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Antologia do Brega
 
 
 
 
Antologia do Brega

02 de junho de 1999

Bordões dos anos 70 fazem a delícia da coleção A Discoteca do Chacrinha

Se te agarro com outro te mato/ Te mando algumas flores e depois escapo. A música Se Te Agarro com Outro Te Mato, de Sidney Magal, dificilmente seria incluída numa antologia das melhores canções brasileiras de todos os tempos. Seu refrão, no entanto, grudento como bala de caramelo, é tão inesquecível quanto Pare de tomar a pílula/ Porque ela não deixa nosso filho nascer ou Bilu, bilu, bilu/ Bilu tetéia. Nos anos 70, havia uma espécie de Muro de Berlim separando músicas como essas, chamadas de "bregas", e a MPB tradicional, de Chico Buarque e Gilberto Gil. Patrão e empregada não ouviam as mesmas canções. Os tempos mudaram, e o que era coisa de pobre hoje virou cult. Tanto que os executivos das gravadoras estão apostando na ressurreição do brega como a nova onda do ano.


 
Faz parte dessa estratégia o lançamento da caixa A Discoteca do Chacrinha, que reúne regravações de sucessos de Odair José, Fernando Mendes e Waldick Soriano, entre outros artistas que freqüentavam o palco do famoso programa de auditório comandado por Abelardo Barbosa, morto em 1988. A coleção ainda traz o CD-bônus A Buzina do Chacrinha, com o qual os mais saudosistas poderão arriscar um karaokê. Calças boca-de-sino, sapatos de plataforma, camisas coloridas, medalhões e cintos com fivelonas: ícones do estilo brega.

Os executivos das gravadoras decidiram cacifar o gênero motivados por dois fenômenos recentes, que atestam como desse "Muro de Berlim musical" hoje só restam escombros. O primeiro é o cantor Reginaldo Rossi. Até pouco tempo atrás, ele era conhecido apenas no Norte e Nordeste. Agora, escudado pela vendagem de 300.000 cópias de seu último álbum, Grandes Sucessos, Rossi é ídolo entre os adolescentes do Centro-Sul e aparece em programas de televisão tão díspares quanto Domingão do Faustão, da Globo, Pé na Cozinha, da MTV, e De Frente com Gabi, do SBT. O segundo é o êxito de Caetano Veloso. Ele conseguiu, com o CD Prenda Minha, a maior vendagem de sua carreira, 700.000 cópias. O disco foi puxado pela regravação de Sozinho, do compositor brega Peninha.

Humor

Mas, afinal, o que é o "brega"? Difícil definir. As letras, além do romantismo desbragado, trazem temas insólitos, como os dramas hospitalares. Os ícones da chamada "estética brega" vêm todos dos anos 70. A começar pelas roupas. Os ternos coloridos e sapatos de plataforma eram inspirados na moda da década anterior, os criativos anos 60. Quando os nordestinos que mudaram para São Paulo na época do milagre brasileiro começaram a comprar esse tipo de roupa nos saldões da loja Ducal, os "modernos" da época renovaram o armário. "O estilo deu uma saturada, e as pessoas que criaram a moda partiram para outros caminhos", analisa a consultora de moda Gloria Kalil, colaboradora de VEJA. "O que a gente queria mesmo era imitar o Roberto Carlos", entrega Fernando Mendes, autor do dramalhão musical Cadeira de Rodas, esclarecendo qual a verdadeira matriz do visual brega. O preconceito acabou, mas ainda há quem ache que as lacrimosas Celine Dion e Whitney Houston são melhores que Amado Batista e Odair José. Os bregas brasileiros, como se pode constatar pelos deliciosos CDs de A Discoteca do Chacrinha, pelo menos têm mais senso de humor.