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18 de novembro de 1998

Revelações sobre a existência de quatro gays no ministério abalam governo Blair

Nick Brown: pressionado a "sair do armário"

Quando assumiu o governo inglês, encerrando um período de dezoito anos do Partido Conservador no poder, Tony Blair caprichou no simbolismo de suas decisões. Queria deixar claro que havia uma mudança em curso. A primeira expressão da modernidade trabalhista foi exatamente a escolha dos ministros. Dos 22 nomeados, a maioria era bastante jovem, na faixa de 30 a 50 anos. Entre eles, cinco mulheres, um cego e um gay assumido.


 
Um ano e meio depois, seu governo vive um período de turbulência por causa da discussão em torno do número real de homossexuais no ministério. A polêmica vem se arrastando nas últimas duas semanas e chegou ao auge na terça-feira passada, quando o mais popular dos tablóides ingleses, The Sun, saiu com uma manchete maldosa: "Diga-nos a verdade, Tony: estamos sendo governados por uma máfia gay?"

A essa altura, quatro ministros de Blair estavam envolvidos na confusão. O responsável pela Cultura, Chris Smith, passou imune. Ele havia assumido a homossexualidade em 1984, ainda deputado. Os outros três, contudo, viveram dias de pesadelo. Tudo começou com a inesperada renúncia de Ron Davies, ministro para o País de Gales, devido a uma "séria falta de discernimento". Ele havia aceitado o convite para jantar de um desconhecido durante um passeio noturno ("para relaxar") e acabou sem o carro, a carteira, o celular e os documentos, num assalto a mão armada. Dias depois, o colunista Matthew Parris, dos jornais The Times e (de novo) The Sun, este sim homossexual assumido, pôs lenha na fogueira ao afirmar num programa da BBC que o ministro da Indústria e Comércio, Peter Mandelson, braço direito de Blair, também era gay. O ministro telefonou para um chefão da BBC e a emissora estatal proibiu por escrito qualquer menção à vida pessoal de Mandelson. Foi o mesmo que tentar apagar incêndio com gasolina.

Na noite do sábado 7, pressionado pelo News of the World (um semanário sensacionalista da mesma empresa do Sun, com tiragem de 4 milhões de exemplares), que ameaçava publicar fofocas íntimas fornecidas por um ex-namorado, foi a vez de o ministro da Agricultura, Nick Brown, sair do armário. Tony Blair reagiu com rapidez. Confirmou a permanência de Brown no ministério e o News of the World desistiu de publicar o depoimento. Na semana passada, o ministro encontrou-se com um grupo de fazendeiros. Eles lhe disseram que não ligam a mínima para sua orientação sexual, desde que resolva a crise da agricultura inglesa. Oficialmente, ninguém disse uma palavra sobre Mandelson. O ministro é aquele que causou polêmica ao chamar o PT de "retrógrado", em visita ao Brasil. Maldoso, Parris, o colunista do Sun, escreveu que Mandelson é informado sobre o Brasil por um "amigo íntimo" brasileiro, Reinaldo Avila da Silva, atualmente estudando numa universidade japonesa.

O Sun chegou a colocar um telefone à disposição dos deputados dispostos a confessar a participação na "máfia gay". Nenhum ligou. A idéia do tablóide de que a Inglaterra é governada por um grupo organizado de políticos, advogados, cortesãos palacianos e figurões da TV homossexuais é preconceituosa e sensacionalista. Os próprios ministros gays são, curiosamente, de facções rivais do trabalhismo e não parecem ter nenhum outro interesse em comum. Ainda assim, o questionamento da homossexualidade em cargos públicos vai além do simples preconceito contra gays. O que se discute na Inglaterra é a maneira como alguns ministros se comportam em sua vida privada. O ministro Ron Davies, por exemplo, foi assaltado depois de se encontrar com o desconhecido, de cabelos rastafari, entre os arbustos de Clapham Common, um famoso ponto de prostituição masculina em Londres. O cargo de ministro implica uma certa liturgia formal. Da mesma forma que não se espera encontrar um ministro heterossexual com a prostituta da esquina, é difícil aceitar um gay do primeiro escalão se envolvendo num incidente dessa natureza em local de má fama.

Interesse sexual
Estrela em ascensão na política, 52 anos, casado e pai de uma adolescente, Davies foi visto em outros redutos gays, como banheiros de um posto de gasolina, bares caribenhos e um mictório público no centro de Cardiff, capital do País de Gales. Numa entrevista, sua primeira mulher discorreu sobre o pouco interesse sexual que despertava no marido, mesmo quando tentava atraí-lo com perfumes e lingeries sensuais. Davies, segundo a ex-mulher, gostava de passar os domingos numa sauna, de onde, como revelou o escritor Mario Vargas Llosa num artigo a respeito, "voltava ao lar todo contente e relaxado". Num alto posto, um homem com tal estilo de vida é alvo fácil para chantagem.

Talvez por isso mesmo Ron Davies tenha sido o único a perder o cargo (e, parece, a carreira política). Na última quinta-feira, o Sun anunciou que não mais se ocuparia da homossexualidade oculta de ninguém e demitiu o colunista Parris. Em parte, a meia-volta se deveu à reação da população. Pesquisa do jornal The Guardian revelou que 52% dos ingleses não consideram incompatível ser homossexual assumido e exercer cargo de ministro, enquanto 33% têm opinião oposta. "O que estamos vendo é a chegada ao poder da geração de 68", disse a VEJA John Forrester, professor de história da Universidade de Cambridge. "Os que hoje estão em torno dos 50 anos tratam da sexualidade de forma mais heterodoxa e relaxada." O assunto, contudo, está longe de ser pacífico. Só em 1967 o homossexualismo deixou de ser crime na Inglaterra, e a maioria da população se opõe a um projeto de lei para reduzir de 18 para 16 anos a idade permitida para sexo gay. Seja como for, comparado à atribulada vida sexual dos ministros ingleses, o escândalo americano Clinton-Monica Lewinsky parece romance de adolescentes.

Ron Davies: passeio, assalto, renúncia e revelações embaraçosas
A manchete do Sun e Mandelson: balela sobre "máfia gay"