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O Meu é Maior

09 de junho de 1999

Competição na construção do prédio mais alto acirra rivalidade entre a China e Taiwan

Desafetos históricos, China e Taiwan vivem nova crise diplomática provocada pela construção do edifício mais alto do mundo. Há dois anos, uma construtora japonesa lançou a pedra fundamental de um megaedifício em Xangai, a maior cidade da China, o Shanghai World Financial Center. Pelo projeto original, a obra terá 458 metros de altura e um estilo arquitetônico pós-moderno que lembra um longilíneo abridor de garrafas. Dois meses atrás foi a vez de Taiwan anunciar um projeto ainda mais ambicioso: uma torre de 508 metros de altura em Taipé, capital do país, chamada de Taipei Financial Center. A pedido da prefeitura de Xangai, os arquitetos americanos responsáveis pelo projeto procuram uma solução para espichar o prédio sem comprometer o criativo desenho original. A idéia é acrescentar alguns andares, um pináculo ou colocar qualquer coisa alta o suficiente para impedir que Taiwan possa ascender ao primeiro posto no ranking dos arranha-céus. Uma questão sem acordo nesse tipo de competição consiste em definir que acessório é legítimo no cálculo de altura. Antenas, por exemplo, não são levadas em conta.

A disputa vai muito além de orgulho nacional expresso em excesso arquitetônico. A China considera Taiwan uma província rebelde, e os símbolos de poder político e econômico são as principais armas do conflito. A origem está na guerra civil que levou os comunistas ao poder, cinqüenta anos atrás. Derrotadas, as forças do general Chiang Kai-chek estabeleceram sua própria "China" na Ilha de Taiwan.


 
Torres erguidas rumo ao céu são uma metáfora recorrente na disputa por respeitabilidade internacional. Na década de 30, o Empire State marcou a silhueta de Nova York com seus 381 metros de concreto armado e serviu para reafirmar a liderança econômica mundial dos Estados Unidos. Em 1974, a Sears Towers cravou a marca inédita de 442 metros em Chicago. Nos anos 90, um novíssimo Tigre Asiático, a Malásia, desbancou a liderança americana com 10 metros de concreto a mais no cocuruto do Petronas Towers, em Kuala Lumpur, hoje o mais alto edifício do mundo.

É a segunda vez que o prédio em Xangai tromba com simbolismos políticos. Na primeira, a construtora japonesa teve de prometer atrair investidores europeus e americanos para evitar que a empreitada fosse inteiramente japonesa. Isso seria demais para a sensibilidade dos habitantes de Xangai, que ainda não esqueceram os horrores da ocupação japonesa na II Guerra. Até agora, contudo, só há dinheiro japonês na obra, orçada em 750 milhões de dólares. No mês passado, o empresário Mário Garnero inscreveu o Brasil na corrida maluca do arranha-céu, com o anúncio do São Paulo Tower, com 494 metros, na capital paulista. Os espigões, entretanto, já perderam muito do charme original. Os primeiros constituíam enormes desafios de engenharia e foram saudados como precursores da arquitetura do futuro. Hoje são vistos sobretudo como mais um problema urbano. "Os megaedifícios custam uma fortuna, destroem a vizinhança e nem sempre oferecem boa qualidade de vida a seus ocupantes", diz o arquiteto paulista Lucio Machado. O problema, como se vê no episódio entre China e Taiwan, é que os arranha-céus de concreto podem ser maiores que o bom senso.