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Quem Somos Nós?

20 de dezembro de 2000

O mistério é saber o que cada um de nós é. Europeus, negros e índios estão na base genética dos 170 milhões de habitantes do país.

Todas as nações e todas as pessoas manifestam curiosidade em relação a seus antepassados. Os brasileiros, mais que os habitantes de países de população homogênea, têm interesse redobrado pelo assunto. Há um mistério e um problema na geração do povo brasileiro. O mistério é saber o que cada um de nós é. Europeus, negros e índios estão na base genética dos 170 milhões de habitantes do país. Sabe-se hoje que mais de 60% dos que se julgam "brancos" têm sangue índio ou negro correndo nas veias. O problema está no fato de que essa mestiçagem influi na maneira como a população se enxerga. Pelo tipo de beleza loura exibida em novelas da televisão, anúncios publicitários e passarelas da moda, o Brasil, ou a elite brasileira, parece envergonhar-se de sua mestiçagem. Sem dizê-lo explicitamente, anuncia uma suspeita aspiração nórdica. Alguns pensadores brasileiros chegaram a pregar o "branqueamento" da nação por meio da imigração. Outros, mais generosos, enxergaram as virtudes que a miscigenação propicia, mas a raça nunca foi um assunto neutro no Brasil. Individualmente, a pessoa interessada em retraçar suas origens tem dificuldade para ir além dos avós ou bisavós. No plano nacional, a falta de clareza se repete. Somos majoritariamente mestiços, sabemos, mas os censos populacionais pecam pela imprecisão: branco, negro ou pardo são categorias cravadas com base na aparência, no contexto social, na autopercepção.

PAULO ZULU (PAULO CEZAR FAHLBUSCH PIRES)
Ancestralidade materna: África Subsaariana
Ancestralidade paterna: Europa
Ancestralidade genômica: africana (99,5%)

"Não sabia, mas gostei. O apelido foi mais forte que o sobrenome", brinca o modelo. O sobrenome Fahlbusch de Paulo Zulu é de seu avô por parte de mãe, o alemão Eugen Fahlbusch, que veio para o Brasil e casou-se com Maria do Carmo Andrade. Nascida em Muriaé, Minas Gerais, Maria do Carmo é brasileiríssima - dela, com certeza, vem a predominância africana nos genes de Zulu. "Fiquei surpresa com a africanidade de Paulo. Meu pai era daqueles alemães 'puros', e eu puxei por ele", diz a mãe do modelo, Hannelore. Os avós maternos do pai de Paulo Zulu eram portugueses.

A resposta sobre quem somos, mesmo contra a opinião dos censos, está sendo encontrada dentro de nós mesmos. Um conjunto de pesquisas, comandadas pelo geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), começa a estabelecer com precisão, do ponto de vista da genética, quem são e de onde vêm os brasileiros. O estudo, tocado por dez cientistas e intitulado "Retrato molecular do Brasil", permite saber quem deu origem ao pai e à mãe de cada pessoa: se europeu, africano ou índio (veja como foi feita a pesquisa). A partir daí, projetando as amostragens, já existem resultados fascinantes. Um exemplo: 97% dos brancos brasileiros têm ancestrais europeus pelo lado da linhagem paterna. Nesse mesmo grupo, as linhagens maternas se abrem numa árvore de três ramos: 39% são européias, 33% ameríndias e 28% africanas. Ao todo, 61% dos brasileiros brancos têm herança indígena ou africana em seu patrimônio genético, sempre pelo lado materno. Esses números confirmam aquilo que já se sabia de forma imprecisa. Os brancos, colonizadores ou imigrantes, tiveram filhos em larga escala com índias da terra ou africanas trazidas para o trabalho escravo. Vovô chegou aqui para fazer a América e pegou a vovó no laço para satisfazer seus apetites carnais. Assim, de um ponto de vista antropológico, o brasileiro sofre de uma síndrome de bastardia, que se reflete em sua auto-imagem e na cultura que produz.

