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A linguagem é natural no ser humano
 
 
 
 
A linguagem é natural no ser humano

21 de janeiro de 1998

Estudo revela que a linguagem é uma aptidão que já vem programada no cérebro humano

A crença de que a linguagem se desenvolve nos seres humanos pela educação e convívio social é tão forte que se transformou até em citação no Aurélio. Um dos verbetes do mais famoso dicionário brasileiro transcreve uma frase do escritor Pedro Bloch que reproduz o senso comum sobre o assunto. "A linguagem não é uma coisa inata, não é um dom natural, mas um aprendizado", diz o texto. Uma pesquisa divulgada na semana passada pela revista científica Nature sustenta o contrário. No artigo, as psicólogas Susan Goldin e Carolyn Mylander, da Universidade de Chicago, garantem que a capacidade de comunicação é, sim, inata. Ou seja, já nasce com as pessoas e depende menos do que se imaginava de fatores como educação, origem étnica, geográfica ou cultural. Segundo elas, a função da linguagem é resultado da evolução genética da espécie e está programada no cérebro desde o nascimento. O que a educação faz é apenas torná-la mais complexa e sofisticada.

As psicólogas chegaram a essa conclusão depois de analisar, isoladamente, dois grupos de crianças surdas-mudas americanas e chinesas. Com 3 anos de idade, nenhuma delas sabia ainda falar ou tinha contato anterior com a linguagem escrita. Usando brinquedos como estímulos, as pesquisadoras observaram de que maneira as crianças se comunicavam com a mãe. Surpreendentemente, os gestos e sinais eram quase idênticos, tanto na forma como na seqüência (veja quadro). Na mesma experiência, observou-se também que os gestos utilizados pelos filhos eram muito mais complexos do que os das mães. Isso levou as pesquisadoras a concluir que os recursos de linguagem usados pelas crianças não poderiam ser fruto de aprendizado. "A linguagem de sinais é uma forma de comunicação tão sofisticada quanto a linguagem falada, e o estudo demonstra como os princípios da comunicação são inatos", afirma o psicólogo da Universidade de São Paulo, USP, Fernando César Capovilla, um especialista em comunicação não verbal.

A linguagem natural não é privilégio dos seres humanos. Várias espécies de animais têm seus próprios recursos de comunicação pré-programados, com diferentes graus de complexidade. Os mais simples ajudam apenas a delimitar território ou atrair indivíduos da espécie para a reprodução. As fêmeas de vaga-lumes, por exemplo, emitem fachos de luz para cortejar os machos. As jubartes preferem cantar para atrair a atenção dos parceiros. Num grau mais sofisticado, aves como as andorinhas emitem avisos em freqüências sonoras diferenciadas para alertar a fêmea que protege o ninho sobre a aproximação de um inimigo.

Mais sofisticada Os macacos vão ainda mais longe. Recentes experiências com chimpanzés que convivem com seres humanos demonstraram que eles podem compreender um repertório limitado de palavras que lhes sejam dirigidas. Em certos experimentos, pesquisadores conseguiram treinar chimpanzés no uso de um teclado dotado de sinais. Os macacos, apertando as teclas, expressaram desejos como brincar com determinada pessoa. É algo impressionante. Algumas décadas atrás, acreditava-se que os macacos só executavam certas tarefas quando condicionados à base de estímulos e recompensas como ganhar uma banana em troca de uma pirueta.

As descobertas demonstram que a comunicação entre animais é mais sofisticada do que se imaginava. Na mais recente, divulgada na semana passada pela revista Science, pesquisadores americanos observaram que o cérebro dos macacos tem estruturas muito semelhantes às regiões do cérebro humano responsáveis pelo sistema de linguagem. O que ninguém conseguiu entender até agora é por que esses primatas não desenvolveram habilidades como a fala. Até pouco tempo atrás, uma linha de pesquisadores defendia a tese de que os seres humanos teriam desenvolvido um sistema de comunicação mais sofisticado do que os primatas em virtude do tamanho da região do cérebro responsável pela linguagem. Com o novo estudo, essa teoria perde força.

Em nenhuma outra espécie de animal se havia antes observado tamanha simetria com o cérebro humano. A partir da nova constatação, os cientistas começaram a traçar hipóteses para explicar por que os macacos não possuem um sistema de linguagem tão complexo quanto o dos humanos. Uma delas é a de que, ao seguir caminhos evolutivos diferentes, cada espécie se especializou em um tipo de linguagem. Enquanto os humanos concentraram esforços para desenvolver a linguagem oral, os primatas teriam aprimorado um sistema de comunicação gestual. Evidentemente, ele é muito mais rudimentar que a linguagem humana, mas ainda não foi devidamente decodificado pelos cientistas.

Conhecimento natural
Um dos primeiros cientistas a formular a hipótese de que a linguagem era inata nas pessoas foi o americano Noam Chomsky, em meados da década de 60. No livro Aspectos da Teoria da Sintaxe, Chomsky dizia que todo ser humano possui um conhecimento natural dos mecanismos da linguagem, o que lhe permite manipular várias combinações de sentenças para chegar ao mesmo significado. Nas décadas seguintes, os pesquisadores americanos William Stokoe e Ursula Bellugi partiram do mesmo princípio para mostrar que a linguagem de sinais, antes considerada uma forma primitiva de comunicação, é gramaticalmente muito mais sofisticada do que se costumava pensar. Segundo eles, enquanto uma criança de 2 anos é capaz de dominar cerca de cinqüenta palavras, uma criança surda-muda da mesma idade desenvolve um repertório de gestos em número equivalente.

O estudo de lesões cerebrais também fornece evidências sobre a estreita relação entre a linguagem oral e a dos gestos. Pesquisadores que trabalham nessa área dizem que um acidente capaz de afetar a região do cérebro responsável pela comunicação pode embaralhar o sistema de gestos dominado por uma pessoa surda, da mesma maneira que compromete a fala numa pessoa normal. Diante desses estudos que comprovam que a origem dos dois sistemas de comunicação é a mesma, o trabalho das pesquisadoras de Chicago traz uma nova e instigante perspectiva para a compreensão da linguagem como fenômeno evolutivo.