Preceitos - Magazine Eletrônica
Preceitos - Magazine Eletrônica
Página Inicial
Índice
Cinema
Fotos Desktop
Tudo do Brasil
Arnaldo Jabor
Holocausto
Orient Express

 

01

02

03

04

05

06

07

08

09

10

11

12

13

14

15

16

17

18

19

20

21

22

23

24

25

26

27

28

29

30

31

32

 


Seus comentários e considerações sobre esta página:
 
Campos do Jordão - SP - Brasil
Pousada d'Ampezzo
Apartamentos com aquecedor a óleo, TV com controle remoto, rádio, telefone, frigobar e aquecimento central. Sala de jogos, sala de ginástica e estacionamento fechado. Ótima localização, a 4,5 km do centro. Brunch aos domingos com check-out às 15 hs.
Estadisticas y contadores web gratis
Oposiciones Masters
O Planeta Grisalho
 
 
 
 
O Planeta Grisalho

10 de março de 1999

Dentro de alguns meses, o número de avós e bisavós nos países ricos já será maior do que o de netos e bisnetos

Vera Girasol, de 74 anos, empacotadora: renda dobrada e novos amigos


 
Uma virada demográfica radical está ocorrendo nos países desenvolvidos. Nesse grupo, que inclui os Estados Unidos, a Europa e o Japão, até meados do ano que vem o número de pessoas idosas, com mais de 60 anos, será maior do que o de crianças e adolescentes com idade de 14 anos ou menos. Pela primeira vez na história da humanidade, haverá nesses países mais avós e bisavós do que netos e bisnetos. A mudança, que os demógrafos já vinham prevendo havia algum tempo, começa nos países ricos, mas em breve atingirá o planeta inteiro. No Brasil, ela se dará por volta de 2050, época em que um entre cinco brasileiros terá 60 anos ou mais (veja quadro). Essa reviravolta populacional é mais do que uma simples curiosidade estatística. Ela vai gerar profundas transformações na sociedade nas próximas décadas. Com mais velhos do que jovens, governos, empresas e outras instituições terão de se adaptar para atender a esse contingente cada vez mais numeroso. "O envelhecimento é uma grande conquista social", diz o médico brasileiro Alexandre Kalache, diretor do programa de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial de Saúde, OMS. "Temos de celebrá-lo. Ruim era quando a maior parte da população morria antes dos 5 anos de idade."

Menos bebês
O novo perfil demográfico do planeta é resultado de dois fenômenos combinados: o aumento da expectativa de vida e a redução da taxa de natalidade. No início deste século, um americano vivia, em média, 47 anos. Hoje, vive 77. No Brasil, a expectativa de vida é de 69 anos, quase 50% mais do que na metade do século. Enquanto isso, em 61 países o número de bebês que nascem a cada ano já é inferior ao necessário para repor o atual nível populacional. Nas nações desenvolvidas, essa transformação vem acontecendo há mais tempo. Mas no grupo dos chamados emergentes (que inclui o Brasil) o ritmo é cada vez mais acelerado. Enquanto a França levou 115 anos para elevar de 7% para 17% a participação dos velhos na população, a China fará o mesmo em apenas 27 anos - num processo quatro vezes mais rápido. O Brasil, que já foi celebrado como o país das crianças e dos jovens, tem hoje 13,5 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Representam 8% da população. Esse porcentual deve dobrar em apenas vinte anos.

O impacto dessas mudanças é muito grande em vários setores. Um deles é a Previdência Social. Até a década de 60, para cada brasileiro aposentado havia outros oito trabalhando. Ou seja, oito contribuíam para que um se beneficiasse. Hoje, essa relação é de dois para um, e o rombo nas contas da Previdência já é enorme. Se esse ritmo se mantiver e as regras não forem mudadas, dentro de algumas décadas haverá mais aposentados do que contribuintes. Uma solução, já adotada em muitos países, é que cada trabalhador financie sua própria aposentadoria futura, contribuindo para um fundo de pensão durante a vida ativa. Outro problema é a perspectiva de um colapso no sistema de saúde pública. Atualmente, o gasto do setor com um idoso é cerca de três vezes maior do que com uma pessoa na meia-idade.