JOSÉ SARNEY (JOSÉ RIBAMAR FERREIRA DE ARAUJO COSTA)
Ancestralidade materna: África Central
Ancestralidade paterna: Europa, Ásia e África
Ancestralidade genômica: européia (99,999999%)

O senador é estudioso do assunto e sabe muita coisa sobre as origens de sua família. "O primeiro Araújo (antepassado do pai) que chegou ao Maranhão foi Constantino de Araújo, em 1702. Ele veio de Arcos de Valdevez, no norte de Portugal, mas a família é oriunda da Galícia. Por parte de mãe, os ancestrais mais próximos são portugueses também. Minha mãe é bisneta de Antonia de Vilaça, portuguesa de Póvoa do Varzim, que chegou a Pernambuco em 1848. E neta de Tereza Belchior, uma cafuza (mistura de índio com negro)", explica.

Os resultados da segunda parte da pesquisa, que VEJA publica com exclusividade, avançam mais nessa quantificação inédita. Os pesquisadores desenvolveram um método que permite estabelecer quanto de europeu (mais precisamente, euroasiático) e de africano tem cada brasileiro hoje. É aí que a miscigenação, "signo sob o qual se formou a etnia brasileira", na definição do historiador Caio Prado Júnior, aflora por inteiro. Um brasileiro com todas as características externas de branco, mostra o estudo, pode ser portador do mesmo perfil genético que um africano da gema. Da mesma forma, um brasileiro de pele escura pode ser geneticamente tão branco quanto um descendente de europeus. "No Brasil, a relação da cor da pele com o conteúdo genético das pessoas é muito pobre", constata Sérgio Pena.

PAULO COELHO
Ancestralidade materna: Europa
Ancestralidade paterna: Europa
Ancestralidade genômica: européia (99,999999%)

"Tudo europeu, que chato! Queria ter um pouco de negro, de árabe, de judeu", lamentou. O pai e o avô de Paulo Coelho nasceram no Pará. A mãe de seu pai é do Rio Grande do Sul. Seus avós maternos e sua mãe nasceram no Rio de Janeiro. Ele não sabe mais detalhes sobre sua ascendência, mas se diz muito frustrado com os resultados dos exames.

Para dar uma amostra, aleatória, do tipo de resultado auferido pelos métodos de Pena e equipe, VEJA convidou quinze personalidades para se submeterem aos testes - que podem ser feitos por qualquer interessado no laboratório Gene, em Belo Horizonte, ao preço de 880 reais o "pacote". O procedimento é simples: basta recolher células da mucosa da boca com uma escovinha, exatamente como quem faz exames de DNA para comprovação de paternidade. No final, os homens têm direito a três diplomas: um referenda a ancestralidade paterna, outro a materna e o terceiro atesta a ancestralidade genômica, ou seja, o tempero que predomina na salada genética da pessoa hoje. No caso das mulheres, os diplomas são dois, pois ainda não é possível definir o ancestral paterno original.

Alguns resultados eram rigorosamente previsíveis. Paola Maria Bourbon de Orleans e Bragança Sapieha, princesa descendente da família real brasileira pelo lado materno, cravou "europeu" em todas as categorias. Outros trouxeram surpresas irresistíveis. O modelo Paulo Cezar Fahlbusch Pires, apelidado na juventude de Zulu, numa brincadeira dos amigos surfistas com o bronzeado que adquiria sob o sol carioca, desmente os olhos verdes e os lábios finos. Geneticamente, é africano. Melhor ainda, essa herança foi passada pela mãe de nome sonoramente germânico. Explicação: Hannelore Fahlbusch é filha de alemão com brasileira e essa avó de Paulo Zulu tem sua origem na África. Tem mais. Nas últimas gerações, genes africanos freqüentaram com tal assiduidade a árvore familiar do modelo que, hoje, sua seqüência genética combina com as marcas típicas da África Ocidental. Já Vicente Paulo da Silva, o líder sindical Vicentinho, da Central Única dos Trabalhadores, um "mulato típico", tem origem provavelmente moura por parte de pai. A mãe vem de tronco africano, mas nas gerações mais recentes os genes euroasiáticos sobressaíram na família. Resultado: o perfil genético de Vicentinho é predominantemente europeu, o que lhe dá direito a um "diploma de branco".

