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Chinelos
 
 
 
 
Chinelos

O Rider e as Havaianas batem recordes e disputam a fama do produto mais popular do Brasil

Olhe para seus pés. Pense que você precisa de um chinelo para regar o jardim, ir à praia ou simplesmente ficar em casa mais à vontade. Pense ainda que você é apenas um dos 160 milhões de brasileiros que andam por aí o ano inteiro, e que a imensa maioria deles tem no chinelo isso mesmo o seu único calçado. Pense, por fim, que o fenômeno El Niño tem deixado o clima perfeito para andar mais à vontade neste verão. Não é preciso mais para entender por que ele está esquentando até à última fervura um negócio de mais de meio bilhão de reais, e uma disputa entre duas empresas brasileiras que fazem um produto quase tão popular quanto a Pepsi e a Coca-Cola. Juntas, a Grendene, fabricante dos chinelos Rider, e a Alpargatas, que produz as sandálias Havaianas, venderam no ano passado 163 milhões de pares de chinelos. Dá uma média de um par de chinelos para cada brasileiro. É quase duas vezes mais do que ambas as companhias vendiam há apenas cinco anos um recorde absoluto. Em quantidade, a Alpargatas está na frente. No ano passado, as vendas de Havaianas bateram nos 100 milhões de pares, enquanto foram vendidos 63 milhões de Rider. Mas o negócio da Grendene rende muito mais. Com a venda de seus chinelos, faturou no ano passado 420 milhões de reais, enquanto a Alpargatas com as Havaianas ficou em 140 milhões de reais, 25% de seu faturamento total. Do ponto de vista do consumidor, a briga é equilibrada. Uma pesquisa da InterScience nas principais capitais do país e no interior de São Paulo mostrou que 45% dos brasileiros declaram possuir em casa pelo menos um par de Havaianas. Outras 44% têm Rider. Diferença, portanto, de um reles ponto porcentual.


 
Tanto Alpargatas quanto Grendene declaram que não concorrem uma com a outra. Afinal, o produto é diferente. O Rider é um calçado de PVC expandido um plástico macio e flexível. As Havaianas são aquelas célebres da borracha que não tem cheiro e das tiras que não soltam jamais. O Rider é mais caro seu preço vai de 5 a 30 reais, de acordo com o modelo e as Havaianas não passam de 6 reais. Cada uma das empresas, contudo, reivindica para si o posto de fabricante do produto brasileiro mais popular do país. "As Havaianas são a sandália democrática", diz o presidente da Alpargatas, Fernando Tigre, apontando para o fato de que seu artigo é um dos poucos a vender bem em todas as classes sociais. "Quem compra Rider é porque quer algo melhor, mais confortável e apresentável para andar na rua" , afirma Alexandre Grendene, o fundador e principal acionista da Grendene, que dirige secundado pelo seu irmão gêmeo, Pedro. É verdade, no entanto, que cada um deles gostaria de ficar com o naco de mercado do outro. Para concorrer mais diretamente com as Havaianas, a Grendene lançou nos Estados do Nordeste a Ginga, uma sandália de PVC com uma tira entre os dedos semelhante também em preço à sandália rival. A Alpargatas por sua vez tem tentado agregar mais valor ao seu produto para, como a Grendene, faturar mais alto. Além das Havaianas clássicas, um produto criado há 35 anos, lançou em 1994 as Havaianas Top uma versão em formato levemente diferente da anterior, com cores mais alegres, e que custa um pouco mais caro. Neste mês está lançando também novas versões das Havaianas a floral e a "camuflada" (com aquelas manchas de uniforme militar).

Palmo a palmo

A rivalidade entre os dois produtos aflora nas praias, onde se discute qual a sandália da moda (neste verão é a nova Havaiana cor da pele). Aparece também historicamente nas campanhas publicitárias através das quais as duas empresas procuram capitalizar a identidade de seu produto com o povo brasileiro. A Alpargatas sempre ancorou sua propaganda em personagens famosos, como Chico Anysio, Vera Fischer e Thereza Collor, flagrados com o produto no pé. Quando foi lançado, em meados da década de 80, o Rider também firmou-se com base no testemunho de personalidades como Nelson Piquet. Depois, passou para a idéia de clipes com a regravação de clássicos da MPB por intérpretes atuais. Foi um sucesso. A cada campanha, as músicas passaram a ser programação obrigatória nas rádios e tornaram-se um impulso de vendas dos CDs dos próprios artistas. A Grendene investe alto em publicidade. Enquanto a Alpargatas gastará neste ano 15 milhões de reais em publicidade das Havaianas, a campanha do Rider, que inclui o pacote publicitário na Rede Globo durante a Copa do Mundo, sairá por 42 milhões.

Como artigos de massa, Havaianas e Rider já se revezaram no papel de bregas. "O Rider para mim é um Opalão incrementado", diz o publicitário Marcelo Serpa, da Almap-BBDO, responsável pela campanha do concorrente. "O Rider está acima do brega. A marca já é pop", diz Washington Olivetto, da W/Brasil, que atende a Grendene. Por via das dúvidas, para vencer qualquer preconceito, Alpargatas e Grendene investem na transformação dos chinelos em objetos cult. As Havaianas já apareceram no ano passado em um desfile da estilista Vivienne Westwood. A Grendene encomendou versões do seu Rider aos estilistas Alexandre Herchcovitch e Reinaldo Lourenço. A disputa não se limita à propaganda. Desde que compraram a indústria de calçados paulista Vulcabrás, os irmãos Grendene passaram a concorrer com a Alpargatas palmo a palmo em outros calçados. A Alpargatas tem os sapatos Terra, os Grendene ficaram com o 752. A Alpargatas importa os tênis de alta tecnologia Mizuno e faz os da Topper e da Rainha. Os Grendene têm Adidas e Reebok.

Além da oposição produto a produto, a batalha entre a Alpargatas e os Grendene coloca em lados opostos dois estilos empresariais. A Grendene é uma jovem empresa familiar em fase de contínuo crescimento. Seus executivos nunca usam terno e gravata. Alexandre Grendene aboliu a diretoria, e despacha diretamente com os gerentes, encarregados da maior parte das tarefas do dia-a-dia. A Alpargatas é uma empresa tradicional, administrada por profissionais indicados pelos maiores acionistas, entre eles o Bradesco e a Camargo Corrêa. Passou por uma crise, superada com a saída de sua antiga diretoria e a instauração há onze meses de uma nova administração. Quando os Grendene começaram, com uma fabriqueta na cidade de Farroupilha, no Rio Grande do Sul, a Alpargatas era um gigante que chegou a faturar 1 bilhão de dólares ao ano. Hoje, entre a Grendene e a Vulcabrás, os dois irmãos gaúchos têm um faturamento de 800 milhões de reais ao ano, enquanto a Alpargatas caiu a cerca de 550 milhões. Perdeu uma de suas principais marcas, a Nike, mas ainda detém outras solidamente plantadas no mercado, não só em calçados como em griffes (Ralph Lauren, Timberland, Arrow) e lonas (Locomotiva). Fernando Tigre, um executivo que só anda de gravata, experimentado em empresas como a Alcoa e o Jari, fez no ano passado uma limpeza financeira e no quadro de funcionários da companhia. Conseguiu fazê-la voltar aos lucros pela primeira vez no último trimestre, depois de uma longa estiagem. "A Grendene cresceu muito, fez um grande trabalho, mas nós também estamos preparados para voltar a decolar", diz ele. Como se vê, a guerra dos chinelos está apenas começando.