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A Grande Transição
 
 
 
 
A Grande Transição

09 de setembro de 1998

Em seu relatório anual, o Fundo de Populações da ONU aponta para um momento raro da espécie

Comparada ao ofício de meteorologista ou economista, cujas previsões, quando furadas, podem ser desmascaradas no dia-a-dia pelo cidadão comum, a vida de demógrafo é mansa. Ele elabora projeções para daqui a trinta, quarenta, cinqüenta anos, quando metade dos que as leram já terá morrido (inclusive ele próprio). "Para quem estuda população e demografia, só existem três acontecimentos básicos - pessoas nascem, migram e morrem", define o americano Alex Marshall, vice-diretor de Relações Exteriores do Fundo de Populações das Nações Unidas. "É um pouco como cobrir o crescimento da grama. Poucas novidades no dia-a-dia." Para transformar em notícia esse andar perpétuo da humanidade, o Fundo tira da cartola, a cada ano, um relatório sobre o estado da população mundial, centrado num tema diferente. O de 1998, divulgado na semana passada, enfoca as Novas Gerações, referindo-se ao inchaço simultâneo do contingente de jovens e velhos. Trata-se de um momento raro em nossa história como espécie.

Embora a taxa de crescimento da população mundial esteja em queda, os altos índices de fecundidade do passado ainda colocam na soleira do ano 2000 mais de 1 bilhão de jovens entre 15 e 24 anos - que não apenas entram em seu período de fertilidade, como ingressarão no mercado de trabalho. Pela primeira vez, terão de competir com os próprios pais, às vezes com os avós, pelos mesmos empregos. Coisa nada fácil na conjuntura atual: só no Brasil, um em cada três jovens, e um em cada cinco chefes de família, segundo pesquisa de Marcio Pochmann da Unicamp, estão desempregados. Mesmo assim, o chamado "bônus demográfico" de países como o Brasil - taxas de natalidade e mortalidade em queda, população produtiva ainda crescente em relação aos inativos - é visto como uma chance rara de arrancada. Quem a aproveitar bem fará inveja aos países dependentes de uma força de trabalho vinda de fora.

Na outra ponta da curva demográfica desponta a robusta parcela dos que, até poucos anos atrás, cabiam na definição genérica dos "acima de 60 anos". Não cabem mais. Para efeitos estatísticos, esse contingente já teve de ser fatiado em subgrupos de denominação bizarra: "pré-idosos", "idosos jovens", "idosos velhos". Em pelo menos doze países europeus onde a expectativa de vida da mulher ultrapassa os 80 anos, coabitam, pela primeira vez, idosos de duas gerações diferentes, com necessidades de políticas sociais, previdenciárias e de saúde distintas. Em comum, apenas a disputa pelos mesmos e insuficientes recursos de seguridade social, que precisam ser redefinidos e repensados pela sociedade.

E é coisa urgente. Na Itália, a faixa de mais de 65 anos já é maior do que a geração de menos de 15 anos. No Japão, o Ministério da Saúde estima que a população do país começará a declinar em 2007. Austrália e Inglaterra aumentarão a idade mínima de aposentadoria da mulher para 65 anos, em 2013 e 2020, respectivamente. A Alemanha também, já a partir de 2009, prevendo que seus idosos representarão mais de 40% do total. Os Estados Unidos espicham a idade do aposentado para 67 anos a partir de 2027, de olho nas projeções que apontam o segmento dos mais de 80 anos como o que mais cresce, entre os idosos. Cinqüenta e um países, totalizando 44% da população mundial, convivem com taxas de crescimento negativo. Nem o Brasil, cuja História e cultura sempre se alicerçaram na noção de "país do futuro" e "país jovem", escapará da transição demográfica. Nossa idade média, em 1980, era de 25 anos. Hoje, ela se situa mais perto dos 28 anos, acima da média mundial. Nesse ritmo, dentro de um quarto de século seremos a quinta nação do mundo em número de idosos.

Um quarto de século pode parecer uma eternidade para quem acompanha, minuto a minuto, os sobressaltos atuais da bolsa. Mas no âmbito da demografia, é um mero espirro de tempo. Enquanto a Suécia, um dos primeiros países a viver sua transição demográfica, ainda na virada do século XX, levou 84 anos para ver sua população de idosos saltar de 7% para 14%, quem der o mesmo salto daqui para a frente o fará em ritmo bem mais acelerado, inclusive o Brasil. Resta, naturalmente, o imenso pedaço do mundo que se continua movendo à margem das grandes correntes demográficas. "Tudo isso não faz o menor nexo para quem vive no meu país", observa o nigeriano Sam Eferaro, editor de saúde do Vanguard Media Limited, de Lagos, a capital. "Nossa batalha diária é conseguir chegar aos 50 anos, que é a expectativa de vida dos homens daqui. Aposentadoria? Simplesmente não existe. Quem consegue sobreviver também tem de conseguir se virar por conta própria."

Em outras regiões da África, um perverso regulador do crescimento demográfico vai ampliando seu impacto - o vírus HIV. Em alguns desses países, os infectados chegam a somar um quarto do total de adultos produtivos, invertendo a lógica de óbitos da maioria das sociedades. Habitualmente, mortes costumam se concentrar nos primeiros e últimos anos de vida do cidadão. Em países como Zimbábue, Zâmbia, Uganda ou Malavi, o impacto demográfico da epidemia é tão aterrador que a expectativa de vida de algumas comunidades caiu para míseros 16 anos. Ali, o mundo desenvolvido da prevenção e dos promissores coquetéis de prolongamento da vida inexiste. Estima-se que até o final da próxima década, os dezenove países africanos mais afetados pela Aids produzam uma população de 40 milhões de órfãos.

Sabidamente, números, projeções e estatísticas demográficas parecem construções abstratas quando desvinculadas de algo palpável do cotidiano. Assim, mais gente se impressiona com 229 mortos do acidente aéreo da Swissair ocorrido na semana passada ou com 1,7 bilhão de pessoas que assistiram à derrota do Brasil contra a França, na final da última Copa, do que com o estrondoso número redondo de 6 bilhões de habitantes que o mundo contabilizará, simbolicamente, no dia 11 de julho de 1999. (A crer nas projeções, essa poderá ser a última vez que uma mesma geração verá a população global dobrar, dos 3 bilhões alcançados nos anos 60.) Seriam 6 bilhões de pessoas muito? Pouco? Felizmente, o foco do relatório da ONU não se concentra mais na questão meramente numérica, e sim na maneira como as sociedades deverão organizar-se para prover qual tipo de qualidade de vida a seus cidadãos. A grande mudança dessa transição parece recair sobre as mulheres. Uma das representações mais vivas do que é, na realidade, essa transição demográfica está na comparação do ciclo de vida da mulher japonesa, em 1920 e 1992. O século XX, que se iniciou com 1,6 bilhão de habitantes e agora fecha para balanço com 6 bilhões, operou a grande virada da humanidade: a feminina.