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21 de outubro de 1998

Clubes do exterior investem em escolas de futebol no Brasil em busca de jovens craques

Campo do Internazionale, de Milão, em Santo André: a Itália busca talentos no Brasil

No campo de terra do Aterro do Flamengo, um dos cartões-postais do Rio de Janeiro, a garotada entre 10 e 16 anos treina envergando a camisa do Feyenoord, clube da primeira divisão holandesa.


 
Na favela de Capuava, em Santo André, no ABC paulista, os meninos jogam metidos no reluzente uniforme do Internazionale, time de Ronaldinho, na Itália. Em Juazeiro, no sertão da Bahia, o que chama a atenção é a desenvoltura de donos da casa com que os empresários do Torino, da Itália, circulam pelas instalações do time local. O Aterro, a favela do ABC e o sertão de Juazeiro representam alguns exemplos da nova política de contratação de mão-de-obra dos grandes clubes europeus de futebol. Em vez de esperar que os jovens craques cresçam e apareçam, ganhando peso e preço, eles agora preferem investir na garimpagem de talentos diretamente na fonte, instalando e mantendo campos de treinamento nos quatro cantos do Brasil.

O que atrai os estrangeiros é a certeza de que encontrarão no país os melhores craques e em maior quantidade do que em seus próprios campos. O país, além de abastecer seu imenso mercado interno, exportou, só neste ano, 470 jogadores. "São poucos os clubes nacionais que mantêm estruturas adequadas para a revelação de atletas. Os estrangeiros perceberam e estão tomando conta", afirma o técnico Telê Santana. Ronaldinho, aos 13 anos, desistiu de treinar no Flamengo porque o clube não lhe bancava as passagens de ônibus entre sua casa, no subúrbio carioca de Bento Ribeiro, e a sede do clube, na Zona Sul. Casos como esse incentivam os estrangeiros a investir fora da Europa. Os milhões de um único craque revelado pagam o investimento de anos de escolinha.

Carreira holandesa

Exemplos como o de Luís Oliveira, um maranhense que chegou à seleção da Bélgica sem nunca ter jogado a sério no Brasil, devem se tornar cada vez mais comuns. "Em breve, a Europa terá uma série de jogadores brasileiros completamente desconhecidos por aqui", diz o dirigente esportivo José Carlos Brunoro. Um dos candidatos a se tornar um craque de exportação é o meio-campista carioca Leandro Alves da Cunha, 17 anos, titular da equipe de juniores do Paris Saint-Germain, da França. Ele está há três anos no país e chegou ao clube parisiense pelas mãos de um empresário francês, que o descobriu jogando peladas no Morro Tavares Bastos, no bairro do Flamengo. Outro brasileiro que está despontando como craque na Europa é o também meio-campista carioca Leonardo Santiago, 15 anos, que vive em Roterdã, na Holanda, desde 1994. Recentemente, foi promovido ao elenco profissional do time da cidade, o Feyenoord. Como prêmio, recebeu um apartamento de três quartos, onde vive com a mãe e o irmão. "Roterdã é uma cidade pacata e sem diversão, mas morar aqui é sacrifício necessário para fazer carreira", reflete. Leonardo foi descoberto pelo Feyenoord na escola de futebol Nova Safra, no Aterro do Flamengo. Entusiasmados com o achado, os holandeses estreitaram relações com a Nova Safra. Em troca de outras indicações, passaram a fornecer os uniformes para a escolinha.

Há pelo menos uma dezena de convênios entre times brasileiros e clubes da Europa e do Japão (veja mapa). O Juazeiro, da Bahia, por exemplo, construiu um centro de treinamento com 1,2 milhão de dólares que recebeu de empresários italianos. Cinco jogadores formados em seus campos estão de malas prontas para viajar. Três deles vão fazer teste no Torino, da segunda divisão italiana. Um dos contratos mais abrangentes é o firmado entre o Internazionale e cinco clubes brasileiros. Os europeus enviam ao país 350.000 reais por ano para manter cerca de 1.000 garotos de 11 a 13 anos treinando em campos construídos em áreas carentes. O Santo André, um dos conveniados, dá prioridade ao Internazionale para a compra de seus melhores atletas. O passe de cada um deles está fixado em 300.000 dólares.

Nem sempre tudo sai conforme o figurino. No final de 1996, um grupo de jogadores recrutados em Belo Horizonte embarcou literalmente numa fria. Seu destino era o centro de treinamento do LKS, clube da primeira divisão da Polônia. Depois de bater bola na neve e comer purê de batata no almoço e no jantar diariamente, a maioria guardou as chuteiras na mala e voltou para o Brasil. "Joguei num campo nevado, com 11 graus negativos, vestindo cinco casacos para poder suportar o frio", conta Cristiano Anastácio Rocha, 16 anos na época. Não agüentou nem três meses. Dos 23 que participaram da aventura, apenas seis ainda permanecem na Polônia.

"É tudo muito difícil, o clima, a língua, o estilo de jogo. Mas tem suas compensações", garante o paulista Valter Tomas Junior, 20 anos, zagueiro reserva do Örgryte, da primeira divisão sueca. Ele mora há dois anos em Gotemburgo e foi contratado depois que se destacou numa das excursões européias de Os Pequeninos do Jockey, um clube de São Paulo que se dedica exclusivamente à formação de jogadores. Os Pequeninos excursionam todo ano pela Europa e freqüentemente suas maiores promessas nem voltam ao Brasil. O zagueiro Valter, um dos últimos a mudar de continente, precisou engordar 4 quilos para encarar os robustos atacantes suecos. Apesar das dificuldades, ele recomenda a experiência. "No Brasil a concorrência é muito grande", diz. "Aqui na Suécia os garotos se dividem entre vários esportes e sobram vagas no gramado."