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Os Últimos Eunucos
 
 
 
 
Os Últimos Eunucos

01 de março de 2000

A casta dos castrados entra na política e vence sua primeira eleição na Índia

A Índia gosta de se exibir como a maior democracia do planeta. O título se deve à megaquantidade de eleitores e candidatos da segunda nação mais populosa do mundo. Nada se compara em excentricidade, contudo, à eleição de um único prefeito em Katni, uma cidade de menos de 200.000 habitantes, na região central do país, no mês passado.


 
Kamla Jaan, o novo prefeito, tem 50 anos e, como muitos indianos, não sabe ler; até bem pouco tempo vivia de esmolas. O que há de notável a respeito de Kamla Jaan é pertencer à casta dos hijra - um eunuco, em bom português. Existe na Índia um contingente de castrados que pode ser de até 1,2 milhão de homens. No passado, eles desempenhavam um papel socialmente bem-aceito no intricado sistema de castas do hinduísmo. Hoje, com as tradições viradas pelo avesso, vivem nas franjas da sociedade, muitas vezes ganhando o pão de cada dia com prostituição e mendicância. A eleição de um prefeito hijra é, por isso, um acontecimento histórico. Não apenas insere um novo componente na confusão política indiana como mostra que os hijras resolveram sair da toca e mostrar a cara.

Num país multifacetado - são mais de 3.000 castas e 25.000 subcastas, uma dezena de línguas regionais e um sem-número de etnias e religiões - só faltava mesmo a militância política dos eunucos. Kamla Jaan concorreu como candidato independente e bateu com folga os candidatos dos dois principais partidos indianos, o governista Bharatiya Janata e o Partido do Congresso, que esteve no poder por mais de quatro décadas. O que querem os eunucos é um pouco mais de respeitabilidade. No passado, eles tinham seu lugar no misticismo hinduísta e eram funcionários nos palácios dos marajás. A decadência começou com o domínio inglês, que fez o que pôde para eliminar a "degradante prática oriental" da castração. Os eunucos remanescentes nesta virada de milênio são uma espécie de novos párias na sociedade indiana. O governo e as elites fingem que eles não existem. Atribui-se a essa atitude a falta de estudos acadêmicos sobre os hijra e, até, a ausência de estatísticas confiáveis. Há quem, no governo, garanta que não passem de 50.000 - mas as estimativas acima de 1 milhão, feitas pelos próprios eunucos, estão mais próximas da realidade.

Eunucos existiram em muitas sociedades. Em alguns lugares, como o Império Otomano, a China e a Itália, os castrados existiram até os tempos modernos (veja quadro). Mas só na Índia eles chegaram ao terceiro milênio como um grupo social perfeitamente definido. O termo hijra tem um significado mais amplo hoje. Nem todos foram castrados. Uns poucos nasceram com anomalias nos órgãos genitais, alguns são hermafroditas e outros são simplesmente travestis ou transexuais. Mas a maioria foi transformada em eunuco ainda jovem, voluntariamente ou de maneira forçada, em dolorosos e grosseiros rituais. O pênis e os testículos são cortados a golpes de faca e os ferimentos cauterizados com uma barra de ferro em brasa. Com a produção de testosterona reduzida, desenvolvem algumas características femininas. Na tradição indiana, os hijras não são homens nem mulheres, mas algo intermediário. Na vida prática, a maioria adota roupas e nomes femininos.

Os eunucos vivem em grupos fechados, com uma hierarquia interna que repete o sistema de castas existente na sociedade indiana. Cada pequena comunidade é liderada por um guru, que tem sua área de atuação e subordinados claramente definidos. Nos últimos tempos, tem crescido o número de eunucos que vivem de pedir esmolas ou da prostituição, mas a maioria dos eunucos sobrevive pedindo dinheiro em casamentos ou festas pelo nascimento de uma criança. Uma extensa e bem montada rede de informantes os deixa a par das festividades. Eles invadem os locais, dançam e cantam com vozes esganiçadas e pedem contribuições para ir embora. Em caso de negativa, ameaçam mostrar suas partes mutiladas ou amaldiçoam os donos da casa. Quando atendidos, abençoam o novo casal ou o recém-nascido. A tradição diz que os eunucos têm poderes mágicos e poucos indianos ousam recusar seus pedidos. Como novos eunucos são recrutados é um dos mistérios indianos. Há boatos de bebês seqüestrados pelos hijras e histórias comprovadas de jovens homossexuais atraídos pela vida como travesti. "Os eunucos são temidos e rejeitados porque desestabilizam os papéis masculinos e femininos", disse a VEJA o historiador Shaun Tougher, da Universidade Cardiff, no País de Gales.

Numa sociedade estratificada como a indiana, os hijras ocupam a mais baixa camada. Com uma ainda incipiente participação na política, eles tentam mudar a situação. Em 1996, um hijra já havia concorrido ao Parlamento com o slogan "Para ser político você não precisa de testículos, precisa de cérebro". Ele perdeu a eleição, mas os castrados gostaram da idéia de ter sua própria representação política. Além de Kamla Jaan, outros três eunucos saíram vitoriosos em eleições recentes para conselhos municipais, e outros dois já estão em campanha para eleições estaduais. Um artigo irreverente publicado no mês passado num jornal da região de Katni sugeria aos partidos tradicionais que incorporassem alguns hijras aos seus quadros para não perder espaço. Uma hipótese mais radical seria a castração dos atuais governantes, mas a simples mudança de atitude em relação às minorias desprezadas talvez já seja suficiente para manter seus empregos.

O papel dos eunucos em diferentes momentos

China - Durante mais de 3 000 anos, os funcionários do palácio real foram eunucos, castrados na infância. Em certos períodos, tiveram mais poder que o próprio imperador. O último deles morreu em 1996, aos 94 anos.

Itália - Os castrati, cantores de ópera com os testículos removidos antes da puberdade para conservar o timbre agudo da voz, surgiram no século XVI, quando as mulheres foram banidas do palco. Foram proibidos pelo papa Leão XIII, em 1878.

Império Otomano - Os guardas do harém do sultão eram emasculados, costume que só desapareceu com o fim do império, no início do século XX. Eram, na maioria, escravos negros, originários do Sudão.