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Questão de Raça
 
 
 
 
Questão de Raça

19 de julho de 2000

Estudo mostra que a condição de vida dos negros do Nordeste é igual à dos africanos


 
O estudo da desigualdade social no Brasil já produziu centenas de estatísticas. Estima-se, por exemplo, que o país tenha hoje cerca de 21 milhões de pessoas à beira da indigência e pouco mais de 2 000 privilegiados no tijolo mais alto da pirâmide. Não é novidade também que, entre os pobres brasileiros, os negros formam um contingente bem maior que o dos brancos. Mas o fundo do poço esconde outras disparidades bem menos visíveis. Uma pesquisa inédita do economista Marcelo Paixão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revela que em algumas regiões do Brasil ser negro significa viver muito próximo da realidade dos habitantes dos países africanos mais pobres, como Gabão e Argélia.

Cruzando dados do IBGE com o índice de desenvolvimento humano, o IDH - criado pela Organização das Nações Unidas e aplicado mundialmente -, Paixão mostra que em todo o Brasil os negros ocupam os postos mais baixos da sociedade. Cabem a eles os salários mais miseráveis, a expectativa de vida mais baixa e a pior taxa de escolaridade. No Maranhão, por exemplo, a renda média mensal dos negros é de 96 reais, contra 230 reais dos brancos. Isso significa que um maranhense negro vive praticamente nas mesmas condições que os habitantes de Botsuana, na África, que ocupa a 122ª posição no IDH. O Brasil alcançou o 74º lugar no índice divulgado no final de junho pela ONU. Um hipotético Brasil só de brancos estaria na 48ª colocação.

A análise de dados como estes permite supor que os negros vivem um momento de estagnação social, ao passo que o país apresenta índices razoáveis de crescimento, inclusive entre as camadas mais pobres. Acreditar nisso é um erro. A emergência de uma classe média negra, fenômeno já apontado por VEJA em reportagens anteriores, é um processo contínuo. O problema é o que fazer para ajudar a parcela que continua vivendo na pobreza. "Não fiz esse estudo para justificar ações como a política de cotas para negros em universidades ou no mercado de trabalho, mas para mostrar que este é um drama real e deve ser enfrentado", diz Marcelo Paixão.

Desigualdades raciais não são exclusividade brasileira. Em 1993, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) publicou um estudo sobre as disparidades entre os IDHs das populações branca, negra e hispânica dos Estados Unidos. Descobriu-se que os brancos americanos ocupariam o primeiro lugar se fossem postos na tabela que agrupa os IDHs de todos os países do mundo. Os negros dos Estados Unidos, porém, estariam em 31º e os hispânicos em 35º. Como as questões étnicas sempre suscitam polêmicas, o Pnud deixou de apresentar pesquisas desse tipo. É uma pena. Estudar a pobreza com base na raça pode ser uma maneira de iluminar razões muitas vezes ocultas da desigualdade social.

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A sociedade brasileira tem proporcionado algumas oportunidades de mobilidade social aos seus membros. Pesquisas mostram que no período entre 1973 e 1996, por exemplo, muitos brasileiros ascenderam socialmente, conforme apontam as análises de José Pastore e Nelson do Valle Silva (2000), que indicam, ainda, a ocorrência, no período em questão, de um considerável fortalecimento dos segmentos médios da população. Na mesma direção, o professor Milton Santos considera que “...o chamado milagre econômico brasileiro permite a difusão, à escala do país, do fato da classe média. Na realidade, entre as muitas “explosões” características do período, está esse crescimento contínuo das classe médias, primeiro nas grandes cidades e depois nas cidades menores e no campo modernizado”.

Embora a classe média tenha crescido em termos relativos e absolutos, entre a população negra esse crescimento foi significativamente menor. Segundo dados do IPEA, a quantidade de negros pertencentes à classe média ainda é muito pequena. Apesar disso, a classe média negra das capitais brasileiras teve um crescimento relativo de 10% entre os anos de 1992 e 1999, chegando ao patamar de um terço da classe média brasileira.

Durante anos, as mulheres negras foram obrigadas a usar maquiagem para quem tinha pele alvíssima. Meia-calça cor da pele só existia na versão branca. No máximo, bege. "As moças pareciam o Gasparzinho, de tão branca que ficava a cara", diz o nigeriano Chibuzor Nwaike, importador de cosméticos chamados "afro-étnicos". De um tempo para cá, surgiu uma linha de meias finas para peles entre morena-clara e negra. A tatuagem de nanquim branca também começa a ser difundida entre os negros como alternativa para a tatuagem de hena.