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O Brasil que Agüenta o Tranco
 
 
 
 
O Brasil que Agüenta o Tranco

19 de maio de 1999

A civilização criada longe dos grandes centros é rica e orgulhosa de seus valores

Na quinta-feira passada o governo divulgou os dados mais recentes sobre o comportamento da economia brasileira. O que se viu foi uma impressionante demonstração de força do interior. A agropecuária, entre todas as atividades produtivas do país,foi a única que agüentou o tranco na crise. Cresceu 17,8% no primeiro trimestre deste ano,em comparação com o último trimestre de 1998. Na soma geral, graças ao desempenho do campo, o PIB brasileiro cresceu 1%, afastando as sombras de uma recessão que se anunciava bruta para este ano.


 
"Para quem conhece o dinamismo do setor rural brasileiro não foi surpresa", diz o cientista político carioca Sérgio Abranches. "Há décadas o interior vem se transformando na locomotiva da sociedade brasileira."

Durante muitos anos, brasileiros das grandes capitais olharam para os moradores do interior de cima para baixo. Afinal, no fundo, no fundo, o habitante da metrópole sempre achou que lá no interior, longe do litoral, vive uma gente provinciana que gosta de músicas cafonas e fala dobrando os erres e comendo os esses. Os próprios moradores do interior mantinham uma atitude de inferioridade diante do que se pensava sobre suas roupas, seus hábitos e sotaques nos centros urbanos. Muita gente ainda se lembra dos filmes de Mazzaropi - uma espécie de Carlitos rural que teve grandes bilheterias nos anos 50 e 60 -, em que o homem interiorano era retratado como um jeca-tatu que só se salvava pelo humanismo e pela esperteza em assuntos pequenos. Pois bem: se alguém ainda conserva essa visão pejorativa da cidade do interior, precisa arquivá-la imediatamente. A situação mudou. Em alguns casos, inverteu-se.

O crescimento econômico de vários pólos espalhados pelo interior do Brasil nas últimas duas décadas transformou seus habitantes em personagens que exigem nova avaliação. O coração econômico do Brasil hoje pulsa mais forte em capitais regionais, distantes das metrópoles e seus problemas crônicos. São cidades como a paranaense Maringá, em cuja volta gravitam 110 pequenos municípios com uma população total de 2 milhões de habitantes. Ribeirão Preto, no interior paulista, tornou-se um poderoso magneto de riquezas sustentando uma economia regional de oitenta cidades. Como esses dois, existem dezenas de outros pólos regionais. Nesses centros beneficiados pelo processo de enriquecimento, o brasileiro trocou a carroça pelas caminhonetes luxuosas, substituiu o chapéu de palha pelo de couro de castor e deixou de lado a calça de algodão surrado para vestir jeans importados. Hoje são eles que esnobam os urbanóides desempregados, que vivem espremidos em congestionamentos e se divertem ouvindo o quê? Música sertaneja! "Viver em cidade grande é fora da realidade", diz Adriana, 20 anos, filha do megapecuarista Henrique Prata, dono de 20.000 cabeças de gado e cavalos de raça espalhados por quatro fazendas em Rondônia, Mato Grosso, e nas cidades de Presidente Epitácio e Barretos, interior de São Paulo.

Como ocorre em qualquer sociedade em todos os períodos da História, o prestígio acompanha a riqueza. A revalorização da cultura interiorana obedece a essa lei. O estilo sertanejo passou a aparecer com realce no Brasil atual porque em sua origem está correndo dinheiro grosso. Muito mais que nas capitais brasileiras, observe-se. Melhor ainda para quem vive nessas cidades: o dinheiro gerado nas fazendas está sendo gasto em grande parte ali mesmo. Fora o que se paga de impostos, 8 de cada 10 reais produzidos pela economia da região ficam por ali. Em Ribeirão Preto, o cálculo é de que 1,3 bilhão de reais extras serão injetados na economia local até o fim do ano. No passado, quando essas cidades não tinham shopping centers, restaurantes ou cinemas de qualidade, esse dinheiro era rapidamente canalizado para o comércio das capitais. As economias regionais agora são auto-alimentadas. "As cidades nutrem-se da economia rural que se desenvolve a sua volta. O agricultor gasta na sua cidade o que ganha nas redondezas", diz Vicente Golfeto, do Instituto de Economia Maurilo Biagi, de Ribeirão Preto.

