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14 de julho de 1999

Expedição percorre 50 000 quilômetros para coletar todas as bromélias da Mata Atlântica

No último ano e meio, o biólogo carioca Gustavo Martinelli levou uma vida de aventureiro e passou o equivalente a quatro meses e meio embrenhado no mato. Em um jipe com tração nas quatro rodas, ele percorreu cerca de 50.000 quilômetros entre o Ceará e o Rio Grande do Sul. Dormiu em barraca, foi picado por insetos, arranhou-se em espinhos, e o melhor prato que comeu foi arroz com feijão. Doutor em biologia reprodutiva pela Universidade de Saint Andrews, na Escócia, Martinelli, de 45 anos, está prestes a finalizar o maior desafio de sua carreira: coletar e catalogar todas as espécies de bromélia no que restou de Mata Atlântica ao longo do litoral brasileiro. É a primeira vez que se faz um rastreamento dessa amplitude no país. Antes, outros botânicos, como a inglesa Margaret Mee, haviam produzido um tipo de rascunho da família das bromeliáceas brasileiras - não mais do que isso. Agora, a idéia é mapear todas as espécies e montar um banco de dados no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Uma das regiões de maior biodiversidade, e também das mais ameaçadas de destruição no mundo, a Mata Atlântica é uma estufa natural de bromélias. Estima-se que suas florestas abriguem 70% das cerca de 1300 espécies que são encontradas no Brasil. Nas cinco expedições já realizadas, Martinelli e sua assistente, a bióloga Thelma Barbará, colheram 2.270 mudas, num total de 600 espécies. Entre elas estão algumas inéditas, como a Crypthantus (veja quadro), e raríssimas, como a Aechmea multiflora, detectada exclusivamente na Reserva Biológica de Santa Isabel, no município sergipano de Pirambu. Outras são mais conhecidas, como a Aechmea nudicaulis, que brota em toda a Mata Atlântica graças à imensa capacidade de dispersão de sementes e resistência às variações climáticas. Até setembro, os dois bandeirantes da botânica pretendem desbravar as matas e as restingas do Espírito Santo e de São Paulo, completando as duas expedições que restam para o fim do projeto.

As bromélias são plantas típicas do continente americano. Originárias do topo dos Andes, elas se esparramaram no decorrer dos milênios, alcançando as florestas tropicais há cerca de 200.000 anos. Até hoje apenas uma, das 3.000 espécies conhecidas, foi encontrada fora das Américas. É a Pitcairnia feliciano, da Guiné, na África. A maior concentração dessas plantas fica na região tropical, que engloba da Costa Rica até as Guianas e o litoral brasileiro. Existem 700 espécies exclusivas do território nacional. Martinelli está traçando o perfil dessas bromélias. Equilibrando-se em rochas no meio do mato ou fincada em praças públicas nas grandes cidades, a bromélia resiste às situações mais inóspitas. Cheia de fibra, ela sobrevive à falta de água e consegue economizar nutrientes. Por causa do acúmulo de água dentro de suas folhas rígidas, animais de todas as espécies vivem a seu redor. "Essas plantas funcionam como um amplificador da biodiversidade", diz Martinelli. "Se forem destruídas, milhares de animais morrerão junto."

Cisternas naturais

Em virtude da capacidade de armazenar água, algumas bromélias são verdadeiras cisternas naturais. Com altura que pode chegar a 4 metros, a Alcantarea imperialis, da Serra dos Órgãos, no Estado do Rio, consegue acumular até 30 litros de água. Outras, como a Tillandsia, são do tamanho de uma caixa de fósforos e só absorvem água da atmosfera por meio das folhas. Além de muito úteis ao meio ambiente, as bromélias podem ser belíssimas. A Billbergia chlorosticta reúne um vasto conjunto de tons. De fora para dentro, ela tem cores que vão do roxo ao amarelo. Há bromélias que dão centenas de flores de cada vez, como a Portea leptantha, de Alagoas. Ela exibe 200 botões amarelos na primeira florada. Depois, morre.

Na busca das bromélias, Martinelli, Thelma e Ricardo Azoury, o fotógrafo da expedição, acordam às 5 da manhã e vão se deitar tarde da noite. Durante o dia, sobem e descem trilhas íngremes, andam horas seguidas no meio do mato e colhem as mudas das bromélias, que são colocadas em sacos especiais para não desidratar. Ao pôr-do-sol, começa um trabalho que requer muita paciência. Os biólogos separam e identificam todas as mudas. Depois, despacham-nas por avião para o Jardim Botânico, no Rio. Na bagagem, Martinelli carrega um laptop e um GPS - equipamento de localização via satélite. Muitas vezes, a expedição não consegue nada de especial. Em outras, traz ouro em flor. "Temos pelo menos quatro espécies suspeitas de ser novas", conta Martinelli.

Em sua peregrinação pelo interior alagoano, Martinelli esbarrou com a quase extinta Portea pickellii. Ela estava incrustada em um galho de árvore, dentro de uma pequena mata no meio de um canavial. Martinelli não perdeu tempo e escalou o tronco da árvore para recolher uma amostra da planta. Antes, a espécie tinha sido vista uma única vez, em Pernambuco, 36 anos atrás. Outra bromélia que a expedição comandada por Martinelli está salvando da extinção é a Dycria distachya. É uma planta de 10 centímetros de altura que vive às margens do Rio Uruguai, na divisa dos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A região será alagada quando uma hidrelétrica da Eletrosul ficar pronta. As Dycrias só não serão extintas porque o biólogo já resgatou alguns exemplares e os enviou para a estufa construída recentemente no Jardim Botânico. "Daqui a 500 anos, os cientistas vão saber onde e como viviam as bromélias de cada região e poderão replantá-las", diz Martinelli.

Toda vez que uma nova espécie de bromélia é encontrada, há uma agitação entre os pesquisadores e os colecionadores. Eles querem saber como ela é e comprovar seu ineditismo. Está sendo assim com a Crypthantus, descoberta pelo biólogo Gustavo Martinelli um mês atrás. Ela foi localizada em meio às dunas perto da praia, sob árvores remanescentes da Mata Atlântica, na Reserva Biológica de Santa Isabel, em Sergipe. Com cerca de 40 centímetros de altura, essas bromélias possuem uma flor branca que fica embutida entre as folhas lisas. "A identificação requer um trabalho cuidadoso, que demora até um ano", diz Martinelli, que tem ainda outras três espécies sob verificação.

A primeira bromélia foi descrita em 1753 pelo botânico sueco Carl Linnaeus. De lá para cá, milhares delas foram analisadas. Para registrar a planta nos anais da botânica, é preciso comprovar que nunca foi vista ou descrita cientificamente antes. Primeiro, reúnem-se todos os detalhes e características da nova bromélia. Em seguida, faz-se uma comparação com as espécies já listadas em livros, revistas científicas e herbários. Uma vez confirmada a originalidade, ela entra no rol oficial das bromélias. O pesquisador a batiza e publica a descoberta em uma revista científica. Em seus 26 anos de estudo, Martinelli batizou 25 espécies.


Portea leptantha: 200 botões
amarelos na única florada

Billbergia chlorosticta: uma rara combinação de cores
Aechmea nudicaulis: as bromélias vieram dos Andes e armazenam água para outras espécies
Aechmea multiflora: encontrada apenas em uma praia de Sergipe