ANTONIO CARLOS MAGALHÃES
Ancestralidade materna: Europa Ocidental
Ancestralidade paterna: Europa
Ancestralidade genômica: européia (99,999999%) "Já sabia disso, embora, como bom baiano, desejasse uma pitada de mistura", diz o senador. A família do pai dele veio do norte de Portugal - os avós eram portugueses. E a da mãe também tem origem européia, "mas não sei precisar o lugar exato".

A salada brasileira é inesgotável. A índia Aigo, a jovem dançarina que durante uma rápida passagem pelo programa O+, da Rede Bandeirantes, teve a autodeclarada origem indígena apontada como golpe publicitário, agora pode provar: é descendente de índia, mesmo. Aigo (na carteira de identidade, Shirley Cristina Rocha) tem, portanto, direito de continuar a desfilar de cocar, peito nu e rebolado de pagodeira. Por sua vez, Susana Alves, a Tiazinha de lisa cabeleira de Iracema moderna, nunca pousou o pé na tribo. De ancestralidade materna africana, ela tem perfil europeu. Caso similar ao do ex-presidente José Sarney, cujas raízes remotas por parte materna vêm da África, pelo lado paterno misturam os três grandes troncos (europeu, asiático e africano) e, na mistura final, redundam também num "diploma de branco".

SUZANA ALVES
Ancestralidade materna: África Ocidental
Ancestralidade genômica: européia (99,99%)
Os pais de Suzana são de Cajazeiras, no interior da Paraíba. "Fiquei muito surpresa. Nunca imaginei que minhas características fossem totalmente européias. Se bem que sou muito branca. Minha pele é morena porque tomo muito sol desde os 13 anos. O teste me deixou curiosa por saber mais detalhes sobre minha ancestralidade."

A visão do Brasil como um "laboratório de raças" está na base da formação nacional e mobilizou alguns dos mais importantes estudiosos no campo da sociologia e da antropologia. "Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena e do negro", escreveu Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala. Freyre foi pioneiro na separação entre "raça" e "cultura" e também o primeiro a destacar a miscigenação como ponto positivo. Em 500 anos de História, o Brasil construiu no trópico um país de cultura riquíssima, colorida por uma luz toda especial nas festas, na culinária, na música. O Brasil está entre as dez maiores economias do mundo, e seu povo, com todas as dificuldades práticas trazidas por diferenças de renda e de educação, aprende rápido, exibe capacidade incomum de adaptar-se a novidades e de contornar o desastre. Essa é uma herança positiva que muitos pensadores da atualidade destacam. No passado, porém, a corrente dominante da inteligência nacional só via defeitos naquilo que é uma de nossas virtudes.

À luz do contexto histórico e dos conhecimentos científicos do passado, não é de espantar que o Brasil sempre tenha desejado ser branco - a cor do descobridor, do colonizador, enfim, da matriz européia, na qual o país queria espelhar-se. O índio da terra era o bugre, que precisava ser domado, catequizado, incorporado à força de trabalho ou, quando todas as alternativas falhavam, eliminado. O africano era trazido a ferros para a indignidade da escravidão, um estigma permanente.

BENEDITA DA SILVA
Ancestralidade materna: África Ocidental
Ancestralidade genômica: africana (99,7%)
"Estive no Senegal e tive quase certeza de que nós viemos de lá", conta Benedita. Ela lembra que sua bisavó materna dizia que os antepassados tinham vindo de Angola. Mas, do lado do pai, "muito alto, muito negro", o tipo, segundo ela, combina perfeitamente com o dos senegaleses que conheceu.

No século XIX, as idéias positivistas deram um verniz científico ao anseio de brancura. Para que o país progredisse e se firmasse no concerto das nações, era necessário o "branqueamento da população" - conceito sob o qual foram abertas as portas para a imigração européia. Em 1911, João Batista Lacerda, diretor do Museu Nacional, deu até uma data para que isso acontecesse: por volta de 2020, escreveu, não haveria mais negros no Brasil. Na década seguinte, seu sucessor no museu, o médico e antropólogo Edgard Roquette-Pinto, já tinha uma visão mais avançada. Ele mediu e analisou militares de quartéis localizados nas cercanias da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, com equipamentos de medidas antropométricas (balanças, réguas especiais, escalas de tipos de cabelo e cor da pele) para demonstrar que o processo de miscigenação não alterava as proporções corporais nem a capacidade mental. Ou seja, os mestiços não eram tipos degenerados - idéia que causou polêmica ao ser apresentada no Congresso Brasileiro de Eugenia de 1929.

