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Riqueza na Arena
 
 
 
 
Riqueza na Arena

18 de agosto de 1999

Começa nesta semana a Festa do Peão de Barretos, a vitrine da opulência do mundo rural

Peão montando touro bravo: consumo de 5 milhões de latas de cerveja e refrigerante

O programa prevê 500 cavalos e touros bravos montados por 135 peões brasileiros e estrangeiros num terreiro de terra seca e poeirenta. Na torcida, são esperadas 350.000 pessoas - na maioria jovens solteiros, com menos de 35 anos, vestindo botas de couro, chapéu de caubói e lenço no pescoço. Em torno da arena estão se instalando 280 empresas para vender cintos, selas para cavalo, tratores e automóveis. A isso somam-se 120 lanchonetes e restaurantes, necessários para alimentar toda essa gente.


 
Uma cidade do interior paulista, Barretos, com 110.000 habitantes, espera receber durante os dez dias de folia mais de 1 milhão de visitantes, lotando todos os hotéis, pousadas, campings, fazendas e quartos disponíveis em casas particulares. Estima-se em 200 milhões de reais - quantia equivalente à metade do orçamento anual da McLaren no circo da Fórmula 1 - a dinheirama movimentada pela Festa do Peão Boiadeiro de Barretos, a maior do país, que começa nesta sexta-feira. Durante esse período, o aeroporto local, normalmente modorrento com apenas 300 pousos e decolagens mensais, enlouquece com um movimento dez vezes maior. Estão previstos congestionamentos semelhantes aos que ocorrem em avenidas paulistanas num raio de 150 quilômetros em redor da cidade.

O que torna a festa especial é a euforia causada pelos 60 bilhões de reais que, neste ano de colheita gorda, estão sendo embolsados por agricultores e pecuaristas. Essa gente corada, responsável pela produção de cerca de um terço do PIB nacional, aproveita a ocasião para desfilar sua riqueza no recinto, como é chamada a área em que acontece a Festa do Peão. Barretos é o local onde melhor se sente o tremendo vigor da moda country, a tendência de comportamento e gosto musical que se infiltrou até nas grandes cidades brasileiras. O que acontece na cidade é um grande festival rural, um rodeio que só perde em riqueza e colorido para festas famosas na cidade texana de Houston, nos Estados Unidos. A versão nacional tem um quê de festa junina - mas com requinte moderno. É o caso do correio elegante, a brincadeira comum nas quermesses escolares. A Telesp Celular instalou um salão com paredes de vidro e fornecerá aparelhos telefônicos para quem quiser mandar mensagens anônimas. É a paquera tradicional, mas adaptada a uma festa rural que nada tem de ingênua ou primitiva.

Animais furiosos

A paixão pelos rodeios é um fenômeno recente no Brasil, mas se espalhou enormemente. Todos os anos são montadas 2.000 festas de peão boiadeiro no país, inclusive em cidades onde cavalo é raridade e não há um único criador de gado. Existem 220 tropeiros especializados em criar touros e cavalos especialmente para ser usados nesses eventos. Não é uma criação como qualquer outra. Animais indóceis a ponto de espumar e babar de raiva, pulando como loucos quando alguém sobe em seu lombo, são difíceis de encontrar. Para se ter uma idéia da dificuldade, apenas 3% dos touros de um rebanho podem ser usados em provas de rodeio. Um touro arisco custa até 50.000 reais. Um cavalo xucro, que não aceita doma e, portanto, não serve para montaria nem para trabalho de fazenda, vale até 20.000 reais. Atualmente há 3.000 desses cavalos participando de rodeios.

Uma elite de peões profissionais, gente treinada para se manter na sela por pelo menos oito segundos, percorre o circuito brasileiro de rodeios. São em geral trabalhadores rurais, acostumados com a doma de cavalos desde a infância, que resolveram arriscar a sorte no picadeiro. Esse tipo de vida envolve riscos óbvios. Todos eles colecionam cicatrizes e ossos quebrados - e nem todos são recompensados com bons prêmios. O que torna a profissão atraente é a certeza de que os habilidosos podem fazer rapidamente um pé-de-meia. Peões que nem sequer completaram o curso primário se tornam donos de fazendas e de carros de luxo. Um astro na montaria de touro, Adriano Moraes é protagonista de uma dessas histórias de sucesso. Aos 29 anos de idade, já foi campeão em vários rodeios nacionais e em dois torneios americanos. Os cinco anos de trabalho duro nas costas de animais corcoveantes permitiram-lhe acumular uma fortuna de 1,5 milhão de dólares. Nesta semana, ele é uma das atrações do rodeio de Barretos.

