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Morte Cruel, Causa Renovada
 
 
 
 
Morte Cruel, Causa Renovada

21 de outubro de 1998

Crime brutal envolve os Estados Unidos num debate nacional sobre direitos dos homossexuais

Matthew Shepard, de 21 anos, morreu na segunda-feira passada depois de seis dias de coma num hospital americano. Estudante de ciência política e homossexual assumido, tinha sido atado a uma cerca, barbaramente espancado e abandonado para morrer numa temperatura congelante. O crime brutal transformou-o instantaneamente num mártir do movimento gay e provocou um daqueles surtos que eletrizam grupos de interesses opostos, todos movidos pela paixão por causas que caracteriza a sociedade americana. Vigílias e protestos brotaram por toda parte. Em Washington, com velas acesas, manifestantes reuniram-se diante do Congresso. Em San Francisco, a capital gay, uma gigantesca bandeira com as cores do arco-íris, símbolo do movimento homossexual, foi hasteada a meio pau. Ao mesmo tempo, um grupo religioso anti-homossexual ameaçava realizar uma manifestação em pleno enterro do jovem Matthew. O próprio presidente Bill Clinton, abrindo espaço numa agenda que incluía complicações como negociar a paz no Oriente Médio, autorizar um ataque aéreo nos Bálcãs e, como sempre, defender-se no processo de impeachment, exortou o Congresso a aprovar um projeto de lei contra esse tipo de crime.


 
Pelos indícios apurados até agora, o assassinato do universitário pode ser enquadrado na categoria chamada nos Estados Unidos de "crime de ódio": ele morreu por ser gay. Segundo a polícia, os dois estudantes da Universidade de Wyoming (a mesma onde estudava Shepard) presos pelo crime, Aaron McKinney e Russell Henderson, queriam praticar um roubo, mas escolheram o rapaz como alvo por seu homossexualismo. De fato, eles surrupiaram da vítima inconsciente a carteira e os sapatos sujos de sangue. Dezoito horas depois, um menino que passava de bicicleta teve sua atenção despertada pelo que parecia um espantalho instalado num local improvável. Era Matthew Shepard, agonizante.

A simbologia envolvida não poderia ser mais dramática. Em Wyoming, um típico Estado agrícola do Oeste, que serviu de cenário para incontáveis filmes de bangue-bangue, é bem conhecida a tradição de amarrar coiotes mortos na entrada de propriedades rurais, como sinal de advertência para dissuadir outros predadores. A morte de Shepard convulsionou a questão dos direitos dos homossexuais. Esse debate ocorre, com variações, em diversos países do mundo, incluindo o Brasil e a França, onde se discute atualmente a união civil dos homossexuais. Mas é o tipo de assunto que nos Estados Unidos ganha enorme relevo pela tradição da sociedade americana de se organizar em grupos de interesses bem específicos - e furiosamente defendidos por lobbies profissionais.

Numa ponta da discussão estão, evidentemente, os militantes gays e na outra os movimentos de cristãos fundamentalistas, obcecados pela condenação do homossexualismo. Uma amostra do choque dessas forças ganhou as ruas na semana passada, com a estréia, em Nova York, da peça Corpus Christi, de Terrence McNally, que retrata um Jesus Cristo gay e, como era de se prever, provocou protestos irados. A montagem quase não aconteceu: o teatro escolhido dizia não poder garantir a segurança, imaginando os protestos. Por pressão do movimento gay e dos grupos de defesa da liberdade de expressão, o teatro acabou cedendo. Na estréia da peça, na terça-feira passada, alguns gays compararam o martírio de Cristo ao de Shepard, para indignação de religiosos e também de organizações que, sensatamente, recusam a mitificação da homossexualidade em favor da convivência pacífica.

Nas últimas duas décadas, 21 Estados americanos e a capital federal adotaram leis específicas para os "crimes de ódio". A classificação possibilita punições mais severas aos autores de crimes motivados por características pessoais da vítima, como raça, religião e origem nacional. Como as leis federais só tratam de preconceito racial e religioso, Clinton, um bom amigo da causa gay, quer estender esses motivos para sexo, orientação sexual e deficiência física e mental. Não é o tipo de lei que passa pelo Congresso sem levantar poeira. O principal argumento de quem faz oposição à lei antiódio é que vai garantir às minorias "direitos especiais".

Cinco anos atrás, com o apoio de um lobby bem articulado, um homossexual pernambucano obteve asilo político nos Estados Unidos, baseado numa fantasia - de que esquadrões da morte estariam exterminando gays no Brasil. Bill McKinney, pai do suspeito Aaron, nega que o filho tenha matado Shepard porque ele era homossexual. "Se os rapazes tivessem decidido seqüestrar e roubar um heterossexual, nada disso estaria no noticiário nacional." Faz sentido. Ainda assim, a experiência americana mostra que compensa legislar em defesa de minorias afetadas pelo preconceito. Com algumas leis corajosas, o governo aboliu o odioso sistema de segregação racial existente em muitas partes do país até os anos 60. "Vinte negros foram linchados em 1935", computa o jornalista Richard Cohen. "Nos anos 60, com o país mobilizado contra ou, principalmente, a favor da luta pelos direitos civis dos negros, a média de linchamento caiu para um ou dois por ano. O que acabou com esse tipo de crime foi a reação pública cada vez maior."