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Sonho (quase) Impossível

07 de fevereiro de 2001

As promessas de médicos que se dizem capazes de clonar um ser humano são apenas propaganda enganosa

Ovelha Dolly: animal jovem com células e cromossomos envelhecidos

Desde que a ovelha Dolly, criada pelo escocês Ian Wilmut, ganhou as manchetes de jornais, é cada vez maior o número de médicos e cientistas que se julgam a um passo de produzir um clone humano. Dão larga publicidade à idéia de que, com o atual arsenal de técnicas de reprodução artificial e de engenharia genética, a clonagem humana seria um passeio. Não é. Como se verá a seguir, é um sonho quase impossível. Picotar uma célula, retirar seu núcleo, manipular o DNA, inserir nele genes alienígenas ou duplicar embriões artificialmente são procedimentos que já fazem parte do cotidiano de qualquer bom laboratório de genética.


 
A receita para fazer outra Dolly também é teoricamente conhecida: esvazia-se o conteúdo genético de um óvulo, introduz-se o DNA retirado de uma célula comum e fundem-se os dois, gerando um embrião. Depois, implanta-se a nova cria no útero de uma mãe de aluguel. Dito assim parece simples. Mas é infinitamente complexo. Dolly foi a única ovelha que nasceu de centenas de embriões clonados pela equipe de Wilmut. Eles nunca mais tentaram clonar da mesma maneira outra ovelha. "O trabalho é tão arriscado, dispendioso e complexo que não nos animamos a tentar de novo", diz Wilmut.

Dados de quatro laboratórios diferentes indicam que, quase cinco anos depois de produzida a ovelha escocesa, o sucesso em experiências do gênero é muito baixo: gira em torno de 1%. O caso do ratinho "Fibro", clonado a partir de células do rabo de um outro rato macho há dois anos, é parecido com o da ovelha. Foram necessários 274 embriões para que apenas três filhotes nascessem de uma cesariana. Dois deles morreram por problemas respiratórios. Melhores resultados nesse campo foram obtidos com bovinos na Nova Zelândia e no Japão. Mas, ainda assim, a eficiência do processo foi de 10% e a comunidade científica não se convenceu totalmente da lisura dos procedimentos utilizados. A maciça maioria das experiências resultou em aberrações monstruosas, incapazes de sobreviver, com excesso de peso, corações e pulmões pouco desenvolvidos, além de gravíssimos problemas imunológicos. Evidenciou-se também um risco enorme para a saúde das mulheres que, eventualmente, emprestarem o útero ao desenvolvimento de filhos artificiais.

As experiências com animais resultaram em morte das hospedeiras num número assustadoramente grande de casos. Na Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, três vacas que carregavam bezerros clonados no ventre sofreram uma inexplicável e fatal mutação hepática que as matou rapidamente. Os pesquisadores atribuíram a anomalia a um problema de metabolismo induzido pelo clone que carregavam. Com relação a seres humanos, as primeiras experiências dificilmente seriam diferentes. Para produzir um único feto potencialmente capaz de se desenvolver seria necessário sacrificar quase uma centena de embriões monstruosos. Encontrar mulheres voluntárias dispostas a enfrentar a traumática experiência de gerar anomalias que poderiam colocar em perigo a própria vida é outro desafio difícil de contornar. "As chances de sucesso da clonagem humana são tão pequenas que é irresponsável encorajar as pessoas a acreditar nessa possibilidade", diz o pesquisador Harry Griffin, do Instituto Roslin, na Escócia, onde Dolly foi clonada.

Em laboratório, mesmo quando os animais clonados nascem e sobrevivem, não há garantias. Quando Dolly completou 3 anos, em 1999, os pesquisadores que a criaram descobriram que ela tinha células de uma ovelha de 8 anos de idade. Suas características biomoleculares eram as mesmas do tecido que a originou, retirado de uma ovelha mais velha. Um clone humano, portanto, pode vir ao mundo com células da mesma idade da pessoa adulta que lhe deu origem. Não se sabe ao certo, mas, pelo menos na teoria, se poderia ter um ser humano que já na infância sofreria as doenças degenerativas mais comuns, como reumatismo, artrite, diabetes e até câncer. "As etapas básicas de pesquisa para pensar em clonagem humana não foram cumpridas nem com cobaias animais", diz o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais. "Até hoje, nenhum primata superior foi clonado a partir da transferência de células adultas de outro animal", acrescenta. Segundo os cientistas, até que se fale em clonagem humana será preciso realizar a experiência com êxito total centenas ou milhares de vezes em chimpanzés, que são geneticamente bastante semelhantes ao homem. Antes disso, as promessas de clonagem humana não passam de bazófia.

Foi exatamente como bazófia que a mais recente publicidade em torno do assunto foi tratada. Dono de uma das mais famosas clínicas de reprodução artificial da Europa, o médico italiano Severino Antinori tem no currículo a inseminação artificial de uma mulher de 63 anos. Um recorde. Também se deve a ele a primeira experiência de amadurecimento de espermatozóides humanos em ratos. Passou pelas manchetes dos jornais dizendo-se capaz de ajudar um padre italiano a tornar-se pai sem que ele ejaculasse e conspurcasse seus votos religiosos. Na semana passada Antinori anunciou que pretende coordenar um grupo internacional de especialistas que tentará, pioneiramente, clonar um ser humano a partir de uma célula retirada de uma pessoa adulta. O nome do país onde o projeto será desenvolvido está sendo mantido em segredo. O médico Panos Zavos, professor da Universidade do Kentucky e porta-voz do grupo, anunciou que já existe uma lista com nomes de dez casais, todos com problemas incontornáveis de infertilidade, dispostos a se submeter à experiência. "A clonagem de seres humanos é uma questão de tempo e é melhor que seja feita por pesquisadores como nós", disse Zavos, sem nenhum sinal de modéstia. "Certamente, iremos respeitar todos os princípios éticos." O primeiro deles, o de não veicular propaganda enganosa, já foi quebrado pela dupla.