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O Sertão Virou Pó
 
 
 
 
O Sertão Virou Pó

01 de setembro de 1999

Um pedaço do Nordeste maior que o Ceará está se tornando um deserto imprestável para a lavoura

Terra devastada: areia toma conta da caatinga em Rodelas, no interior baiano Exploração predatória em Pernambuco: vegetação foi consumida como lenha


 
O semi-árido nordestino, que sempre resistiu aos longos períodos de estiagem, está entregando os pontos diante do avanço da desertificação. O fenômeno é muito mais cruel que as terríveis secas. O solo perde definitivamente a cobertura fértil e se vão para sempre os parcos nutrientes que sustentam a vegetação pobre e agreste. Sobram apenas a areia, umas poucas plantas espinhosas sem valor econômico e os enormes buracos provocados pela erosão. É um cenário bastante parecido com o de grandes desertos, como o famoso Vale da Morte, na Califórnia. Se fossem reunidas numa só, as áreas já transformadas em pequenos desertos no sertão nordestino formariam uma mancha quase do tamanho do Estado de Sergipe. São mais de 18.000 quilômetros quadrados completamente esturricados, uma terra arenosa e empobrecida que água nenhuma conseguiria tornar cultivável. O fenômeno torna-se ainda mais preocupante porque os técnicos identificaram uma área dez vezes maior que esta indo pelo mesmo caminho. "Isso tudo vai virar um imenso deserto", diz Heitor Matallo Júnior, diretor do Plano Nacional de Combate à Desertificação, do Ministério do Meio Ambiente. É um território equivalente a quatro vezes o tamanho do Estado do Rio de Janeiro.

A desertificação é ainda um processo voraz. Na semana passada, geólogos do Ministério da Integração Nacional divulgaram estudos surpreendentes sobre a velocidade de degradação do solo do semi-árido. Perdem-se a cada ano 10 toneladas de terra fértil por hectare. "É como se tirassem dois caminhões basculantes por ano de terra de um campo de futebol", explica Henrique Marinho Chaves, engenheiro agrônomo do Ministério da Integração Nacional. O impacto já é tão devastador que, se deixado por conta da natureza, precisaria de 1.000 anos para ser revertido. A situação em certas partes do Nordeste brasileiro é tão dramática que cenário semelhante só é encontrado na região do Sahel, onde o Saara avança para o interior da África. De acordo com dados das Nações Unidas, 60.000 quilômetros quadrados de terras férteis são perdidos todos os anos no mundo pela mesma razão: ocupação desordenada e predatória de regiões extremamente frágeis do ponto de vista ambiental.

Futuro comprometido
A desertificação é uma tragédia ecológica com reflexos profundos no futuro do Nordeste. Além de acabar com a caatinga e com o solo cultivável, provoca o assoreamento de rios e açudes em regiões onde a água escassa tem importância vital. Com isso, acelera o êxodo das famílias sertanejas que migram em busca de trabalho ou vão avançando a fronteira agrícola para áreas vizinhas e ampliando ainda mais o problema. Só em perda de produtividade, o Ministério do Meio Ambiente estima em cerca de 300 milhões de dólares ao ano o estrago econômico provocado pelos desertos no Nordeste. O prejuízo médio anual é de 7 dólares por hectare nas terras de pastoreio, 50 dólares na agricultura típica de semi-árido e 250 dólares nas terras irrigadas, de acordo com o critério de avaliação das Nações Unidas. Os Estados mais atingidos são Ceará e Pernambuco, que têm juntos mais da metade da área sob o risco de se desertificar. Os outros pontos críticos podem ser encontrados no Piauí, no Rio Grande do Norte e na Paraíba. A área de risco, mesmo que moderado, já se alastrou para a Bahia e o norte de Minas Gerais.

Os especialistas já identificaram com precisão o mecanismo de proliferação dessa verdadeira praga. O sertão tem quase 18 milhões de habitantes. É o maior adensamento populacional em região de semi-árido do mundo. Para sobreviver, eles lançam mão de técnicas rudimentares de agricultura e pecuária num ambiente que tem muito pouco a oferecer em termos de recursos. As plantações são feitas de forma inadequada e com produtos que exaurem o solo. Os animais criados na região são do tipo que come o que vê pela frente. As lavouras de mandioca e feijão, as mais populares entre os agricultores, estão entre as que menos protegem o solo da devastação. Para se ter uma idéia de quanto um cultivo desse tipo está desprotegido, basta compará-lo com uma região de floresta, onde o fator de preservação das condições do solo é vinte vezes superior. Isso sem contar que a terra continua sendo preparada com queimadas. Muitos projetos de irrigação se tornaram igualmente prejudiciais. Mal elaborados e mal executados, vários levaram água em excesso para o meio do sertão e alteraram drasticamente - e para pior - a composição química do solo. Resultado: as plantas não conseguiram resistir.