O envelhecimento da população tornou-se uma preocupação mundial neste final de século. O mais curioso é que, apenas trinta anos atrás, o temor estava relacionado ao excesso de crianças e jovens. Por uma boa razão: nessa época, cada mulher tinha, em média, 5,6 filhos durante a vida. Como resultado, a população mundial dobrava a cada geração. Um estudo da Organização das Nações Unidas, ONU, previa que, na virada do século, o planeta não teria recursos suficientes para alimentar tantas pessoas. Agora, a explosão populacional deixou de ser um grande problema. A taxa de fecundidade caiu drasticamente. No Brasil, é de apenas 2,1 filhos por mulher - o suficiente apenas para repor a população atual. Ao mesmo tempo, novas tecnologias agrícolas e industriais afastaram o perigo do colapso dos recursos. Hoje, há alimentos de sobra para todos os seres humanos - com a ressalva de que eles não são proporcionalmente distribuídos entre pobres e ricos. Em todo o mundo, com exceção dos países muito miseráveis, as pessoas estão vivendo mais e melhor. E tendo menos filhos.

Evidentemente, uma sociedade com mais idosos não é sinônimo apenas de problemas. Há também inúmeras vantagens. Uma delas, já medida nos Estados Unidos, está relacionada à segurança pública. Pelas estatísticas, o índice de crimes cometidos por adolescentes é dez vezes maior do que o da faixa etária acima dos 50 anos. Uma nação mais grisalha pode ser, portanto, mais segura e tranqüila. Mesmo os problemas de saúde podem ser mais facilmente resolvidos com uma maior integração dos idosos na sociedade. "Cerca de metade das doenças da velhice é ligada à desordem afetiva e aos desequilíbrios emocionais", afirma o geriatra Clineu Almada, diretor científico do Centro de Envelhecimento da Universidade Federal de São Paulo. "Ter atividades ajuda a evitar muitos problemas." O dentista aposentado Leon Birnbaum, de 72 anos, é um exemplo de como enfrentar a idade sem perder o pique. Três vezes por semana ele vai para a academia e nada 1.200 metros. "A natação tem um efeito terapêutico para mim", diz ele. Depois do exercício aquático, Birnbaum pedala na bicicleta ergométrica e faz alongamento. "Nos dias em que não me exercito, fico lento, com menos energia", afirma.

Atendimento melhor
A tendência óbvia é que, aos poucos, os idosos vão ocupar papéis e tarefas cada vez mais importantes na sociedade. Isso inclui também o mercado de trabalho. Acabou o tempo em que envelhecer era sinônimo de inatividade. Hoje, muitas pessoas se aposentam e continuam trabalhando. Isso pode ser observado em muitas empresas. Há pouco mais de um ano, a rede de supermercados Pão de Açúcar contratou 400 idosos para trabalhar como fiscais, caixas e pacoteiros em todo o país, como parte de um programa de recrutamento de funcionários com idade acima de 55 anos. Pesquisas mostram que o atendimento nas lojas melhorou. "Os idosos são mais atenciosos e a empatia com os clientes é muito grande", diz a diretora de desenvolvimento de recursos humanos da empresa, Maria Aparecida Fonseca. "Aqui, faço novos amigos e consigo dobrar minha renda", diz Vera Girasol, de 74 anos, que trabalha como empacotadora em São Paulo.

Há outras mudanças importantes relacionadas ao envelhecimento da população. Veja a seguinte comparação. Até meados deste século, ao chegar aos 40 anos, um brasileiro tinha a probabilidade de viver, no máximo, mais oito anos. Estava quase no fim da vida, portanto sem tempo para estudar, comprar bens duráveis ou fazer novos planos. Hoje, aos 40 anos, um brasileiro está apenas na metade da vida. Estatisticamente, vai viver, pelo menos, mais trinta anos. Isso significa que, ao chegar aos 50, ainda terá tempo de fazer um curso universitário, mudar de profissão e exercê-la por mais quinze ou dezesseis anos. Se quiser, dá tempo até de comprar uma casa financiada pelo sistema imobiliário e terminar de pága-la, em dez ou quinze anos. Imagine o impacto dessa nova perspectiva na economia e na forma de funcionamento da sociedade. "Se a gente não usa a mente, ela enferruja", diz a comerciante Zeli Camargo, que, aos 64 anos, estuda e trabalha. Ela cursa letras na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba. Aproveitando as três línguas que domina, Zeli também faz trabalhos esporádicos como guia de turismo.