugiaram os vencidos pela Revolução Comunista. No dia seguinte, de terninho Mao, o presidente Jiang Zemin comandou a celebração. Debaixo dele, no palanque, o imenso retrato de Mao Tsé-tung, o fundador da China comunista. Atrás, os contornos da soberba Cidade Proibida, lembrança de um império com 5 000 anos de história. Entre esses dois extremos, era difícil não perguntar: para onde vai a China?

Mantra da unidade

O pensamento de Mao, o grande timoneiro que se atribuía o papel de guardião da verdadeira essência do pensamento marxista, há muito deixou de dominar o cotidiano dos chineses. Seu regime uniu um país em frangalhos, mas mergulhou-o num oceano de tragédias. Os 30 milhões de mortos de fome na tentativa do governo de impor, nos anos 50, o desenvolvimento à força retrataram o sofrimento inominável provocado pela revolução. Depois da fome, veio o terror, com execuções em massa em meio à insanidade juvenil da Revolução Cultural nos anos 60. Apenas a morte do revolucionário, em 1976, permitiu uma mudança de rumo, com o fortalecimento do mercado preconizado por seu sucessor, Deng Xiaoping. Mao ainda é um herói chinês, mas a permanente revisão da História oficial diminuiu-lhe a aura de arquiteto da revolução socialista para reciclá-lo em pilar do patriotismo.

A China dos anos 90 tem muito mais a ver com Deng e seu bordão - "Enriquecer é glorioso". Se o país de Mao foi encerrado numa cela solitária, o que emergiu em 1978 desfrutou uma abertura inédita. Os chineses começaram a experimentar os desafios e prazeres da livre iniciativa na economia. Em meio a recordes de crescimento, alguns poucos esboçaram outro salto adiante, rumo a uma vaga liberalização política. A resposta veio com os tanques sobre os manifestantes da Praça da Paz Celestial, em 1989, para deixar claro que não há poder tolerável além do partido comunista. Manter a unidade - tradução: o comando do partido - e evitar o caos tornou-se o mantra do regime. Para sustentar o argumento, invoca-se o exemplo soviético, com o colapso econômico trazido pela derrocada do comunismo. Dez anos depois, a onipotência do Estado impõe a Jiang Zemin a difícil tarefa de conciliar abertura econômica com fechamento político.

Se os dirigentes chineses mantiverem o controle de seu ato contínuo de malabarismo, se a economia continuar a crescer e as reformas avançarem, as perspectivas são de tirar o fôlego. Em duas décadas, o país recriado em 1949 por camponeses miseráveis terá uma renda per capita de 10 000 dólares - o dobro da brasileira, atualmente. Dentro de meio século, a China pode ser a maior economia do planeta. Se tudo der errado, o mundo vai ter de conviver com uma Rússia de mais de 1,5 bilhão de habitantes?