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O Fetiche da Caridade
 
 
 
 
O Fetiche da Caridade

As campanhas filantrópicas se aproveitam dos miseráveis para comover os caridosos, deslumbrados consigo mesmos

Como sempre, as festas de fim de ano se cercam de uma etiqueta caridosa. De repente, o chique é encenar uma pose de desprendimento e até de prodigalidade; na temporada de Natal, dar é mais importante do que receber. É assim que o espírito de Papai Noel toma conta da programação da TV e perdura, por reverberação, até que se apaguem os fogos do réveillon. São shows de confraternização, jogos de futebol beneficentes, gente chorando, astros fungando, duplas sertanejas cantando de mãos dadas e, principalmente, muita publicidade condoída pedindo dinheiro para causas humanitárias.


 
Ótimo que existam campanhas granjeando fundos para ajudar os pobres. Ótimo que elas funcionem. No final da linha, um desgraçado terá encontrado auxílio, remédio e agasalho, e o mundo terá ficado um pouco menos selvagem, ainda que momentaneamente. Mas há um problema sempre há na crescente propaganda da caridade. O problema é que ela não rompe com o egoísmo, mas, paradoxalmente, tende a reforçá-lo. Nesse sentido, é deseducativa. O telespectador é instado a doar seus trocados menos pelos benefícios que proporcionará aos outros e mais pelos prazeres que experimentará ao fazer a doação. A caridade deixa de ter o sentido de repartir o que se tem com quem nada tem para tornar-se mecanismo obscuro de comprar sensações. "Você vai se sentir maior e melhor", promete o anúncio de uma obra filantrópica. Portanto, doe e goze. Sai barato.

É claro, não foi a publicidade de TV que inventou a perversão invertida que há no gesto de quem dá migalhas aos fracos ela apenas encontrou aí sua via de convencimento e, mais exatamente, de sedução. Doar para ter prazer, longe de ser um modo de amar o próximo, institucionaliza-se como um recurso permitido para cultivar o narcisismo, o mesmo narcisismo que há em ter o carro importado que o outro não tem, a gravata que o outro não tem, o cartão de crédito que o outro não tem.

Mas a perversão não fica só nisso. Além de não tocar nas causas que fabricam as multidões de desvalidos, as campanhas de filantropia se aproveitam da imagem dos miseráveis para comover sua clientela de novos caridosos, deslumbrados consigo mesmos. Transformam os necessitados na cenografia de um grande fetiche, que é o exato oposto da fraternidade, pois fraternidade é estar ao lado do outro como irmão, jamais como alguém superior que simplesmente entrega o que não lhe falta. Mas nisso também consiste o fetiche, em fazer parecer esmola o que deveria ser um direito. Como mensagem de Ano-Novo, isso tudo é algo de medonho.