AIGO (SHIRLEY CRISTINA ROCHA)
Ancestralidade materna: ameríndia
Ancestralidade genômica: africana (58,4%)
"Este teste vai ser bom para calar a boca de todo mundo. Eu sou índia, mesmo. Sempre soube que minha avó por parte de mãe era índia. Fui à Funai, dei o nome dela (Aigo Enaldo) e eles a localizaram em uma tribo bororó. Minha avó nasceu e viveu com a tribo, engravidou de um negro, e minha mãe nasceu na tribo e morou na cidade. Já a família do meu pai é uma mistura de espanhóis com italianos, principalmente. Meu pai é mineiro e tem olhos verdes, mas a bisavó dele era negra."

Não é preciso ser nenhum militante dos direitos dos negros para constatar que, com todas as mudanças ocorridas desde então, no Brasil a brancura da pele continua a trazer mais vantagens do ponto de vista social e econômico. É comum entre os brasileiros, quando se sentem suficientemente seguros, fazer brincadeiras sobre as origens familiares miscigenadas. Quando é conveniente passar uma imagem progressista ou emitir um bon mot em ambiente ilustrado, todo mundo tem uma "avó caçada no laço" ou um "pé na cozinha" (o do presidente Fernando Henrique Cardoso não teve comprovação ou desmentido, pois ele não quis fazer o teste proposto por VEJA). Na prática, os mestiços de salão são tratados como brancos.

FERNANDA TAKAI
Ancestralidade materna: Europa
Ancestralidade genômica: euroasiática (99,9999%)
"Confirmou tudo o que eu sabia. Nasci na Serra do Navio, no Amapá. Minha mãe é alagoana, filha de português e de uma cabocla de Alagoas. Já meu pai, paulista, é filho de pai e mãe japoneses." Fernanda diz que agora pode mostrar o resultado dos testes para quem pensa que Takai é só um nome artístico. "Vão ter de parar de falar que eu sou japonesa do Paraguai, falsificada", brinca. BMG Brasil

A palavra raça em seu sentido atual apareceu na literatura científica em 1775, empregada pelo alemão Johann Friedrich Blumenbach, um dos fundadores da antropologia, para designar grupamentos populacionais diferentes baseados em conceitos inspirados nas teorias evolucionistas. As abominações praticadas em nome dessas diferenças em pleno século XX no coração da civilização européia foram tão traumatizantes que o assunto deixou de ser estudado por algum tempo. As pesquisas genéticas das últimas décadas pulverizam o próprio conceito de raça (veja reportagem). O trabalho realizado pelo italiano Luigi Luca Cavalli-Sforza com 2.000 tribos e comunidades indígenas de várias regiões do mundo comprovou que as raças são formidavelmente idênticas, em termos de conteúdo genético. "A cor dos olhos e da pele, as proporções corporais e os tipos de cabelo são vernizes passados sobre uma estrutura biológica idêntica", definiu Cavalli-Sforza. "Os estudos genômicos vêm destruindo completamente a noção de raça", ecoa Sérgio Danilo Pena. "Do ponto de vista genômico, elas não existem."

Reside aí uma das contradições mais instigantes desse ramo da ciência. Ao mesmo tempo que o conceito de raça é fulminado, os geneticistas descobrem cada vez mais os chamados "marcadores" da história genética dos indivíduos. Na Alemanha nazista, estudiosos de respeito desenvolveram várias dezenas de medições para tentar determinar com precisão quem era "ariano", quem era de "raça inferior". Era falsa ciência, e muitos milhares de pessoas se salvaram graças a isso. Mas hoje a ciência verdadeira já pode localizar, entre outros grupos, o marcador genético dos judeus (exames feitos em amostras de DNA de um neto e uma sobrinha de Gilberto Freyre indicaram uma linhagem judaica no ramo paterno). Dá para imaginar o que teria acontecido se isso já existisse seis décadas atrás?

