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Milagre na Floresta

01 de dezembro de 1999

O Amapá faz acordos com a França, cresce e transforma-se no maior pólo de migração do país

Macapá, à beira do Rio Amazonas: a capital, com 300.000 habitantes, parece um canteiro de obras


 
O paraense Agostinho Ramos chegou ao Porto de Santana, no Amapá, trazendo tudo o que tem na vida: mulher, filho, cama e quatro caixotes de roupa. Foram 23 horas de barco de Belém, no Pará, até a foz do Rio Amazonas, no Porto de Santana, Amapá. No bolso, Agostinho trouxe 100 reais e um pequeno pedaço de papel. O dinheiro é para garantir o sustento da família nas primeiras semanas. No papel amarfanhado tinha anotado o telefone de um hotel, de onde ele deve tirar o sustento nos próximos anos. Vai trabalhar como recepcionista e ganhar dois salários mínimos por mês. Não é o único atraído pelo Amapá, um Estado sobre o qual a maior parte dos brasileiros não tem nenhuma idéia. Quando o ano terminar, 25 000 pessoas terão desembarcado no Porto de Santana com o mesmo objetivo: começar uma nova vida. Hoje, o Amapá é o Estado que mais cresce em concentração demográfica no país. A população vem aumentando em média 5,3% ao ano, quase o dobro de Roraima, o segundo colocado. E não é porque estão nascendo milhares de pequenos amapaenses. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, credita o inchaço populacional à chegada de imigrantes vindos do Pará e do Nordeste, principalmente do Maranhão. "Nós nos transformamos num eldorado", diz Maria Garcia, diretora da Agência de Desenvolvimento do Amapá.

Até pouco tempo atrás, o brasileiro de fora sabia duas coisas sobre o Amapá. Primeiro, é lá que fica o Rio Oiapoque. Segundo, é o Estado que deu abrigo eleitoral ao ex-presidente José Sarney. Mas nos últimos tempos o Estado, com apenas doze anos de existência, vem se destacando por indicadores socioeconômicos. O produto interno bruto de 1999 será 7% maior em relação ao do ano passado. O emprego na indústria local cresceu 33% neste ano, enquanto no restante do país caiu 23%. Com esse avanço, o serviço público deixou de ser o maior empregador. Hoje, a iniciativa privada já responde por quase 70% dos postos de trabalho na região. A taxa de mortalidade infantil é a segunda mais baixa do Brasil, com 23 mortes para cada 1 000 nascidos vivos. Só perde para o Rio Grande do Sul. A violência caiu pela metade desde que a polícia passou a implementar um programa no qual os policiais têm aulas de cidadania, teatro e tai chi chuan. No mês passado esse projeto recebeu um prêmio da Fundação Getúlio Vargas como um dos melhores sistemas de treinamento em gestão pública do país. A capital Macapá parece um canteiro de obras. Existem bairros inteiros surgindo do nada e um comércio crescente. Neste ano, mais 1.000 firmas foram criadas no Estado.

Eldorado amazônico

A população do Amapá aumenta 5,3% todos os anos. É o principal foco de migração no Brasil O PIB estadual cresce ao ritmo de 7% ao ano De janeiro a outubro deste ano foram abertas 1 000 firmas no Estado O nível de emprego na indústria local cresceu 33,6% em 1999. No restante do país, esse índice caiu 23,4% O consumo de energia elétrica aumentou quase 50% nos últimos quatro anos Até 1995 só havia um vôo diário ligando Macapá ao resto do Brasil. Hoje são treze Ainda há muito que fazer no Amapá. O Estado não é um paraíso amazônico, onde todos os problemas sociais estão resolvidos. A economia ainda é fraca: está quase toda centrada no extrativismo. A maior parte da receita, quase 75%, vem do governo federal. Muitas ruas são de terra, há poucos prédios e achar um teatro em Macapá é tão improvável quanto tirar um tucunaré do Rio Pinheiros, em São Paulo. Essas deficiências, porém, são compensadas por uma lista de vantagens. O Amapá é o único Estado da federação brasileira que não tem dívida interna. Os gastos com funcionários públicos inativos são irrisórios porque não há mais do que 32 deles aposentados. Sem grandes entraves na despesa, o governo do Amapá vem investindo em projetos sociais e de desenvolvimento. Além disso, descobriu um parceiro bastante generoso para financiar novos projetos: a França. Hoje, o Amapá recebe 5 milhões de dólares por ano de instituições francesas. No ano que vem serão 25 milhões. Na semana passada, o governador João Capiberibe, do PSB, esteve em Paris para finalizar os acordos.

Francês obrigatório

A amizade com a França parece esdrúxula, mas tem uma explicação geográfica. O Amapá está localizado no Planalto das Guianas, uma região que engloba Guiana Francesa, Suriname e Guiana. Para chegar lá, de qualquer ponto do território nacional, é necessário ir de avião ou barco. Não existe estrada. Percebendo a proximidade com a Guiana Francesa, o governo do Amapá resolveu abrir as portas para o vizinho há quatro anos. Asfaltou uma estrada de terra até Saint George, do lado de lá da fronteira, e instituiu o francês como língua obrigatória na rede pública escolar. Há um centro de cultura francesa, mantido por uma organização não governamental, que ensina francês para 1.800 pessoas, na maioria adultos. Ao todo, são quinze acordos assinados de cooperação com os franceses.

A proximidade vem trazendo dividendos também ao turismo. Hoje, Macapá recebe grupos de guianenses que atravessam a fronteira para conhecer o Amazonas e comprar bugigangas eletrônicas na zona franca local. De 1994 para cá, o número de quartos de hotel passou de 400 para 800. Em 1995 só existia um vôo diário no Amapá. Hoje são treze, sendo um diário para Caiena, capital da Guiana Francesa. Na semana passada, o empresário Odilon Francisco Filho, 42 anos, pegou um desses vôos com destino a Caiena. De lá ele iria embarcar para Paris. Vai conhecer alguns empreendimentos comerciais para implantá-los em Macapá. Odilon é dono de três supermercados, o maior deles com 4.000 metros quadrados de área, uma choperia para 200 pessoas e uma fábrica de sorvete. No total, emprega 320 funcionários. Assim como Agostinho Ramos, Odilon chegou para tentar a sorte no Amapá. Depois de cinco anos, fatura 1,5 milhão de reais por mês e tem um patrimônio de 10 milhões. Para ele, o eldorado amazônico existe.