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Machões e Peladões

02 de dezembro de 1998

Homens com fama, dinheiro e H aceitam posar nus, ou quase, em revistas para o público gay

O atleta Robson Caetano na Sui Generis: pose sensual e sugestão de strip-tease sem ganhar um tostão

Eles são, até segunda opção, acima de qualquer suspeita. O ator Eduardo Moscovis, que despontou como símbolo sexual na novela Por Amor e atualmente encarna o Carlão de Pecado Capital, é casado e já encomendou o primeiro filho.


 
O apolíneo André Segatti, modelo e ator iniciante, namora a cobiçada Danielle Winits. O jogador de futebol Renato Gaúcho é casado, mas seu currículo de conquistador é de matar Don Juan de inveja. Os atores Mateus Carrieri e David Cardoso Jr. - este último filho do rei das pornochanchadas, David Cardoso - também têm mulher e namorada, respectivamente. Além de bonitos, musculosos e heterossexuais, todos esses rapazes têm uma coisa em comum: posaram para revistas gays. Não são os únicos. A Sui Generis, que estampou Moscovis, Segatti e Renato na capa, também clicou os atores André Gonçalves e Alexandre Frota e o corredor Robson Caetano em ensaios sensuais. Já Carrieri e David mostraram todos os seus atributos - todos mesmo! - na revista erótica G. E vem mais por aí. O jogador Vampeta, do Corinthians e da seleção brasileira, fechou contrato para posar peladão para a edição de janeiro da G.

A desinibição com que heterossexuais convictos e famosos tiram tudo, ou quase, para deleite de um público bem específico baliza uma formidável mudança de comportamento. Os tempos definitivamente são outros - pelo menos em comparação com os anos 60, quando o goleiro Raul, do Cruzeiro, tinha sua óbvia masculinidade contestada pela torcida adversária por usar camisa amarela em pleno campo, ou nos anos 80, quando o hoje deputado Fernando Gabeira escandalizou com uma sunga de crochê na praia. Hoje jogadores de futebol usam brinco e fazem trenzinho em campo para comemorar os tentos. O que não significa que o preconceito em relação a homossexuais se tenha, magicamente, evaporado. Héteros que posam nus em revistas gays ainda abrem o flanco para piadinhas maldosas e gozação dos amigos. Qual será sua motivação?

"Marinheiro, não"
Dinheiro conta, mas nem sempre, nem como fator primordial. Com uma tiragem pequena, na casa dos 15.000 a 20.000 exemplares, a Sui Generis, revista de comportamento, cultura e moda dirigida a homossexuais, não paga cachê. Os homens da capa são fotografados para mostrar o que têm de melhor: braços fortes, abdomes tipo tábua, pernas ma-ra-vi-lho-sas, tudo com o mínimo de cobertura. De quebra, podem falar de seu trabalho na televisão, no teatro, no cinema. Moscovis foi objeto de uma reportagem em janeiro por causa de seu sucesso como Nando, de Por Amor. Com o cabelão que ainda tinha alisado a poder de secador, fez fotos insinuando um strip-tease dentro de uma van forrada de pelúcia cor de pêssego. Parou o trânsito. No meio da confusão da sessão de fotos em Copacabana, dois carros bateram. Segatti, que aparece de sunga na capa de outubro, ficou preocupado com a produção das fotos, mas gostou do resultado final. "Ficou sensual sem ser vulgar", acredita.

Já a G, que trabalha com nu frontal e tem um apelo erótico bem explícito, paga cachê, sim. O bonitinho Mateus Carrieri embolsou 40.000 reais. "Fiz pelo dinheiro. Se a mulherada pode posar nua, por que os homens não podem?", questiona o ator, que saiu na G de agosto, depois de deixar o elenco da novela infantil Chiquititas. Com o peito borrifado de água e iluminação especial para ressaltar os belos olhos azuis, ele aparece em poses lânguidas na cama, na poltrona e de frente para o espelho. "Não aceitei fazer caras e bocas nem me vestir de marinheiro e mecânico", ressalva. Quem já posou ou vai posar nu valoriza seu passe chutando os valores para cima. Os amigos do meio-de-campo Vampeta, de 24 anos, dizem que ele está ganhando 100.000 reais pelo ensaio da G. Ele não confirma, mas garante que não fez pelo dinheiro. "Não vou ficar mais rico nem mais pobre", desdenha o jogador do Corinthians, que ganha por mês cerca de 60.000 reais. Então o que o motivou a posar nu? "Queria quebrar preconceitos", diz. "Eu não sou vaidoso, mas me adoro. Se não gostar de mim, quem vai gostar?", filosofa Vampeta, cujo apelido é uma mistura de vampiro com capeta, epíteto pouco carinhoso que ganhou no início da carreira justamente pelo desfavorecimento estético.