As pesquisas de Pena e equipe sobre o "retrato molecular" dos brasileiros não mudam o panorama das relações raciais no país. O racismo e as diferenças sociais entre os diversos tons de pele da população brasileira não vão melhorar nem piorar por causa do levantamento genético, embora haja militantes do movimento pelos direitos dos negros que acreditem nessa última hipótese. "O mito da democracia racial ganhou um simulacro de suporte científico", criticou o especialista em cultura negra Athayde Motta em artigo recente sobre o estudo dos geneticistas. A pesquisa obviamente não trata de democracia racial. Ela emprega a genética para comprovar cientificamente e quantificar os níveis de miscigenação que as ciências sociais já haviam esquadrinhado. O resultado pode ser usado para coonestar o teatro da cordialidade racial, como receia Motta, ou para que os interessados saibam um pouco mais de onde vieram. Pensar no que isso significa pode ajudar a definir para onde irão.

Uma viagem às raízes da árvore genealógica
A equipe de dez pesquisadores coordenada pelo geneticista Sérgio Danilo Pena está realizando seus estudos há três anos. A primeira etapa consistiu em listar grupos de variações genéticas peculiares de europeus, africanos e ameríndios e compará-los com as seqüências genéticas típicas de uma amostra de 247 brasileiros brancos, homens e mulheres não aparentados, de quatro regiões do Brasil: Sul, Sudeste, Norte e Nordeste. O objetivo era descobrir qual a ancestralidade paterna (a procedência do homem primitivo que, há milhares de anos, deu origem à linhagem genética de cada pessoa por parte de pai) e a ancestralidade materna (idem, do lado da mãe) predominantes entre os brasileiros. De cada pessoa pesquisada, os cientistas da UFMG isolaram fatores genéticos passados de pai e mãe para filho e filha durante séculos, praticamente sem mudanças. Um desses fatores é o cromossomo Y, velho conhecido das aulas de biologia, que o pai transmite para a prole masculina. Como mulher não tem Y, sua ancestralidade paterna ainda não pode ser identificada - um irmão ou um primo pelo lado do pai podem suprir isso. Outro é o chamado DNA mitocondrial, um pequeno fragmento do código genético. O DNA mitocondrial não traça a linhagem paterna, mas, no caso da materna, pode ser rastreado em marcha à ré, até o começo dos tempos, em ambos os sexos.

Por começo dos tempos entenda-se um exemplar masculino de aproximadamente 80.000 anos e outro feminino mais antigo, com cerca de 150.000, descobertos na África: o Adão e a Eva dos seres humanos atuais. Nos últimos vinte anos, pesquisadores em diversas partes do mundo se dedicaram a comparar o mapa genético de populações, distinguindo certos traços entre eles. Foi assim que surgiram os "marcadores" da ancestralidade genética. Comparando os DNAs a sua disposição com esses marcadores, a equipe de Sérgio Pena encaixa cada pessoa em seu grupo de origem.

Os marcadores do cromossomo Y mapeados até agora abrangem povos e regiões da África negra abaixo do Saara, da África do Norte e áreas em volta do Mediterrâneo, Europa e de indígenas das Américas. As conclusões dos pesquisadores de Minas Gerais sobre as origens dos brasileiros baseiam-se nas informações proporcionadas por esses marcadores e cruzadas com o que já se sabe sobre a história das migrações. Elas são razoavelmente precisas em relação a locais e referências genéticas, e menos exatas em relação a tempo, sobretudo pelo ritmo lento (no mínimo 3.000 anos) com que uma "marca" distintiva se fixa na seqüência de genes de um agrupamento humano. Feitos todos os cálculos e comparações, o "Retrato molecular do Brasil" mostrou que, no grupo pesquisado, a esmagadora maioria - 97% - provém de um tronco paterno europeu. Já o tronco materno variou: 39% europeu, 33% ameríndio, 28% africano.