O fenômeno do enriquecimento do interior no Brasil tem desdobramentos visíveis. Um deles é a aceitação dos símbolos da vida na fazenda pelos moradores das cidades, especialmente os jovens. Não são apenas as roupas dos peões que foram diluídas em versões chiques e hoje aparecem nas festas e nos bares vestindo a rapaziada dos centros desenvolvidos. O rodeio, importado do interior dos Estados Unidos, transformou-se no Brasil num evento que pode ser equiparado ao futebol e às corridas de Fórmula 1 pelos valores que movimenta e pela sensação que provoca nas torcidas. Tornou-se um negócio bilionário. Sem os anéis de riqueza produzidos pela agropecuária em torno das cidades, o rodeio provavelmente nunca teria passado de um evento circense, tendendo a se esgotar em sua regionalidade.

Os agricultores e pecuaristas vão embolsar neste ano uma renda de quase 60 bilhões de reais. Nunca ganharam tanto. Nas duas últimas décadas, a renda dessa gente triplicou. A economia regional gira hoje nas cidades do interior mais de 280 bilhões de dólares. É um terço do PIB brasileiro. "Nenhum outro setor da economia movimenta tanto dinheiro quanto o nosso", diz Antonio Herminio Pinazza, diretor executivo da Associação Brasileira de Agribusiness, que representa os negócios montados em torno da produção rural. Nesse particular, o Brasil está acertando o passo com o mundo atual. O agribusiness já é responsável por quase um quarto do PIB mundial.

Boa parte dessa riqueza está encravada num polígono que pode ter seus limites riscados sobre uma região bem definida. Ela vai do Paraná ao sul da Bahia, passa por Minas Gerais, interior de São Paulo e se estende para oeste até Goiás, Mato Grosso e seu vizinho homônimo do sul. Ali pulsa uma espécie de coração rural do Brasil. Todas as duplas sertanejas que fazem sucesso nas capitais nasceram lá. Essa região tem uma unidade cultural muito definida. Por isso se excluem dessa classificação o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e os Estados do Nordeste. Afinal, há mais diferenças entre um gaúcho e um catarinense do que entre um paulista do interior e um ruralista goiano. Fala-se aqui de um país diferenciado dentro das fronteiras brasileiras. Se fosse efetivamente um país, essa pátria interior bafejada pela riqueza seria uma nação de força econômica respeitável. Tirando dela o sinal negativo representado hoje por metrópoles com problemas de favela, educação, saúde, engarrafamento e desemprego, esse país interiorano teria renda per capita parecida com a da Bélgica, a taxa de alfabetização da França e índices de violência similares aos de Portugal.

Os órgãos especializados em medir o pulso da economia do país e em detectar as grandes transformações populacionais estão produzindo estatísticas impressionantes. Parece que o Brasil está dando as costas ao litoral e mergulhando em suas raízes mais fundas. Uma pesquisa da Fundação Seade de São Paulo mostrou que a renda das pessoas que moram no interior do Estado cresceu 24% entre 1994 e 1998, descontada a inflação. Isso num período em que a renda urbana brasileira ficou quase estacionada. A população e o grau de escolaridade das cidades cuja economia gira em torno da agropecuária também crescem. O mais significativo de tudo é que não se está registrando aquele inchaço típico das metrópoles fora de controle, como São Paulo e Rio de Janeiro.

O interior está atraindo basicamente gente de alta qualificação profissional. As empresas no interior paulista pagam salários melhores e estão criando um movimento de profissionais bem treinados para a região. É um reflexo fiel da metamorfose regional. O trabalhador que migra para as cidades do interior é tipicamente um técnico qualificado, que encontra salários compatíveis nas cidades que vivem em torno da agropecuária. Ali eles encontram também faculdades de qualidade para aprimorar suas habilidades. Só em Uberaba e Uberlândia foram instalados nos últimos anos pelo menos dez laboratórios avançados de estudos sobre genética do gado e produtividade de sementes. Maringá tem duas universidades e três faculdades com 77 cursos de pós-graduação (veja reportagem).