A criação extensiva de bois e de bodes, da forma como é praticada atualmente, tem arrasado o sertão. Os animais comem a vegetação que sobrevive à estiagem prolongada e ainda pisoteiam mudas e plantas rasteiras. O desmatamento indiscriminado da caatinga também contribuiu para o desequilíbrio ambiental. A lenha é retirada sem nenhuma fiscalização, vai parar nos fogões das famílias e nos fornos de cerâmicas do Seridó, no Rio Grande do Norte, e de fábricas de gesso no sertão do Araripe, em Pernambuco. Nessas duas áreas e na região de Gilbués, no Piauí, a mineração dizimou o solo cultivável. Para completar, a algaroba, uma árvore peruana que foi introduzida em programas de reflorestamento na década de 40, ocupou as áreas que ainda conservam alguma superfície de solo fértil e matou as plantas nativas.

Apesar de o cenário desértico causado pelo homem no Nordeste ser muito semelhante ao que se vê nas formações desérticas naturais, a região desertificada do semi-árido brasileiro mantém certas particularidades. O problema não é exatamente a falta de água. Enquanto num deserto chove menos de 100 milímetros por ano, na caatinga a média de chuva é de 500 milímetros anuais. O tipo de solo da região também altera a configuração dessas áreas ressequidas. Onde há solo mais cristalino, a formação desértica é de um imenso areal saariano. É esse o caso da região de Rodelas, na Bahia, próximo à divisa com Pernambuco. Mas em locais de solo mais compacto ou com boa quantidade de argila a desertificação é caracterizada por um ambiente com arbustos secos e grandes crateras erodidas. São lugares nos quais não adianta plantar, porque nada prospera.

A recuperação desse tipo de terreno é possível, mas a alto custo. O Ministério do Meio Ambiente estima serem necessários 2 bilhões de dólares para reabilitar a região num período de vinte anos. "A conta é alta, mas esse é o preço para não perdermos o semi-árido", diz o engenheiro florestal Paulo Cesar Lima, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa. O problema maior para a recuperação não é o dinheiro, mas o tempo exigido. Os Estados Unidos estão investindo na reabilitação de suas áreas desertificadas, no Meio Oeste do país, desde a década de 30. No Brasil, a discussão sobre o assunto só tomou impulso na década passada. Em novembro, a III Convenção Internacional de Combate à Desertificação, das Nações Unidas, será realizada no Recife para discutir quais são as soluções mais viáveis. Tentativas de interromper a passagem do semi-árido para a condição de deserto pipocam aqui e ali. Em Irauçuba, no Ceará, a Embrapa está plantando milhares de árvores de vinte espécies. No Rio Grande do Norte, existem quatro centros de cultivo de mudas de plantas nativas da caatinga. Em Pernambuco, os agricultores estão recebendo treinamento sobre o uso e manejo do solo. É pouco para reverter o processo. Mas essas poucas experiências têm mostrado que mudar a paisagem não é impossível.

Um plano para o Velho Chico
Está para sair do papel uma verdadeira revolução no fornecimento de água para o Nordeste. O Ministério da Integração Nacional já tem pronta a versão definitiva do projeto de transposição das águas do Rio São Francisco. A idéia de aproveitar o mais importante rio nordestino para resolver o problema da seca perambula por Brasília desde 1985, mas todas as tentativas anteriores foram abandonadas. Desta vez tudo indica que será diferente. Isso porque se trata de um projeto com os pés no chão, e o governo federal mostra disposição de pôr mãos à obra. A viabilidade técnica da transposição das águas do Velho Chico é dada pela participação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Inpe. "Vamos usar a água que inevitavelmente acabaria no mar", diz Fernando Bezerra, ministro da Integração Nacional.

Não é obra que se faça da noite para o dia. A primeira etapa deve ser licitada já no próximo ano, mas a última não estará pronta antes de 2025. Ainda falta saber exatamente de onde sairão os 2,9 bilhões de dólares necessários para financiar o projeto, mas provavelmente virão de organismos internacionais. As águas do São Francisco serão levadas para os açudes no Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco por meio de uma rede de 1.400 quilômetros de túneis e canais. Serão verdadeiros rios artificiais no meio do sertão. Os canais conduzirão as águas para outros rios e para os açudes, de onde serão distribuídas para o abastecimento de 200 municípios, onde vivem 6,8 milhões de pessoas. Terão em média 50 metros de largura e 4 de profundidade. A vazão média da retirada do Velho Chico será de 53 metros cúbicos por segundo - o equivalente ao consumo diário da Grande São Paulo -, podendo chegar a 100 metros cúbicos por segundo. A quantidade é relativamente pequena para o São Francisco, cuja vazão alcança 2 300 metros cúbicos por segundo nas usinas de energia elétrica instaladas ao longo de seu leito.

O projeto prevê oito estações elevatórias para bombear a água nos canais. Para chegar ao Ceará, a água precisa ser elevada ao nível de 160 metros. Na direção da Paraíba ultrapassam-se os 300 metros. A partir desses pontos, seguirá por gravidade até as regiões onde o processo de desertificação do semi-árido está mais avançado. Já está acertada entre o governo federal e os Estados a quantidade que cada um poderá usar. Também está previsto que os Estados beneficiários paguem pela água, o que deve garantir o sustento da operação. Uma vantagem adicional do sistema será a melhor qualidade do líquido. A maioria dessas cidades consome hoje a água barrenta dos açudes. Ficará mais pura graças à renovação freqüente e à redução da salinidade.