Capital country

Barretos é a vitrine da opulência da agropecuária, setor econômico que está conquistando ainda maior importância. Colheu-se neste ano uma safra recorde de 83 milhões de toneladas de grãos. O Brasil já é o quinto maior produtor de leite do mundo. A pecuária de corte rende 13 bilhões de reais ao ano - mais do que a soja (8 bilhões de reais) e o café (5 bilhões de reais), dois tradicionais produtos da pauta de exportações. O país tem 158 milhões de cabeças de gado, um rebanho maior que o dos Estados Unidos (102 milhões) e três vezes mais numeroso que a Argentina. Apesar da importância de suas exportações de carne, o país vizinho conta com apenas 53 milhões de cabeças. Os números do rebanho eqüino são igualmente impressionantes. Com 6 milhões de animais, o Brasil empata com os Estados Unidos em número de cavalos e dispõe do dobro do plantel argentino. Somente os negócios com cavalos de raça movimentam 1 bilhão de dólares por ano. Ainda se está longe da escala americana. A economia do cavalo, que inclui desde a fabricação de chicotes até as apostas em jóqueis, é a oitava maior indústria americana. Mas o aumento considerável nas vendas de animais aos Estados Unidos e à Argentina comprova o aprimoramento da criação nacional.

Em Barretos não há venda de animais. O que ocorre ali é uma festa que ajuda a disseminar a cultura country e a promover os negócios rurais. É difícil participar de uma dessas festas e deixar de comprar um chapéu ou cinto de vaqueiro. "O rodeio é uma manifestação cultural em torno da vida rural, que é a raiz da maioria da população brasileira", diz André Pessoa, consultor paulista especialista em agricultura. Localizada na região norte do Estado de São Paulo, Barretos é conhecida como a capital da pecuária brasileira desde 1913, quando se instalou ali o primeiro frigorífico da América Latina. Com clima quente e terra preta, boa para a agricultura, a cidade vive da pecuária e da plantação de soja, laranja e cana-de-açúcar. É um lugar próspero empenhado em se firmar como a capital country do Brasil. O que a cidade espera conseguir com o título são investimentos que fiquem por ali além dos dez dias de festa.

Fazendeiros da última geração

O que está fazendo crescer a agropecuária brasileira é uma injeção de novidades. A primeira é a incorporação de tecnologia de última geração nas fazendas. São coisas como as colheitadeiras e os tratores computadorizados, que ajudam a escolher onde e quando plantar e colher para obter melhores resultados. Ou os computadores e helicópteros, que monitoram os rebanhos no pasto. O resultado é que a produtividade na agricultura cresce de 20% a 30% ao ano, bem além da indústria, cujo aumento médio é de 6%. A segunda é a nova geração de fazendeiros. Muitos são de famílias tradicionais, mas estudaram na cidade e voltaram para o campo com diploma de veterinária, agropecuária e zootecnia. São produtores com uma visão mais moderna da atividade rural, ligados nas novidades técnicas internacionais e empenhados em ganhar dinheiro.

Os resultados dessa renovação são facilmente perceptíveis. Existe atualmente uma grande preocupação com a saúde do rebanho. Ao contrário do que ocorria no passado, o criador atual está convencido de que deixar de vacinar o gado contra a febre aftosa é mau negócio, pois impede a exportação da carne. Outro mercado em expansão é o de inseminação artificial, que melhora o potencial genético dos animais. Pastagens tratadas com cuidados antes só dedicados à lavoura, medicamentos e técnicas especiais de engorda estão reduzindo a idade de abate da criação. Há uma década, um boi só atingia peso para abate aos 3 ou 4 anos. Hoje, há criadores que conseguem produzir animais para abate em apenas 24 meses. Os criadores de cavalo seguem a mesma trilha, aprimorando a qualidade de seus animais. Ainda há muitos pangarés e bois caipiras pelo país afora. Mas quem quer ganhar dinheiro no campo prefere outro tipo de animal.

Arena projetada por Oscar Niemeyer