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Centros de Prosperidade

28 de julho de 1999

Os segredos das cidades que conseguiram mudar sua sina e transformar-se em ambientes ricos e agradáveis

Dez anos atrás, Nova York era recordista em criminalidade e estava sendo abandonada pelos turistas. Hoje, retomou o status de centro da economia mundial. Está limpa, organizada, rica e recebeu mais de 30 milhões de turistas no ano passado.


 
A cidade de Manila é um dos dezessete municípios que compõem a região metropolitana de Manila, com mais de 10 milhões de habitantes, 13% da população das Filipinas. Um dos principais problemas de Manila, como de muitas cidades pobres, era o lixo. A capital era imunda. Agora, há empresas comunitárias que recolhem, selecionam e reciclam o lixo sólido. Mais limpa, a cidade recebeu novos investimentos e vem enriquecendo. Leicester, na Inglaterra, derrubou armazéns abandonados e reativou sua economia com um novo parque de pesquisa tecnológica. Em Cingapura e em Estocolmo, na Suécia, cobra-se pedágio nas principais avenidas de acesso ao centro. O problema de congestionamento de trânsito acabou. É certo que nem todas as cidades do mundo terão espaço no clube das cidades globais. Mas há inúmeros exemplos de centros urbanos que conseguiram escapar da sina da pobreza. O segredo: prefeitos que descobriram ter um novo papel. Eles já não são apenas administradores burocráticos, mas comportam-se como empresários que investem e vendem um produto, a sua cidade.

Barcelona, Espanha
Barcelona hoje atrai turistas, empresas de design e de pesquisa tecnológica e até indústrias, como a Volkswagen. Não lembra em nada a cidade decadente de vinte anos atrás, que estava sendo abandonada. O segredo da virada foi uma aplicação de recursos na recuperação de ruas e praças e em telecomunicações.

Hong Kong, China
É a sede das operações de 2 000 corporações internacionais. A constante movimentação de pessoas e informações em transportes e sistemas de telecomunicações de última geração é grande vantagem. Hong Kong tem 10 000 restaurantes, para diversão dos executivos estrangeiros que aportam em seu território.

Nova York, Estados Unidos
Foi abandonada pela indústria e tomada pela violência, mas deu a volta por cima. A prefeitura cortou impostos, reurbanizou becos e pontos turísticos e atraiu empresas na área de serviços. Hoje, tem cerca de 16 milhões de habitantes e gera um terço de todas as chamadas internacionais feitas nos Estados Unidos. Estão na cidade 49 das 500 maiores empresas americanas. No ano passado, 35 milhões de turistas visitaram Manhattan.

Londres, Inglaterra
Uma das maiores cidades da Europa, com 7 milhões de habitantes, além de outro milhão de pessoas que entra em sua área para trabalhar todos os dias, Londres passou por uma revolução nos últimos anos. Passou de centro industrial a cultural e financeiro. Todas as semanas acontecem 1.500 eventos culturais na cidade. Os monumentos foram limpos, há segurança nas ruas, o serviço de metrô é um dos melhores do mundo. Seus prédios de escritório, que foram abandonados no início da década, hoje estão com 75% de ocupação. A taxa de desemprego, que já foi recorde na Europa, hoje está entre as mais baixas.

Vários centros urbanos cujos problemas pareciam sem solução encontraram um caminho para se tornar mais lucrativos, interessantes, agradáveis e atraentes para novos investimentos. Os que fizeram a virada tiveram de chegar ao pior ponto para receber a centelha da salvação. Uma das reformas mais notáveis é a de Barcelona, na Espanha. No final da década de 70, quando foi abandonada pelas indústrias têxtil e metal-mecânica, o forte da economia da região, 300.000 vagas de trabalho desapareceram. A recuperação começou com um investimento organizado pela prefeitura. O dinheiro veio do governo central, do governo da Catalunha, da própria prefeitura e de empresários. Os cidadãos também colaboraram, reformando ou pintando suas casas em troca de isenção de impostos urbanos. Também receberam empréstimos subsidiados dos bancos privados. Ao todo, 300 praças foram construídas ou remodeladas. Casas foram restauradas, ruas pavimentadas e instalou-se toda uma infra-estrutura de telecomunicações. A cidade, que era um atraso, virou cartão-postal da modernidade. Na preparação para as Olimpíadas de 1992, Barcelona foi inundada com mais dinheiro -- e virou uma nova cidade. Caíram até os índices de poluição e criminalidade. Empresas de design, pesquisa científica e tecnológica e moda se estabeleceram ali.

As razões que levaram a montadora alemã de carros Volkswagen a se instalar em Barcelona são exemplares. Entre as cidades que a montadora analisava na Europa, todas tinham universidade, aeroporto, uma série de pequenas empresas que poderiam tornar-se fornecedoras de peças. O diferencial de Barcelona foi a tranqüilidade, a certeza de que se pode passear à noite pelas ruas num ambiente agradável, repleto de árvores e com bares e restaurantes de qualidade, sem risco. "A cidade tem de oferecer produtos urbanos que as pessoas e as empresas queiram comprar", diz o arquiteto espanhol Jordi Borja, um dos artífices da ressurreição de Barcelona. "E hoje as pessoas querem conforto, praticidade, segurança."

