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28 de junho de 2000

Portugueses entram no setor de shoppings com construção gigantesca no interior de São Paulo

O shopping Vasco da Gama, em Lisboa: cheiro de mar com deque para o Rio Tejo

O Brasil tem 198 shopping centers em funcionamento e outros dezesseis em construção, a maioria nas capitais dos Estados. O número dos shoppings mais do que dobrou nos últimos dez anos. O Brasil, portanto, está saturado desses pontos-de-venda. Correto? Errado. Uma pesquisa recente mostrou que o setor vai crescer - e muito - nos próximos anos.


 
Comparado com o dos Estados Unidos e o da Europa, o consumo em shoppings no Brasil é ainda incipiente. Os americanos fazem mais da metade de suas compras no varejo em shoppings. Os europeus, 40%. Já os brasileiros, apenas 18%. "Os shoppings estão apenas começando a se espalhar pelo interior do Brasil", diz Paulo Stewart, presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers.

Entre os projetos interioranos há um especial. A construção já começou em Campinas, cerca de 100 quilômetros distante da capital paulista. O Parque Dom Pedro Shopping é notável por várias razões. A primeira delas é o fato de ele ser gigantesco. Sua área destinada a lojas é 30% maior do que a do maior shopping em funcionamento hoje no Brasil, o Shopping Center Recife, na capital pernambucana (veja quadro ao lado). Ele será tão grande que a rede de magazines C&A decidiu montar duas lojas iguais, com as mesmas mercadorias, uma em cada ponta do prédio. O objetivo é não perder fregueses que não se disponham a percorrer os 700 metros que separam uma loja da outra. Também pensando nas pessoas que não têm tempo ou disposição, ou os dois, para andar por mais de 2 quilômetros de corredores atrás de um produto, o shopping será dividido em setores: moda, esporte e cultura, coisas para casa, serviços e entretenimento.

Jardim de lojas

Agora, vamos lá. Imagine entrar num shopping center em que a trilha sonora seja o som do vento, o canto de passarinhos, o barulho de água escorrendo. Trepadeiras sobem pelas colunas e árvores brotam do chão, sem vasos. Fora, mais árvores, um jardim sempre florido, pedras e pequenos morros gramados. É assim que será o novo shopping: um parque entremeado com lojas. Esse é o estilo dos construtores, os portugueses do grupo Sonae, que já têm redes de supermercados e fábrica de aglomerados de madeira no Brasil. A terceira especialidade do grupo é a construção e administração de shopping centers. Eles estão entre os maiores do ramo na Europa. O grupo investirá 400 milhões de dólares nessa área, no Brasil. Só no Parque Dom Pedro serão 100 milhões. "O tamanho e a ambição do novo shopping dão uma boa idéia de nossas intenções", afirma o presidente da Sonae Imobiliária, Álvaro Portela. No mundo dos supermercados, os portugueses já mostraram qual é o seu jogo. Cresceram tão rápido, comprando concorrentes, que hoje ocupam a terceira posição no ranking brasileiro dos supermercados. O objetivo dos portugueses é, dentro de três ou quatro anos, transformar a Sonae Imobiliária na maior empreendedora de shopping centers do país.

Um passeio por outro empreendimento do Sonae pode ser útil para dar uma mostra do que aguarda os consumidores. A empresa se caracteriza por fazer shoppings com arquitetura diferenciada, ambientação e decoração temáticas. O mais famoso deles, o Vasco da Gama, em Lisboa, lembra um navio e tem até um deque de madeira com espreguiçadeiras que dá vista para o Rio Tejo. Os elevadores têm escotilhas, o piso é desenhado com cartas náuticas e sobre o telhado de vidro escorre água constantemente. Nas paredes, um dispositivo libera odor de maresia e os alto-falantes emitem sons de ondas. A praça de alimentação do centro comercial de outro shopping, o Via Catarina, incrustado no centro antigo da cidade do Porto, tem cenário de casario do século XV.

Desde a década de 60, quando foi inaugurado em São Paulo o primeiro shopping center do país, o Iguatemi, esses grandes centros de compra cresceram e ampliaram suas áreas de lazer. Poucos, porém, criaram decorações internas originais. Vistos de fora, então, parecem sempre caixotes horrorosos. E mesmo assim, com pouca bossa, eles atraem um público enorme, seduzido pela possibilidade de ir às compras e se divertir num ambiente restrito, com segurança e algum conforto. O que os portugueses querem é ser lembrados como o grupo que ajudou a mudar a arquitetura de shoppings no Brasil

Shopping Iguatemi, em São Paulo, o pioneiro: ainda tem lugar para muitos outros
Foto aérea do canteiro de obras do Parque Dom Pedro Shopping, em Campinas