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A Novela GLS
 
 
 
 
A Novela GLS

15 de junho de 2005

A TV brasileira nunca teve um folhetim com tantas referências ao mundo gay quanto A Lua Me Disse

A Lua Me Disse: guerra de cabelos e sadomasô

Nunca se viu uma novela tão GLS - sigla para "gays, lésbicas e simpatizantes" - quanto A Lua Me Disse. O atual folhetim das 7 da Rede Globo tem três personagens homossexuais: Samovar (Cássio Scapin), bon vivant que sofre de amores por um heterossexual; Coriolano (Agildo Ribeiro), um gay da terceira idade; e Dona Roma (Miguel Magno), marmanjo que se veste de mulher.


 
A "simpatia", no entanto, vai muito além disso. É uma questão de tom: há referências ao universo gay em vários detalhes, do figurino aos diálogos. "A novela é GLS mesmo. O mundo se tornou GLS!", diz o autor Miguel Falabella, com exagero tipicamente... GLS. A audiência tradicional do horário das 7, formada por crianças, adolescentes e donas-de-casa, pode nem notar. Mas o público homossexual se diverte com cenas como aquela em que a megera Madô (Débora Bloch) tem uma "briga de cabelos" com outra personagem - quer dizer, elas se golpeiam com as madeixas. "O pessoal se identifica com os diálogos escrachados e a estética da novela", diz o doutor em teoria estética pela USP e militante gay Wilton Garcia. Além de Madô, há peruas como Ademilde (Arlete Salles), que se vestem num estilo camp - a versão gay do cafona. E a toda hora os personagens usam expressões correntes no circuito do arco-íris, como "bofe" (para definir homens másculos) e "bas-fond" (agito).

Até agora, a audiência parece não ter se incomodado com os liberalismos de A Lua Me Disse. No ar há quase dois meses, a novela registra a média de 35 pontos no ibope - marca que a Globo considera satisfatória para o horário. Como a trama recorre àquele besteirol típico dos folhetins das 7, muitas referências se diluem em meio ao puro nonsense. Dez dias atrás, houve até uma cena de sadomasoquismo - de brincadeira, é claro. Em encontro com um namorado que conheceu pela internet, a personagem de Arlete Salles descobre que o sujeito gosta de se vestir de couro e ser chicoteado. O ator Ricardo Petraglia, que encarnou o tal namorado, ficou constrangido. Na semana passada, houve outro momento emblemático: o abdômen do ator Pedro Neschling foi mostrado em close, enquanto ele fazia ginástica ao som de dance music. No que depender de Falabella e de sua parceira na autoria da novela, Maria Carmen Barbosa, o apelo GLS não vai parar. Eles prevêem a entrada de uma lésbica na trama em breve. E, no fim do mês, deve-se gravar uma cena na Parada Gay do Rio de Janeiro. Definitivamente, A Lua Me Disse é uma novela que saiu do armário.

Falabella e Maria Carmen: o apelo gay é assumido