Em Nova York, quando as indústrias bateram em retirada porque a cidade ficou muito cara e pouco prática, os prédios foram abandonados, o desemprego cresceu e a criminalidade aumentou. Nova York é uma cidade atraente, com vida cultural intensa, museus, casas de espetáculos, curiosidades de todo tipo. Mas viveu uma crise terrível no início da década, até que a prefeitura reagiu. Cortou impostos, combateu com firmeza a criminalidade e negociou com empresas para que elas se instalassem na região. Em poucos anos Nova York ficou limpa. Uma área de prostituição e drogas foi ocupada por um escritório da Disney. Há, hoje, até o Beco do Silício em Manhattan, onde funcionam empresas de alta tecnologia, a Microsoft entre elas.

Os consultores de empresas que trabalham buscando novas oportunidades de investimentos andam espantados com o volume de livretos, filmes e cartões que recebem de cidades localizadas nas áreas mais remotas. "Estão todos descobrindo o poder da propaganda", afirma Antoninho Marmo Trevisan, cuja empresa de consultoria é associada a uma das maiores companhias do ramo no mundo, a Grant Thornton International. Outra mudança que os consultores perceberam é ainda mais surpreendente. Empresas que normalmente procuravam estabelecer-se em áreas onde houvesse mercado consumidor próximo, mão-de-obra e matéria-prima baratas e terreno disponível a baixo custo, além de poucos impostos, agora fazem novas exigências. Procuram regiões onde haja bons hospitais, escolas de qualidade e oportunidades de lazer. Recentemente, os consultores da Trevisan foram escalados para descobrir uma localidade brasileira que tivesse todos esses ingredientes e mais um, considerado pelo presidente de uma multinacional de importância vital: um campo de golfe. "Quando descobrimos a locação ideal, o presidente da empresa ainda quis passear pela região central da cidade para ver o jeito das pessoas, observar os pontos de ônibus e investigar o custo de vida", conta um dos encarregados da missão. "Cidades cinzas e fumarentas não têm mais vez."

Londres, um dos centros da revolução industrial do século XVIII, era assim, cinzenta. Nos anos 80, começou a ser abandonada não só pela indústria, mas também por lojas e escritórios comerciais. Chegou a ter uma das maiores taxas de desemprego entre as capitais européias. A decadência não foi maior porque a reação foi rápida. Monumentos foram limpos, o Rio Tâmisa foi despoluído e em suas margens foram construídos caminhos para passeios a pé e rotas para bicicletas. Os armazéns do porto deram lugar a escritórios, prédios de apartamentos e lojas. A rede de transportes foi expandida para ligar a região portuária com o restante da cidade. A economia foi desregulamentada para permitir que novos negócios surgissem sem muita burocracia. E, para completar, criou-se uma organização dedicada a vender a imagem da cidade como centro financeiro. Hoje, seus edifícios comerciais ultramodernos estão todos ocupados. A taxa de desemprego de Londres é baixa.

As cidades continuam crescendo porque oferecem, em média, maiores benefícios econômicos e sociais do que as áreas rurais. Facilitam a difusão dos produtos, das idéias e dos recursos humanos. Como acumulam muita gente, podem oferecer educação de melhor qualidade e produtos culturais mais elaborados. Houve quem pensasse que, com o surgimento do computador e com as novas tecnologias de comunicação, as pessoas fossem abandonar as aglomerações e se retirar para o campo, para trabalhar isoladas. Engano. "As cidades são aceleradoras de partículas. São fontes de inovação artística e tecnológica. É nelas que tudo acontece e por isso não desaparecerão jamais. Mas elas precisam mudar, e já estão mudando", diz Raquel Rolnik, arquiteta que cuida de uma organização não governamental, a Pólis, de São Paulo, cuja função é proteger o meio ambiente urbano.

No Brasil, as iniciativas de recuperação das cidades ainda são tímidas, mas existem. A prefeitura de Santo André, na grande São Paulo, tem um projeto para o reaproveitamento das margens do Rio Tamanduateí, que hoje são ocupadas por velhos galpões de fábricas abandonadas. Pretende construir praças, escolas, shopping centers e prédios de escritórios no lugar, e atender a área com um metrô de superfície que aproveitará os velhos trilhos de uma ferrovia. No Recife, Pernambuco, as favelas foram declaradas zonas especiais de interesse social e estão sendo urbanizadas. O centro antigo do Recife, com construções do século XVII, era uma zona de prostituição. Transformou-se numa área de restaurantes. Porto Alegre é a única cidade do país onde todo o lixo passa por coleta seletiva, para ser reciclado. E em Salvador o dique de Itororó, que era uma cloaca de esgoto cercada de mato, foi transformado num parque com calçadões e um lago. Como se vê, são movimentos pontuais. "A idéia do prefeito como um empreendedor ainda é novidade do Brasil", diz o governador Jaime Lerner, do Paraná, que, quando foi prefeito de Curitiba, fez um grande projeto para remodelar a cidade. A economia paranaense cresceu 2,5% no ano passado, enquanto o país patinava num crescimento pífio de apenas 0,15%. "É preciso ter uma estratégia, investir em qualidade de vida e vender a região para as empresas que se quer conquistar", ensina o governador.