O resultado disso é a migração também da renda nacional para o interior. O instituto Alpha Assessoria e Pesquisa faz todos os anos um levantamento sobre a capacidade de consumo dos municípios brasileiros. Ele mede o poder de compra dessas cidades de acordo com o nível de renda da população e a posse de determinados bens e serviços, como televisão, geladeira, energia elétrica e linhas de telefone. Historicamente, esse índice sempre foi mais alto nas grandes capitais brasileiras. Isso está mudando rapidamente. Nos últimos dezessete anos a cidade de São Paulo perdeu um quarto de sua capacidade de compra. O Rio perdeu quase a metade. Nesse mesmo período, Uberlândia elevou em 21% seu potencial. Rondonópolis, em Mato Grosso, teve um crescimento de 38% em apenas doze anos e Barretos, no interior de São Paulo, saiu do nada para figurar entre os 100 maiores mercados do país na última pesquisa, publicada no ano passado.

"A prosperidade nessas cidades cresce solidamente de ano a ano", diz o sociólogo Gérson Damesi, do instituto Alpha. O poder também. Não é por acaso que a Expozebu, a tradicional feira de gado de raça de Uberaba, em quase sete décadas de existência foi visitada por mais presidentes da República do que o Salão do Automóvel, de São Paulo. A Expo deste ano recebeu a visita do senador Antonio Carlos Magalhães, amigo de um dos maiores criadores do Brasil, Jonas Barcelos, que é também dono de free shops de diversos aeroportos do país. Descontraído no ambiente que domina, Barcelos recebeu ACM ao lado do empresário Beto Carrero, bebericando champagne Moët & Chandon de canudinho direto da garrafa. Nas eleições do ano passado, Barcelos doou 500.000 reais a diversos candidatos. O boi já tem seu curral eleitoral.

O caubói brasileiro não está copiando apenas a roupa, a bota e o chapéu do Primeiro Mundo rural. Está imitando também o que ele tem de melhor em termos de tecnologia agrícola. A agricultura de precisão, aquela que conta com a ajuda até de satélite para melhorar a colheita, é um exemplo. Os agricultores conseguem produzir no interior de Minas Gerais e de Mato Grosso tanto quanto seus colegas americanos. Colhem até 180 sacas de milho por hectare, enquanto a média brasileira oscila entre 100 e 120 sacas dependendo da região. É incrível a revolução que a tecnologia está provocando nas áreas rurais do país. Graças à biotecnologia é possível desenvolver sementes resistentes a pragas e a inseticidas e plantas que se adaptam bem a solos pobres e clima seco.

Com inseminação artificial e transferência de embriões, técnicas da engenharia genética, pode-se produzir bois que rendem o dobro de carne e vacas que geram mais de quarenta bezerros num ano. O período de gestação de nove meses das vacas é multiplicado pelo artifício dos embriões congelados. O material genético de uma vaca campeã é transferido para dezenas de animais hospedeiros, menos nobres, que cumprem apenas o papel de ventres de aluguel. O fazendeiro Valdomiro Poliselli, de Mococa, interior de São Paulo, usa a técnica em suas fazendas. Um de seus animais, a vaca "Hampe", gerou vinte bezerros entre julho e agosto do ano passado. A supervaca, importada da França, teve 50% de seu passe vendido no ano passado por 98.000 reais.

São técnicas como essa que dobraram a produtividade do campo brasileiro nas duas últimas décadas. "Para que o Brasil se torne um dos maiores produtores mundiais não basta ocupar a área ociosa. É preciso empregar tecnologia", diz André Pessoa, um dos maiores especialistas agrícolas do país e sócio da Agriconsult, consultoria especializada em agricultura. O uso intensivo da tecnologia no campo começou com a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa, nos anos 70. Foi o trabalho dos pesquisadores da Embrapa que permitiu que o Brasil dobrasse sua produção de milho e triplicasse a de soja nas duas últimas décadas. Seus técnicos criaram também variedades de porco com mais carne e menos gordura. As sementes modificadas em laboratório são a chave para o crescimento da agricultura no Primeiro Mundo. O campo brasileiro já chegou lá.

Fotos da cidade de Presidente Epitácio