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19 de abril de 2000

Fecha a única revista para gays sem nus. Já as explícitas vão bem

O atleta Robson Caetano: o ideal olímpico na peculiar versão da G Magazine

Foram cinco anos de inovação e quebra de preconceitos. Em janeiro de 1995,a revista Sui Generis surgiu tímida, fazendo jus ao nome: era a primeira revista de informação do Brasil destinada ao público homossexual. Preocupada em não ser vista como uma publicação ancorada em fotos de homens nus, a Sui Generis investiu em reportagens, entrevistas, seções de moda, comportamento e cultura. Assim, sem grande alarde, transformou-se em revista meio cult, capaz de tratar de assuntos delicados sem descambar para a grosseria. Nunca, porém, a Sui Generis conseguiu público ou anunciantes suficientes para se sustentar. Neste mês, com uma tiragem minguada de 20.000 exemplares, chegou ao seu último número. "Cansei de renegociar as dívidas todos os meses. Essa tinha virado minha principal ocupação. O jornalismo estava ficando em segundo plano", lamenta Nelson Feitosa, diretor-geral da Sui Generis.


 
Isso quer dizer que revista para homossexuais não tem mercado no Brasil? Longe disso. A agonizante publicação - que agora estuda convites de três portais para se transferir para a internet de armas, bagagens e moços sem camisa - abriu caminho para que vicejassem outras revistas dirigidas a esse público. Só que nessas o prato principal são mesmo as fotos explícitas de rapagões bem-dotados. A G Magazine, editada há dois anos e meio, é a de maior sucesso. Alcança, em geral, a marca de 100 000 exemplares. Igual volume de vendas é exibido pela caçula do mercado, a Íntima & Pessoal. Lançada há cinco meses e voltada, conforme apregoa aos quatro ventos, para o público feminino, a própria revista admite que 30% de seus leitores são homossexuais. "O público gay como consumidor de material erótico é um mercado consolidado", diz Nelson Feitosa. Ele sabe do que fala. Há três anos, para sustentar a Sui Generis, pôs nas bancas a revista Homens, só com fotos de modelos nus. A Sui Generis fechou, mas a Homens continua sendo impressa.

Sem ereção

Uma das ousadias da Sui Generis foi colocar na capa moçoilos famosos, heterossexuais de carteirinha, como o ator Eduardo Moscovis, que aceitaram dar entrevista e até posar de graça (vestidos com muita graça e elegância), em troca de publicidade. A idéia foi adotada pela G Magazine, com as devidas adaptações: nela os famosos posam sem uma peça de roupa e são pagos para isso. Já cooptou os jogadores de futebol Vampeta e Dinei, o velocista Robson Caetano, que posou com suas medalhas, e os atores Mateus Carrieri e Rubens Caribé, entre outros. O próximo da lista é o veterano Marcelo Picchi, 51 anos muito bem malhados. "A diferença é que a Sui Generis, com suas reportagens, era uma revista transformadora. O nu não transforma nada, só mata a curiosidade", diz Feitosa, em tom que beira a dor-de-cotovelo.

Ana Fadigas, diretora editorial da G Magazine, dá certa razão a Feitosa e garante que sua revista começa a ter outras ambições, além dos ensaios fotográficos para lá de desinibidos. De acordo com ela, o próprio público vem cobrando reportagens de interesse geral. "Nas nossas pesquisas, as pessoas pedem textos e entrevistas mais aprofundados. A Sui Generis foi pioneira nisso e estamos tentando seguir o seu caminho", afaga Ana. Mas avisa: o nu continuará sendo a marca registrada da revista. Da Íntima & Pessoal, também, só que lá os rapazes são mais contidos. "Temos sempre o nu frontal, mas em ensaios mais sutis", compara Paula Ganem, editora da revista, que também traz matérias de comportamento, saúde e beleza. Sutileza, aqui, é uma questão de centímetros. "Descobrimos numa pesquisa que 89% das mulheres não querem ver uma ereção estampada em nossas páginas", explica Luiz Grecco, diretor-geral da Íntima & Pessoal. Segundo ele, isso facilita muito na hora de convencer nomes famosos a posar para a publicação. Grecco garante que, nos próximos meses, terá em suas páginas os galãs Humberto Martins, Roberto Bataglin e André Gonçalves, todos do elenco da Globo. "E, até o final do ano, convenceremos o Miguel Falabella", aposta. Falabella é também o objeto dos desejos - profissionais, claro - de Ana Fadigas, da G Magazine. Sondado algumas vezes, já chegou a aceitar, desistindo na última hora. A loira é má, mas pelo jeito um tanto tímida.

Nota da redação: Nenhum dos personagens cujas fotos aparecem nesta reportagem estava com suas partes pudendas à mostra. Ainda assim VEJA decidiu usar tarjas vermelhas por considerar que os retratados estavam muito expostos.