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04 de agosto de 1999

Os novos aviões da Nasa são até quinze vezes mais velozes do que o Concorde

Esqueça a ficção científica. Tudo o que você está vendo nas fotos que ilustram estas duas páginas é real. São aviões capazes de dar a volta ao mundo sobre a linha do Equador em menos de uma hora e meia, viajando nos limites da atmosfera, acima de 200 quilômetros do solo. Aeronaves que enfrentam temperaturas tão extremas que reduziriam a cinzas o mais veloz e sólido avião atual. Bólidos tão potentes quanto os foguetes e tão velozes e versáteis que poderiam cobrir a distância entre o Rio de Janeiro e Paris em apenas dezoito minutos e ainda realizar tarefas típicas do ônibus espacial, como colocar satélites em órbitas de baixa e média altitude. O primeiro desses aparelhos acaba de entrar na linha de produção.

Há duas semanas a Nasa e a Boeing firmaram um acordo para lançar no espaço dentro de três anos o primeiro modelo do X-37, um avião esquisito, de asas curtas e jeito de míssil. O aparelho terá um novo revestimento de fuselagem, de manutenção mais simples e barata que a das atuais naves espaciais, e será impulsionado por uma mistura de peróxido de hidrogênio e querosene. Mais compacta e simples de ser estocada, a mistura de combustível fará o avião voar a inacreditáveis 30.000 quilômetros por hora e chegar a altitudes semelhantes às atingidas hoje pelos ônibus espaciais. Ao todo, o X-37 incorporará mais de quarenta inovações técnicas e aerodinâmicas para se tornar uma opção dez vezes mais barata do que o ônibus espacial.

Por enquanto, todas essas maravilhosas máquinas voadoras estão em fase de testes ou projeto. Os protótipos são aparelhos experimentais que voam por controle eletrônico, sem tripulantes. São a nova fronteira da indústria aeronáutica e aeroespacial. Dentro de alguns anos devem substituir tanto naves como a Columbia e a Endeavour como também fornecer novas tecnologias aos aviões comerciais. São aviões-conceito que fazem parte da mítica família X. Dela saiu, em 1946, o X-1, primeiro avião a quebrar a barreira do som em 1947, mesmo ano do XB-47, modelo que deu origem ao Boeing 707. A Nasa tem hoje onze aeronaves nas pranchetas ou nos hangares dentro da linha X. Pelo menos a metade é de artefatos desenhados para voar com velocidade de no mínimo 9.000 quilômetros por hora, entre 30.000 e 80.000 metros de altura. Como os foguetes, usam hidrogênio como propelente, são revestidos com material de altíssima resistência e sua fuselagem tem baixo coeficiente de atrito com ar. Mas trazem também características típicas dos aviões: são mais fáceis de manobrar, têm motores capazes de decolar e aterrissar por conta própria (sem depender de uma plataforma de lançamento) e podem ser utilizados inúmeras vezes. Com essas particularidades, servirão tanto para missões científicas e militares como, num futuro mais distante, para o transporte civil de carga e passageiros. Ainda não existe previsão de quando serão os primeiros vôos tripulados.

Um dos modelos que está em estágio mais avançado é o X-33, desenvolvido entre a Nasa e a Lockheed Martin. Projetado como um substituto do ônibus espacial, esse avião-foguete triangular, que mais parece uma fatia de pizza com asas, tem seu vôo de estréia previsto para o próximo ano. Promete reduzir o intervalo entre as missões e ainda apresentar grande versatilidade nas viagens à órbita da Terra. Como o aparelho que deve substituir, decolará verticalmente e aterrissará como um avião, sem no entanto ter o auxílio de foguetes extras na partida. Outro modelo, o X-43, deve se tornar uma versão hipersônica do Concorde, o avião comercial mais rápido produzido até hoje. O vôo do primeiro protótipo também acontece no ano que vem. Desenhado para atingir velocidade de 12.000 quilômetros por hora, será seis vezes mais rápido do que seu ancestral europeu. Se algum dia se tornar um avião comercial, poderá transportar passageiros e cargas entre o Brasil e a Europa em cerca de 45 minutos.

Por enquanto, os técnicos da Nasa pretendem usar o protótipo do X-43 para testar um sistema de motores a jato, sem turbinas, movidos a hidrogênio. Dotado de um mecanismo que suga da própria atmosfera o oxigênio necessário para a reação de combustão, o X-43 terá tanques de combustível pequenos. O aparelho voará a 30.000 metros, quase o dobro da altitude atingida pelo Concorde, e terá um desenho elegante e esguio, no formato de uma lâmina triangular. Custará cerca de 170 milhões de dólares apenas na fase de protótipo e não há previsões de quanto mais de dinheiro exigirá para se transformar num avião de passageiros. Espera-se, no entanto, que não repita a sina do antecessor. O Concorde foi um fiasco comercial que nunca conseguiu recuperar os 3 bilhões de dólares gastos em treze anos de projeto e construção.

O primeiro protótipo do X-43A foi testado em condições reais em junho de 2001, porém após desprender-se do foguete, o X-43A descontrolou-se, sem nem mesmo ser possível testá-lo. Os engenheiros da NASA ativaram a autodestruição do X-43A. O segundo protótipo foi testado em março de 2004. O terceiro e último protótipo voou em novembro de 2004. A NASA pretende ainda um dia utilizar uma aeronave com funcionamento semelhante a esse para enviar cargas ao espaço, como medida alternativa para foguetes. Este último prótipo bateu o recorde de 11.200 km/h (cerca de Mach 9,1). O sucessor do X-43A teve construção cancelada.


X-33
Comprimento: 21 metros
Velocidade: 15 600 km/h
Altitude: 80 quilômetros
Previsão de vôo: 2000






X-37
Comprimento: 8 metros
Velocidade: 30 500 km/h
Altitude: 200 quilômetros
Previsão de vôo: 2002







X-43
Comprimento: 3 metros
Velocidade: 12 000 km/h
Altitude: 30 quilômetros
Previsão de vôo: 2000