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17 de março de 1999

Terremoto econômico no Equador consolida um novo ciclo sul-americano, o da incerteza


 
A crise financeira só bateu no Brasil depois de derrubar uma série de economias ao redor do planeta. Já se sabe onde a bola do desastre foi ricochetear após nocautear nossa moeda: no Equador. Conhecido pelas excentricidades geográficas de produzir os chapéus Panamá e de ser um dos dois únicos países sul-americanos sem fronteira com o Brasil, o Equador tornou-se o primeiro a vergar sob o terremoto da desvalorização do real. Uma parte da crise foi idêntica: moeda sangrada, especuladores assanhados, troca de comando no Banco Central. Outra teve desdobramentos mais graves (e, espera-se, isolados). Na semana passada, os bancos do país não abriram as portas, o governo decretou estado de emergência e pôs soldados nas ruas para reprimir manifestações iradas. Acuado pela crise, baixou um aumento geral de impostos sobre o consumo e, pior ainda, deu calote em metade dos depósitos em contas correntes e cadernetas de poupança.

Com 12 milhões de habitantes, uma economia equivalente a apenas 2,5% da brasileira e dois presidentes defenestrados num único ano (em 1997, um por "incapacidade mental", outro por corrupção mesmo), o Equador entrou em colapso, num mergulho vertiginoso que dificilmente se repetirá no Brasil. A semelhança do cenário de crise econômica dos dois países, no entanto, não pode ser desprezada: déficit público crônico, Congresso resistente a cortes orçamentários, fuga de capitais - e a decisão crucial de abandonar o controle fixo do valor da moeda para deixá-la flutuar ao sabor das forças do mercado. Com isso, o sucre, a moeda equatoriana, como o real, despencou. Junto com o sucre, foi por água abaixo a popularidade do presidente Jamil Mahuad, advogado com passagem por Harvard, no cargo há apenas sete meses.

A economia equatoriana depende basicamente da exportação de petróleo e banana, dois produtos prejudicados por circunstâncias mais ou menos sazonais - o primeiro pelos baixos preços no mercado global, o segundo pelas intempéries decorrentes do fenômeno El Niño. O Equador é um dos países mais pobres da América do Sul. Ironicamente, tornou-se agora um hermano de crise do mais rico, o Brasil. Ambos encabeçam a lista das nações sul-americanas que mais oferecem risco aos investidores estrangeiros na região, segundo o banco americano JP Morgan. No extremo oposto está o Chile, detentor há quase duas décadas do título de campeão sul-americano de estabilidade. Isso quer dizer que as coisas vão bem com o Chile? Não, infelizmente. A riqueza do país encolhe a olhos vistos e uma recessão parece inevitável. O principal trunfo chileno no mercado internacional, o cobre, perdeu compradores depois da crise na Ásia. "Cada país tem sua trajetória própria, mas, com a globalização, eles reagem às crises do mesmo modo", observa Gilberto Dupas, coordenador da área de assuntos internacionais do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. "O perigo atual é a decepção com o processo de internacionalização da economia."

Não é de hoje que os países da América do Sul passam por ciclos históricos semelhantes - afinal, com todas as suas especificidades, une-os a herança da colonização ibérica, as burocracias hipertrofiadas, as atrozes disparidades de renda, as economias que nunca conseguem arrancar para o grande salto à frente. A segunda metade do século começou com o choque de interesses das superpotências engalfinhadas na Guerra Fria. Governos populistas cederam lugar a ditaduras militares, instauradas com o apoio dos Estados Unidos em praticamente toda a região durante os anos 60 e 70. No período de redemocratização, caíram primeiro os regimes totalitários e depois o Estado todo-poderoso, intervencionista e centralizador. Entre uma fase e outra, predominaram inflações galopantes e tentativas de solucionar o problema com panacéias mirabolantes, como o Plano Cruzado brasileiro, e golpes de caneta. Privatizações, liberalização financeira e monetária, além das reformas de Estado, venceram os aumentos de preços e as fronteiras alfandegárias. Vieram junto possibilidades de poupança, expansões de crédito, importações acessíveis - e uma euforia excessiva, irracional até.

A fase pela qual a América do Sul passa agora, com praticamente todos os integrantes no mesmo barco, é de incerteza e pé no freio. Se o real tropeça, os investidores estrangeiros fogem assustados não apenas do Brasil, como seria lógico, mas também da vizinhança. No momento, os temores se multiplicam. A crise do Equador propagou primeiro a suspeita de que poderia estar a caminho a moratória da dívida externa, como a que levou a Rússia a se tornar um pária internacional no ano passado. A iniciativa do presidente Mahuad de convocar as Forças Armadas para evitar distúrbios sociais disparou boatos de um autogolpe ao estilo do deflagrado por Alberto Fujimori no Peru, em 1992: aquele em que um presidente civil e democraticamente eleito assume plenos poderes em aliança com os militares. A sedução do caudilhismo, feição latino-americana do populismo, espreita a cada surto de insatisfação ou desencanto.

Não por acaso, a Venezuela, um dos países mais estagnados do continente, elegeu presidente, em dezembro passado, um militar reformado com uma tentativa de golpe no currículo. Hugo Chávez chegou lá graças a um discurso autoritário mesclado a bravatas a respeito de auto-suficiência econômica. É verdade que outros políticos de vocação semelhante se afinaram com as tendências mundiais assim que chegaram ao poder, como o argentino Carlos Menem. A guinada ideológica de Menem já pertence aos livros de história. Mas, hoje, também a Argentina patina em crescimento zero e corre o risco de levar um tombo com os efeitos que a desvalorização da moeda brasileira pode causar em sua balança comercial. Há muito mais em jogo do que o comércio. Unidos à frente do Mercosul, Argentina e Brasil por enquanto só tiveram a ganhar em termos de peso político e poder de barganha internacional. Terminada a fase de lua-de-mel com a globalização, cabe agora aos envolvidos encontrar meios de preservar o casamento.