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Erro no Provador
 
 
 
 
Erro no Provador

05 de novembro de 1997

Chamadas de travesti por funcionários da loja, jogadoras de vôlei processam o Mappin

A cena ocorreu há mais de duas semanas, no 1º andar do Mappin, no bairro paulistano do Itaim, que é uma das lojas mais conhecidas do país.

A senhora é que é a mãe daqueles dois travecos lá dentro? perguntou o segurança do Mappin. Como assim? perguntou dona Zilma de Moraes, sem entender por que fora abordada de supetão. Aqueles dois que estão no provador seguiu o segurança. São travestis. Isso mesmo, travestis.

Dona Zilma, 57 anos, católica praticante, devota de Santo Expedito, sentiu vergonha. Como explicar ao segurança uniformizado que as duas filhas com quem viera fazer compras naquela tarde de segunda-feira dia 13, e que estavam provando roupas numa cabine da loja, não eram travestis? "Eu explicava que elas eram moças, que eram minhas meninas, que eram atletas, mas ele não queria ouvir. Fiquei muito chocada. Não se fala uma coisa dessas para uma mãe", relembra.


 
A balbúrdia que começou no setor de moda feminina e à qual se foram incorporando seguranças e funcionários sob a assistência crescente de fregueses e curiosos não demorou a chegar até as filhas de dona Zilma, que provavam minissaias e blusinhas nas cabines. O porte atlético de ambas chama a atenção. Andréa, de 28 anos, tem 1,85 metro de altura, veste manequim 42 e calça sapato tamanho 43. Ângela, 25 anos recém-completados, mede 1,80 metro, veste 40 e calça 40. São jogadoras profissionais de vôlei. Ângela está na seleção brasileira, que na semana passada disputava no Peru as seletivas do campeonato mundial. Com Andréa, integra a equipe do Dayvit, de Barueri, atual campeã paulista. Quando escutaram a voz da mãe em apuros, já se puseram em marcha. Tudo começou quando Nilda, a vendedora encarregada de vigiar o provador, chamou a segurança imaginando que, com aquela musculatura, as duas irmãs só podiam ser travestis. Fora alertada por uma cliente que também estava no provador, alegaria mais tarde. Flávio, um dos seguranças, resolveu pisar fundo e o que se seguiu foi um constrangimento sem tamanho para mãe e filhas. "Tenho certeza de que, se fossem loiras, o Mappin ia pensar que eram modelos", aposta dona Zilma.

Acareação
A caçula Ângela, nervosa, começou a chorar. Andréa, mais despachada, sacou o celular e fez a coisa certa: foi procurar um advogado. Dona Zilma bateu pé até chegar ao encarregado da segurança e ao gerente administrativo, que se identificaram como Adão e Arlindo. A acareação com os funcionários que as destrataram foi um desastre. Não houve entendimento nem pedido de desculpas. A justificativa para a suspeita foi de que "tinham a voz grossa". "E desde quando voz fina define mulher?", indigna-se Andréa. Do Mappin a mãe e as duas filhas foram à delegacia de polícia mais próxima, onde registraram queixa para abertura de inquérito. A advogada Therezinha da Silva Carvalho pretende mover duas ações distintas. Uma queixa-crime por violação do artigo 140 do Código Penal, que caracteriza o delito de injúria com ofensa à dignidade e ao decoro, e uma ação de indenização por danos morais.

Andréa e Ângela só foram incomodadas numa tarde de compras porque são negras, mas a questão racial não está sendo demandada na Justiça. O episódio levanta um outro aspecto não resolvido: o que ocorre quando um travesti adentra banheiros ou provadores femininos? A lei não diz nada a respeito. A menos que cometa alguma obscenidade, um intruso no banheiro do outro sexo não comete nenhuma ilegalidade. Na prática, não se tem conhecimento de que Roberta Close tenha sido expulsa de lugar algum. "É inadmissível que uma coisa dessas aconteça no Mappin, uma empresa de consumo de massa que tem obrigação de tratar bem qualquer pessoa", diz Ricardo Mansur, o dono da empresa. Mansur, que garante ter tomado conhecimento do fato apenas na sexta-feira passada, deu ordens para que um diretor procurasse as duas jogadoras para se desculpar. Demorou, mas foi assim que ocorreu, na semana passada, a primeira manifestação de boa educação da empresa a respeito. A cena também guarda uma ironia amarga. O Mappin patrocina o time de vôlei feminino do Pinheiros, de São Paulo. Nele poderiam jogar Ângela e Andréa.