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África Esquecida
 
 
 
 
África Esquecida

20 de maio de 1998

Remanescentes de antigos quilombos, 511 comunidades negras vivem isoladas no interior do país

Desde 1888, quando foi abolida a escravidão no país, os remanescentes dos antigos quilombos - redutos onde se reuniam os negros foragidos - permaneceram esquecidos embaixo do tapete da História brasileira. Nos últimos tempos, contudo, eles começaram a reaparecer. Graças ao trabalho de pesquisadores, do governo e ao efeito da Constituição de 1988, que reconheceu o direito à terra de descendentes dos negros escravos, o que se está descobrindo é surpreendente. Até hoje, a Fundação Palmares, órgão do Ministério da Cultura, já registrou 511 comunidades de negros que podem ser remanescentes de quilombos em 22 Estados. Dez delas, com 380 famílias, já passaram pela burocracia do Estado e receberam os títulos de suas terras. Foram 90.041 hectares, área pouco maior que a de Curitiba e Florianópolis somadas.


 
Em Mirinzal, no Maranhão, Estado onde houve a maior concentração de escravos do império, 183 famílias tomaram posse da fazenda Frechal - um dos primeiros latifúndios de açúcar do país, onde seus avós provavelmente foram escravos. Nos 10.500 hectares da fazenda, localizada a cerca de 300 quilômetros de São Luís, essas famílias vivem hoje da agricultura de subsistência, da caça e da pesca, controladas pelo Ibama. No Pará existem dezenas de vilas de negros ao longo do Rio Trombetas oriundas de quilombos formados pelos escravos foragidos das antigas fazendas de castanha. Dez delas já receberam terras, três somente no município de Oriximiná, no coração da selva, a mais de 300 quilômetros de Santarém. "As aldeias se sucedem ao longo do rio", diz o fotógrafo Ricardo Teles, dedicado a registrar a vida nessas vilas em todo o país. "Deve haver cerca de 2.000 negros por lá."

Até a Abolição, haviam desembarcado no Brasil cerca de 6 milhões de negros escravos. Nunca se soube quantos fugiram para os quilombos nem quantos são seus descendentes. O certo é que eles existem e continuam num histórico isolamento do resto do país, agrupados em vilas e adaptados aos costumes de cada região. Em Oriximiná, vivem quase como os índios: queimam a mata para plantar mandioca, pescam e moram em palafitas. Nas vilas de Rio das Rãs, próximas ao Rio São Francisco, em Bom Jesus da Lapa, na Bahia, moram em casas de pau-a-pique. Somente no mês passado chegou água encanada e luz elétrica à região. São na maioria católicos, mas mantêm algumas manifestações religiosas de origem africana. Quando as pessoas ficam doentes, procuram o velho Andrelino, pai-de-santo que faz as vezes de curandeiro com passes e rezas de candomblé numa casa onde cultiva um altar para Iemanjá. Duas vezes ao ano, Rio das Rãs celebra a marujada - festa em que homens, vestidos com cocares de papel, cantam e rezam imitando o movimento de um barco, guiados pelo "mestre" Isauro. É um ritual mágico, próprio das populações ribeirinhas, realizado após as novenas nos dias santos ou a pedido de alguma família. Não falta a figura do "capeta", que com uma máscara de couro espanta as crianças, para que não interfiram na celebração.

Recentemente, o Ministério do Trabalho começou uma campanha de profissionalização no lugar. No centro comunitário, ensina profissões como a de barbeiro e a construir casas de alvenaria. Já foram desapropriados e demarcados 23.070 hectares de Rio das Rãs, mas a terra permanece sem titulação. O trabalho de reconhecimento de uma comunidade descendente de quilombos é lento e difícil. "Conseguir a propriedade da terra tendo de provar que seus avós foram escravos fugidos é muito penoso", afirma o sociólogo Clóvis Moura, autor de vários livros sobre os negros brasileiros. "A questão não é antropológica, é social." Dependente da tradição oral, a maior parte desses negros nem sequer preserva a memória dos tempos em que seus ancestrais foram escravos. "Muitos nem sabem que houve escravidão", diz Moura. "Tudo o que eles sabem é que são negros e donos da terra onde vivem."