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24 de março de 1999

Maior do mundo, a Biblioteca do Congresso tem uma infinidade de livros e muito mais

O saguão central da biblioteca: falta espaço para acomodar as 20 000 aquisições diárias

Num de seus contos mais famosos,A Biblioteca de Babel,o escritor argentino Jorge Luis Borges imagina uma coleção infinita de livros. As obras repousam sobre estantes intermináveis. Os corredores formam um labirinto impossível de deslindar. Quem conhece essa história dificilmente consegue tirá-la da cabeça ao visitar a Biblioteca do Congresso, em Washington. Preparando-se para comemorar 200 anos de existência, a instituição é a maior do gênero no mundo. São mais de 115 milhões de obras catalogadas, num acervo que, se não é "infinito", ao menos cresce sem parar: todos os dias, cerca de 20.000 itens são acrescentados a ele. E engana-se quem imaginar que os documentos lá reunidos são inestimáveis apenas para os americanos e pessoas capazes de ler em inglês. A maioria dos materiais preservados na biblioteca diz respeito a outras culturas. Pelo menos 460 línguas são representadas nas coleções - entre as quais, é claro, o português.


 
Os números
Total de itens catalogados:
115,3 milhões
17,7 milhões de livros
9,3 milhões entre monografias, jornais, panfletos, relatórios técnicos
88,3 milhões entre manuscritos, mapas, microfilmes, fotografias, gravuras, desenhos, materiais em áudio
Consultas por mês: 60 milhões, em média
Orçamento anual da biblioteca: 377,2 milhões de dólares

Embora o nome possa causar um pouco de confusão, as obras provenientes do Brasil e de Portugal estão localizadas no Departamento Hispânico, cuja entrada abriga quatro grandes murais pintados especialmente para o local por Cândido Portinari na década de 40. Há ali tesouros, como a carta enviada em 1488 pelo rei de Portugal ao papa, na qual ele proclama que todas as descobertas da coroa serão parte da cristandade. A política da biblioteca, entretanto, dá maior ênfase à compra de obras novas do que à aquisição de relíquias. Nesse aspecto, o acervo brasileiro é um dos que mais aumentam. Desde 1966 a Biblioteca do Congresso conta com um escritório no Rio de Janeiro - o único na América Latina. "Por inúmeras razões políticas e econômicas, os olhos do mundo todo estão voltados para o Brasil neste fim de século", afirma o diretor da biblioteca, James Billington. "Por isso, é fundamental ter informações completas a respeito deste país que, além do mais, possui tantas semelhanças com os Estados Unidos." Nomeado para o cargo de bibliotecário em 1987, Billington iniciou na quinta-feira passada sua primeira visita ao Brasil, com passagens previstas por Brasília, Rio e São Paulo.

"Mais livros!"
A Biblioteca do Congresso americano tem uma história pitoresca. A lei que a criou foi aprovada em abril de 1800, destinando 5.000 dólares, em valores da época, à aquisição de livros a ser consultados por deputados e senadores. Em 1814, o acervo, guardado numa sala do próprio Capitólio, foi incendiado durante uma invasão de tropas inglesas. Não demorou muito para que uma proposta de reconstrução da biblioteca surgisse. Ela veio do ex-presidente Thomas Jefferson (1743-1826), um dos pais da pátria americana, homem culto, de interesses variados e ainda por cima colecionador compulsivo, que costumava exclamar: "Eu preciso ter mais livros!" Para que a biblioteca não recomeçasse do zero, Jefferson ofereceu sua coleção, de cerca de 6.000 títulos, ao Estado por 23.900 dólares. Alguns congressistas se opuseram. A maior crítica tinha a ver com o ecletismo do acervo, formado, segundo um senador, por obras "velhas, novas e depauperadas, em línguas que muitos não conseguem ler e a maioria nem deveria". A resposta de Jefferson tornou-se clássica. Segundo ele, não existia assunto no mundo ao qual "um membro do Congresso não possa vir a ter a oportunidade de pesquisar". A compra foi feita e definiu dali por diante o perfil da biblioteca.

Essa vocação multifocal, aberta a todos os assuntos e culturas, teve ênfase ainda maior nos dias de hoje, quando os livros deixaram de ser o alvo exclusivo das compras e as coleções se abriram para outros tipos de itens. Assim, a Divisão de Impressos e Fotografias conta com mais de 13,6 milhões de obras, que vão desde daguerreótipos até pôsteres e caricaturas. A Divisão de Música abriga, além de vários milhões de partituras e gravações, mais de 1800 instrumentos (entre os quais três dos famosos violinos Stradivarius) e algumas curiosidades, como um cacho dos cabelos de Beethoven. Na Divisão de Filmes, mais números grandiosos e mais raridades, numa coleção que é forte em relíquias dos primeiros tempos do cinema. Até mesmo um divertidíssimo conjunto de objetos da cultura pop foi coletado durante alguns anos, em razão de leis de direito autoral que determinavam que qualquer coisa patenteada nos Estados Unidos tivesse uma cópia enviada para a Biblioteca do Congresso. Assim, desde camisetas de Marilyn Monroe até bonecas originais da linha Barbie e do programa Vila Sésamo podem ser encontradas lá.

