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Alerta Nazista
 
 
 
 
Alerta Nazista

05 de maio de 1999

Hitler foi pioneiro em relacionar fumo e câncer

Cartaz alemão: "O cigarro fuma você"

Quem acha que a campanha antitabagismo é coisa da sociedade americana em tempos politicamente corretos teve uma surpresa na semana passada. De acordo com o professor de história européia Robert Proctor (foto), pesquisador da Universidade do Estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos, a primeira campanha contra o cigarro no Ocidente ocorreu na Alemanha nazista. Sim, é isso mesmo, e foi Adolf Hitler, um vegetariano convicto, quem estimulou os médicos de seu país a desenvolver pesquisas relacionando fumo e câncer. Antes mesmo que os resultados saíssem, o führer, achando que hábitos de vida saudáveis poderiam purificar e fortalecer a "raça ariana", resolveu iniciar uma campanha nesse sentido. "Você não fuma o cigarro - é ele quem fuma você", dizia um cartaz de 1941.

Na época, os países aliados viram a mensagem como mais uma afronta às liberdades individuais, típica de um regime autoritário. Somente nos anos 50, depois do final da II Guerra Mundial, é que ingleses e americanos começaram a fazer pesquisas sobre o assunto. "Até hoje, ainda é um tabu dizer qualquer coisa positiva sobre as pesquisas realizadas na Alemanha de Hitler", diz o professor Proctor, que está publicando seu estudo num livro intitulado A Guerra Nazista contra o Câncer. A partir de agora, têm respaldo histórico os fumantes que chamarem de "nazistas" os donos de restaurantes que proíbem o cigarro.


 
Robert Proctor, que as patrulhas higiênicas deviam ler, explicou tudo em "The Nazi War on Cancer". A leitura de Proctor é arrepiante mas a tese é magistral: as campanhas antitabagistas do mundo moderno nasceram na Alemanha das décadas de 1930 e 1940. Nasceram com a preocupação nazi em combater o vício e, óbvio, humilhar publicamente os viciosos. Humilhar consumidores de morfina. Cocaína. Coca-Cola. E enfiar os fumantes no gueto da vergonha social. Quando Hitler chegou ao poder em 1933, o tabaco era reconhecido como semente do mal. Causa de tudo. Infertilidade. Impotência. Câncer. Enfarte. Comunismo. Uma ameaça direta à pureza da raça ariana e sua excelência física e mental. O próprio Adolfo se empenhou pessoalmente no caso. Ele não fumava. Ele gostava de dizer que não fumava. Nem ele, nem Mussolini, nem Franco –tudo boa gente. Pelo contrário: Churchill e Roosevelt eram conhecidos fumantes, exemplos de ruína pessoal e moral. A evitar.

Falou e disse: a partir de 1933, as campanhas estavam nas ruas. Gigantescas imagens onde o fumante típico era tratado como débil sem dignidade ou vergonha (tradução: um judeu manipulador que introduzira o cigarro na Alemanha para exterminar o povo nativo). Ninguém escapou. As donzelas viciosas eram pintadas em pose masculina, a versão clássica da ‘mulher com barba’, fenômeno de circo para horrorizar a burguesia. E homens fumantes eram seres sexualmente arruinados, com traços femininos, lânguidos, tristemente adocicados. O tabaco surgia em sagrada aliança com tudo que era condenável. Jazz. Swing. Álcool. Jogo. Cupidez. Devassidão. Orgia.

Azar: seis anos depois, os alemães estavam fumando a dobrar. Em 1933, o alemão médio fumava 570 cigarros por ano. Em 1939, antes da Segunda Guerra, fumava 900. Proctor avança razões. Todas elas sublinham o essencial: fruto proibido é mais apetecido. Histórica clássica. Bíblica. Razão de nossos prazeres e nossas desgraças. Ninguém deixa de fumar por causa do fanatismo de terceiros. Pior: o fanatismo de terceiros acaba por ser inútil –e até contraproducente.

Trabalhos:
"The Nazi War on Tobacco: Ideology, Evidence, and Public Health Consequences" (Bulletin of the History of Medicine - 1997)
"The Nazi War on Cancer" (Princeton University Press - 1999). Ganhou o prêmio Viseltear, 1999. Traduzido para o italiano, turco, polonês, japonês, alemão e francês.