A humanidade passo a passo
A genética confirmou teorias sobre o lugar onde surgiram os primeiros homens e traçou as rotas de povoamento do mundo. As análises da população brasileira feitas pela equipe do geneticista Sérgio Danilo Pena são parte de um esforço científico internacional destinado a entender a origem do homem com base em exames genéticos. Graças a esse esforço, cientistas podem dizer com razoável grau de precisão por onde andaram os antepassados da humanidade centenas de milhares de anos atrás, mesmo em regiões nas quais não sobrou sequer um único pedaço de osso ou uma pedra lascada para contar a história. Foi examinando os genes das pessoas vivas atualmente que pesquisadores de universidades americanas e européias descobriram recentemente que 95% de toda a população masculina da Europa, no esplendor de sua diversidade étnica atual, descende de apenas dez homens, tataravôs genéticos que chegaram ao continente entre 40.000 anos e 25.000 anos, vindos da Ásia e do Oriente Médio.

No decorrer do século que se encerra, pesquisadores de todo o mundo correram para a África atrás de evidências que comprovassem as teorias de que o homem descende de hominídeos aparentados aos macacos, conforme proposto por Charles Darwin, em 1872, no livro Os Antepassados do Homem. Encontraram dezenas de fósseis de seres com traços meio humanos e meio símios, transformados pela imprensa e pelos próprios cientistas em celebridades instantâneas com nomes como “Menino de Taung” ou “Lucy”. Aprendeu-se muito com as escavações, mas a confusão sobre datas permaneceu. Nos últimos vinte anos, a genética ajudou a colocar um pouco de ordem na confusa mensagem deixada pelos fósseis. Existem ainda brechas enormes nas pesquisas. Combinando-se, porém, o que sabem os cientistas caçadores de ossos e os especialistas em DNA, obtém-se um cenário mais claro. É quase consenso entre os estudiosos de hoje que a humanidade atual inteira descende de um grupo bem pequeno de indivíduos (dez homens e dezoito mulheres, na conta de um dos cientistas) que viveu na África mais de 150.000 anos atrás. Foram os primeiros Homo sapiens, homens anatomicamente modernos que, de banho tomado e roupa limpa, não causariam espanto num metrô ou em fila de supermercado.

Além de identificar os descendentes mais próximos de nossos antepassados, os genes contam histórias de momentos terríveis da humanidade. “O padrão de nossos genes demonstra que em diversos momentos a humanidade quase foi varrida do mapa”, diz Christopher Wills, biólogo evolucionista da Universidade da Califórnia, em San Diego. O primeiro deles ocorreu há cerca de 70.000 anos, quando os seres humanos tentaram aventurar-se pela primeira vez fora da África em busca de outros territórios. Nessa época, a população de Homo sapiens chegava a aproximadamente 50.000 pessoas e parte do grupo deambulou rumo ao norte. Instalaram-se inicialmente no Oriente Médio. Surpreendidos por uma glaciação, eles não conseguiram permanecer na região. Tentaram voltar. Poucos conseguiram. Esse incidente provocou pela primeira vez o efeito que os geneticistas chamam de “gargalo de garrafa”: uma mortandade que transforma grupos numerosos em um punhado de indivíduos. Contínuos períodos de glaciação submeteram a humanidade ainda na infância a provas terríveis. Sobreviveram apenas os mais fortes em cada uma dessas foiçadas coletivas. “O fenômeno da eliminação em massa de pessoas é semelhante em natureza à eclosão da epidemia de Aids na África, só que muitas vezes mais potente”, afirma Luigi Luca Cavalli-Sforza, professor da Universidade Stanford.