"Toda essa diversidade criou, historicamente, sérios problemas de armazenagem e preservação para a biblioteca", conta James Billington. A falta de espaço se fez sentir pela primeira vez no final do século passado, quando livros empilhados caoticamente pelo chão das salas de leitura do Capitólio levaram à construção da primeira sede independente da biblioteca, o Edifício Jefferson, inaugurado em 1897. Desde então, dois outros prédios vizinhos foram levantados e, mesmo assim, os livros voltam a se espalhar pelo chão hoje em dia, segundo constata Steve Herman, chefe da coleção geral. No próximo ano, um novo edifício deve ser aberto a 40 quilômetros de Washington, que irá juntar-se a galpões localizados nos Estados de Maryland e Ohio, onde ficam coleções específicas - como as de filmes de acetato, altamente inflamáveis, que precisam ser guardados de maneira especial.

Folhetos de cordel
O material brasileiro enfrenta as mesmas "dificuldades" causadas pela abundância. Atrás das salas de leitura, várias caixas estão empilhadas com itens que aguardam catalogação. "Nunca enfrentei problemas de orçamento para comprar o que achei necessário", diz a mineira Iêda Siqueira Wiarda, a especialista em cultura luso-brasileira. "No geral, podemos até dizer que a biblioteca brasileira é, hoje em dia, mais abrangente até do que a mexicana, apesar de o México ser vizinho dos Estados Unidos." Uma boa medida do papel de referência que a Biblioteca do Congresso assume para pessoas interessadas no Brasil, em diversas partes do mundo, é dada por uma história envolvendo o romancista peruano Mario Vargas Llosa. Na década de 80, o escritor dedicou um de seus principais romances, A Guerra do Fim do Mundo, ao conflito de Canudos, que no fim do século passado opôs os miseráveis comandados pelo messiânico Antônio Conselheiro às tropas do governo republicano. Vargas Llosa fez pesquisas de diversos tipos, incluindo visitas ao local das lutas. Conforme declarou em várias entrevistas, grande parte de seu material de leitura veio da Biblioteca do Congresso, onde encontrou mais dados do que nos arquivos brasileiros. Para se atualizar, a biblioteca mantém acordos com entidades oficiais em Brasília e outras cidades importantes. Os funcionários do escritório carioca têm a missão específica de bater de porta em porta - de editoras a institutos de pesquisa - requisitando publicações. O arquivo de folhetos de cordel é outra menina dos olhos da Divisão Hispânica: são mais de 6.000 deles, provavelmente a maior coleção do mundo.

Participação brasileira
200 000 livros
20 000 mapas
100 gravações de entrevistas com escritores brasileiros
6 000 folhetos de cordel (a maior coleção do gênero no mundo)

Hoje em dia, a internet é uma poderosa ferramenta para aqueles que desejam vasculhar os registros da Biblioteca do Congresso e não podem viajar aos Estados Unidos. Cerca de 27 milhões de dados catalográficos estão disponíveis na rede (http://www.loc.gov), embora o número de documentos transpostos para o suporte eletrônico seja bem menor, algo em torno de 50.000. O site é extremamente bem organizado - um dos 100 melhores do mundo, segundo as publicações especializadas -, mas a vastidão dos arquivos exige paciência e treino para aqueles que desejam aventurar-se. Desde que assumiu o cargo, James Billington fez da informatização da biblioteca uma de suas bandeiras. Se o bibliotecário que o antecedeu, Daniel Boorstin, se referia a ela como "a maior enciclopédia multimídia do mundo", Billington pretende transformá-la numa "imensa universidade eletrônica". O que ele acha da idéia segundo a qual os livros serão substituídos, no futuro, por arquivos de computador? "Nunca devemos confiar em ninguém que não goste de livros, e a internet continua a ser em grande parte um repositório de bobagens visuais", sentencia o diretor, sinalizando qual é, apesar de toda a tecnologia disponível, a prioridade - e a razão de ser - de uma biblioteca.

Coleção eclética

FOTOGRAFIA - São 20 milhões de itens, incluindo daguerreótipos raros como a imagem do Capitólio, que data de 1842

MÚSICA - Entre os mais de 1 800 instrumentos, há três violinos Stradivarius. Outro destaque são as coleções de fotos como a do maestro Leonard Bernstein

HISTÓRIA - Além de documentos, a biblioteca tem fotos raras, como esta da guerra civil americana, tirada em 1861

CULTURA POPULAR - Badulaques como bonecas Barbie, pôsteres de Marilyn Monroe e figurinhas de jogadores de beisebol (ao lado, à esquerda) também fazem parte do acervo

MAPAS - Há 4,5 milhões, 20 000 referentes ao Brasil. Entre os mais antigos está um mapa-múndi de 1664, em que não aparece o Oeste americano