Lentes de contato
Perseguido por boatos maldosos sobre sua ortodoxia sexual, apesar das hordas de mulheres dispostas a testemunhar em contrário, Renato Gaúcho, capa da Sui Generis de março de 1996, não se furtou a posar de calça justíssima e peito nu. "Eu me garanto. Não fiquei preocupado se ia agradar às mulheres ou aos gays", afirma ele. "Mas não faria nu como o Vampeta. Só tiro a roupa para mulher e dentro de quatro paredes", chuta, de leve. Dinheiro, promoção, tem algo mais que leva machões de fé a mostrar o corpinho? "É preciso uma alta dose de narcisismo.Ou,no caso do nu frontal, de exibicionismo mesmo. Os homens que tiram fotos sensuais para essas revistas têm necessidade de ser admirados e invejados", analisa a psiquiatra e sexóloga Gilda Fucs.

O público homossexual, por sua vez, adora ver homens viris nas revistas. "Eles querem tipos másculos. Reclamam quando fotografamos homens com jeito efeminado", diz o editor da G, João Andrade. "Um dos elementos da cultura gay é a exigência estética exacerbada, o culto ao corpo, à beleza, à juventude", emenda o diretor de redação da Sui Generis, Nelson Feitosa. A produção dos ensaios sempre procura mostrar os melhores ângulos dos rapazes. Capricha-se na maquiagem, no óleo no corpo. O dançarino do grupo baiano Gera Samba, Alex Sanches, usou até lentes de contato esverdeadas para contrastar com a pele negra. Um estouro.


 
Ver fotos de gente sem roupa
Mulheres, no caso dos heterossexuais, e outros homens, no dos gays - é coisa que excita mais o sexo masculino que o feminino. "O homem tem um erotismo mais visual e a mulher, mais tátil", compara Gilda Fucs. Toda regra, como se sabe, tem sua exceção: a revista com o ator Mateus Carrieri teve venda significativa entre as mulheres. Uma senhora chegou a pará-lo na padaria para saber se tinham usado recursos de computador para aumentar seus impressionantes dotes naturais. Ele negou, categórico. Quanto ao hipotético assédio de homossexuais, os bonitões dizem levar as cantadas do mesmo sexo na esportiva. "Eu dou risada", garante André Segatti. Nem todos, porém, têm o mesmo distanciamento olímpico. David Cardoso Jr. confessa que engrossou com um sujeito que passou a mão nele. "Eu perdi o controle e dei uma cotovelada nele", conta. Rapazes, cuidem-se.

Os famosos que dizem não
Só no Brasil que um ator primeiro fica famoso, depois posa nu. A regra no resto do mundo é o artista de sucesso mover céus e terra para impedir a divulgação de fotos reveladoras dos tempos de vacas magras. Leonardo DiCaprio entrou na Justiça para evitar que a revista Playgirl o mostrasse nu, em cenas tiradas do filme Eclipse de uma Paixão, que narra o romance homossexual entre os poetas franceses Arthur Rimbaud (vivido por DiCaprio) e Paul Verlaine (David Thewlis). Perdeu. O lindinho Brad Pitt também esperneou, sem sucesso, quando a mesma Playgirl mostrou fotos dele como veio ao mundo, compradas de um paparazzo. Já Arnold Schwarzenegger ganhou uma indenização do jornal inglês Sunday Mirror, que comprou fotos do fortão nu num vestiário e publicou-as como "as fotos gay de Arnie".

O jogador Vampeta, que vai posar nu para a G de janeiro: "Não sou vaidoso, mas me adoro"