Parece mágica o fato de os cientistas serem capazes de localizar a região onde viveram antepassados dos homens e mulheres de hoje? Parece. Mas é ciência, e das boas. Dois fatores ajudam a entender melhor essa viagem no tempo. O primeiro e mais importante é a constatação darwinista de que todo ser vivo tem um antepassado. Encadeados, eles formam o que se chama de linhagem. Charles Darwin dizia que sua teoria evolucionista poderia ser descartada totalmente se alguém lhe apresentasse um único ser vivo ou fóssil que não tivesse tido um antepassado. Obviamente, ninguém foi capaz de levar ao sisudo cientista inglês um ser vivo produzido por geração espontânea que não pertencesse a nenhuma linhagem. Mais tarde, os neodarwinistas aprimoraram a teoria do mestre ao determinar que os órgãos igualmente tiveram antepassados. Ou seja, os olhos, o coração ou o fígado dos seres vivos de hoje foram precedidos por proto-olhos, protocorações, e daí por diante. Não tão desenvolvidos nem tão especializados, esses proto-órgãos deram vida aos ancestrais do homem e dos animais. Numa etapa ainda mais elaborada da mesma teoria da evolução, os cientistas provaram que não só os seres vivos e seus órgãos tiveram predecessores, mas também cada célula e molécula orgânica do corpo pode ter sua linhagem traçada por dezenas e até centenas de milhares de anos atrás.

O segundo e decisivo fator que dá grande dose de certeza aos cientistas em suas afirmações sobre a linhagem passada da humanidade é também um aprimoramento da teoria darwinista. O gênio de Charles Darwin foi descobrir que populações geneticamente idênticas quando isoladas em habitats distantes e mantidas sem contato por milhares de anos podem diferenciar-se a tal ponto que se transformavam em espécies diferentes. Foi essa a famosa descoberta de Darwin nas ilhas do Pacífico. Espécies de pássaros idênticos separados, não se sabe bem por que, em habitantes das ilhas e habitantes do continente foram aos poucos se tornando distintas.

Os sucessores de Darwin destrincharam esse processo. Descobriram exatamente o que se passa no DNA (molécula desconhecida nos tempos de Darwin) quando as espécies se diferenciam. Melhor ainda: descobriram com que velocidade esse fenômeno ocorre. Eles decifraram o mecanismo do que chamaram de “relógio biológico”. E o que se pode ler nesse relógio? Bem, ele informa que populações humanas idênticas mantidas separadas por pelo menos 3.000 anos começam a se diferenciar em uma das estruturas de seu coração genético, o DNA. Essa distinção é chamada de “marca”. São diferenças pequenas, até porque as populações humanas são extremamente móveis e sociáveis, de modo que apenas raramente se obteve isolamento completo entre elas por um período prolongado. Portanto, o processo produziu na humanidade apenas raças diferentes e não espécies distintas. Somos todos humanos, seja qual for a raça.

Um terceiro e importante fator de certeza para os cientistas dedicados a traçar a caminhada do homem pelas eras passadas é o fato de que as populações pré-históricas eram rarefeitas. É crível portanto que bilhões de seres humanos hoje descendam de pouquíssimos ancestrais. Os cientistas calculam que toda a humanidade, todos os seres que poderiam ser chamados de Homo sapiens há cerca de 100.000 anos, não seria suficiente para encher as arquibancadas de um estádio do tamanho do Maracanã. Éramos apenas 50.000 quando empreendemos a caminhada triunfal do berço africano para dominar o planeta. “Éramos poucos, famintos e com certeza de pele negra, quando saímos da África”, diz Donald Johanson, o famoso paleantropólogo americano descobridor do fóssil “Lucy”, um hominídeo de 3,2 milhões de anos.

Quantos éramos depois que nossos antepassados colonizaram as terras européias? Em 5 000 anos de vida na Europa, a humanidade chegou a 400.000 seres. “As condições naturais eram as mais propícias possíveis. A Europa oferecia centenas de plantas comestíveis contra meia dúzia na África. Além disso, os perigos naturais eram infinitamente menores. Não havia animais selvagens como em outras regiões”, diz o americano Jared Diamond, autor do livro Armas, Germes e Aço, que tenta explicar as diferentes taxas de progresso dos povos pela prodigalidade ou hostilidade dos ambientes naturais onde foram assentar-se. Nos primeiros séculos do cristianismo, a humanidade chegou a 250 milhões de almas. Só cresceria geometricamente após a invenção das vacinas, dos antibióticos e a popularização do sanitarismo. Somos vigorosos 6 bilhões hoje, mas é bom deixar o orgulho de lado e lembrar que fomos pouquíssimos e frágeis no passado. Um passado que os cientistas estão decifrando cada vez com maior clareza.


 


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