Preceitos - Magazine Eletrônica
Preceitos - Magazine Eletrônica
Página Inicial
Índice
Cinema
Fotos Desktop
Tudo do Brasil
Arnaldo Jabor
Holocausto
Orient Express

 

01

02

03

04

05

06

07

08

09

10

11

12

13

14

15

16

17

18

19

20

21

22

23

24

25

26

27

28

29

30

31

32

 


Seus comentários e considerações sobre esta página:
 
Campos do Jordão - SP - Brasil
Pousada d'Ampezzo
Apartamentos com aquecedor a óleo, TV com controle remoto, rádio, telefone, frigobar e aquecimento central. Sala de jogos, sala de ginástica e estacionamento fechado. Ótima localização, a 4,5 km do centro. Brunch aos domingos com check-out às 15 hs.
Estadisticas y contadores web gratis
Oposiciones Masters
Jefferson ou Jéssica?
 
 
 
 
Jefferson ou Jéssica?

01 de dezembro de 1999

Ele saiu da cidadezinha mineira como homem, voltou mulher e virou celebridade

Jéssica, de volta a Inconfidentes: champanhe e flores na recepção

Inconfidentes, no sul de Minas Gerais, é uma cidadezinha típica do interior do Brasil. Tem 6.000 habitantes, ruas de paralelepípedos e uma igreja em frente à praça central. Na semana passada, seus moradores deram um exemplo de civilidade. Reuniram-se para receber de braços abertos, em clima de festa, o cabeleireiro Jefferson Leandro Daló, de 23 anos, que retornava de Belo Horizonte, onde se submeteu a uma cirurgia de mudança de sexo.


 
Saiu como homem e, um mês depois, voltou como mulher. Foi o último passo numa virada que começou há cinco anos, quando Jefferson adotou o nome Jéssica e assumiu de vez sua porção mulher. Era uma porção enorme. Na chegada de Jéssica, toda orgulhosa num vestido novo, uma pequena multidão de amigos e curiosos se aglomerou na porta do salão de beleza de sua mãe para recepcionar a conterrânea. Andando com dificuldade por causa da cirurgia, ela desfilou pelas ruas da cidade como uma estrela. "Se antes já fazia sucesso, agora vão chover homens em sua horta", previu Jarbas Massari, comerciante e morador de Inconfidentes há 44 anos, com aquela simplicidade interiorana que faz o encanto das pequenas cidades do sul mineiro.

Tratando-se de uma cidade de interior, onde a população sempre é mais conservadora do que nas capitais, era de esperar alguma agressividade contra o transexual. O que se viu foi o oposto. Do padre ao prefeito, passando pelas beatas mais empedernidas, há uma quase unanimidade no município em apoio à decisão de Jéssica de ter se bandeado com todos os apetrechos para a trincheira do sexo oposto. No dia da cirurgia, seus conterrâneos fizeram uma corrente de oração. "Rezamos todos juntos para que ela pudesse virar uma mulher", explica Beatriz Henriques, a dona Triz, beata-mor da cidade. Apesar de deixar claro que a Igreja Católica é contra a troca de sexo, até o padre Otávio de Oliveira Rocha endossou: "Jéssica tinha uma anomalia que precisava ser corrigida de alguma forma. As portas da minha igreja continuarão abertas para ela". A boa vontade de Inconfidentes com a metamorfose de Jéssica encontra explicação em sua índole pacata. Ela sempre evitou roupas vulgares e não tem namorados na cidade. "Jéssica sempre foi muito séria. Não é um homem que virou mulher, mas uma mulher que ganhou identidade", teoriza o prefeito Décio Bonamichi, que cedeu uma ambulância para a volta de Belo Horizonte. A recepção a Jéssica revela também uma mudança de costumes entre os brasileiros. "Esse episódio mostra que muitos assuntos ligados à sexualidade estão deixando de ser tabu", diz o ginecologista e sexólogo mineiro Gerson Lopes.

Com exorcista

O lado feminino de Jéssica começou a predominar cedo. Quando criança, preferia estojos de maquiagem a jogos de botão, como é típico nesses casos. Seu pai, um agricultor morto há sete anos, esforçou-se para interferir. Chegou a matricular o garoto em aulas de judô. Vã esperança. O menino, se bem que só na esfera romântica, interessava-se mesmo pelos coleguinhas. Para os especialistas, esse é um sinal claro de que o caso não era de simples homossexualismo. "O transexualismo é o desejo obsessivo da pessoa de pertencer ao sexo oposto. Diferentemente dos homossexuais, eles em geral se mostram mais comedidos e não são promíscuos", explica Lopes. Numa fase, o garoto foi morar com uma tia em São José dos Campos, no interior de São Paulo, que se ofereceu para "consertar" seus trejeitos femininos. "Minha tia me levou até em exorcista", lembra. Longe de casa, tingiu os longos cabelos de loiro, trocou as calças compridas por saias e aderiu aos sapatos de salto. Desde então, freqüenta consultórios de psiquiatra. "Gastava todo o meu dinheiro com médicos e hormônios", conta. "Queria ser uma mulher como realmente me sentia e não um travesti como as pessoas me viam."

A cirurgia de Jéssica foi realizada no Hospital Universitário São José pelos médicos Cesário Almada e Otto Chaves. Trata-se de uma técnica conhecida como transgenitalização e foi desenvolvida há cerca de trinta anos. Não há mutilação. A parte cavernosa do pênis é transformada nos pequenos e grandes lábios da genitália feminina, e a pele do membro masculino é invertida, formando o canal vaginal. Isso permite que ela continue a ter sensibilidade no órgão sexual. Um pequeno pedaço da uretra é utilizado para simular o clitóris. Depois de dois meses, o paciente é liberado para manter relações sexuais. No Brasil, a técnica é empregada desde 1997 e os candidatos à cirurgia têm de provar que são transexuais, ser acompanhados por psiquiatra durante dois anos e conseguir autorização na Justiça. No caso de Jéssica, todo esse esforço foi recompensado. Em Inconfidentes, não faltam candidatos a marido. "Ela tem tudo para virar um partidão", diz o estudante Mariel Diniz, 18 anos.