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Vida no Mangue
 
 
 
 
Vida no Mangue

20 de outubro de 1999

Despoluição de Cubatão salva aves ameaçadas

Considerada como uma das regiões mais poluídas do mundo na década de 70, Cubatão vem dando sinais repetidos de renascimento. A quantidade de peixes no Rio Cubatão voltou a crescer e a Mata Atlântica está se recompondo nas encostas que circundam a cidade. Não há, porém, sinal mais evidente, e simbólico, de recuperação do que a presença do guará-vermelho, ave ameaçada de extinção que vive em um manguezal vizinho às principais indústrias da região. No lugar que há vinte anos era o retrato do inferno produzido pelo homem está aumentando a população dos belíssimos guarás, que no passado chegavam a toldar a luz do sol, numa nuvem rubra, segundo descrições dos primeiros colonizadores do Brasil.

O complexo com dezenove indústrias instalado no fundo da Baía de Santos despejava diariamente na atmosfera parada do vale de Cubatão toneladas de partículas poluentes. A mistura tóxica envenenava a população e provocava chuva ácida. A contaminação das águas tornou os peixes e mariscos da baía impróprios para o consumo humano. A recuperação teve início em 1984, quando a Cetesb, órgão de controle ambiental do Estado de São Paulo, começou a exigir melhorias das indústrias. Desde então, as empresas investiram 525 milhões de dólares. Estima-se que 93% das fontes de poluição já estão sendo controladas. A qualidade do ar melhorou. Em 1984, a Cetesb foi obrigada a decretar estado de alerta dezesseis vezes, quando os índices de sujeira passavam dos níveis críticos internacionais. Neste ano decretou apenas uma vez.

Depois de sua privatização, em 1993, a Companhia Siderúrgica Paulista, Cosipa, maior poluidora do vale, também resolveu se regenerar. Nos últimos quatro anos, a empresa investiu 200 milhões de dólares em equipamentos. Ela está implantando filtros que reduziram 91% das emissões de poeira na atmosfera. Além disso, está construindo estações de tratamento para reaproveitar 70% da água usada pela empresa e diminuir em 99% o lançamento de óleo e graxa no estuário. A natureza reagiu. O manguezal, que tinha 130 quilômetros quadrados no início do século, perdeu mais da metade dessa área. Apesar disso, ainda serve de abrigo para 146 espécies de aves, incluindo o precioso guará-vermelho. Considerado extinto na Região Sudeste desde a década de 50, o guará foi redescoberto em 1984, no mangue de Cubatão. A ave rara vem sendo estudada pelos biólogos, com resultados surpreendentes. Embora o principal ninhal de guarás esteja localizado a menos de 200 metros da Cosipa, a quantidade de aves cresce a cada ano. Sintoma claro de que o ambiente está ficando saudável outra vez.