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Gay de Batina
 
 
 
 
Gay de Batina

13 de fevereiro de 2002

Padre espanhol anuncia ser homossexual e ameaça revelar casos parecidos no clero

É daquele tipo de escândalo que quando estoura todo mundo diz que já desconfiava. Há duas semanas, um padre espanhol não apenas revelou publicamente que é gay como afirmou que raros sacerdotes católicos - homossexuais ou heterossexuais - respeitam o voto de castidade. A repercussão da declaração de José Mantero, 39 anos, pároco numa cidadezinha no extremo sul da Espanha, foi ampliada pelo veículo usado para as inconfidências: a revista Zero, dirigida ao público gay. A capa da publicação mostra Mantero de batina e tem como manchete uma declaração que é quase uma blasfêmia: "Dou graças a Deus por ser gay". Os bispos espanhóis reagiram com indignação e, na quarta-feira passada, o superior de Mantero anunciou sua suspensão. A Igreja Católica tem por norma tratar com discrição os casos de homossexualismo em suas fileiras. A situação desta vez corre o risco de escapar ao controle, pois o padre deixou no ar a ameaça de, se for pressionado, divulgar uma lista de sacerdotes gays. "Não vou fazer chantagem, mas tenho uma agenda completíssima", disse.


 
Mantero converteu-se logo numa bandeira da comunidade gay espanhola. Seu estoque de ameaças foi reforçado por Carlos Alberto Biendicho, presidente da Plataforma Popular Gay, entidade ligada ao governista Partido Popular, e colunista da revista Zero. Biendicho, que nasceu em Santo André, no ABC paulista, e vive na Espanha desde os 10 anos, foi seminarista. Ele diz que aos 18 anos, quando estava no seminário, manteve relações sexuais com três colegas que hoje são bispos. "Se eles começarem a perseguir Mantero ou qualquer outro padre que declare ser homossexual, vou denunciá-los", disse a VEJA. "Eu fiquei cinco anos no seminário e, naquela época, mais da metade de meus colegas eram gays. Ninguém demonstrava explicitamente, mas todo mundo sabia." Zero já publicou uma lista com 101 personalidades espanholas que admitiram ser homossexuais, entre elas o consagrado cineasta Pedro Almodóvar. Recentemente, causou furor com as confissões de um tenente-coronel, que disse haver muitos gays nas Forças Armadas e na Guarda Civil. O objetivo da revista é mostrar que há homossexuais em toda parte e que eles são membros respeitados da comunidade.

Mantero tornou-se padre faz mais de dez anos e estava havia quatro na paróquia de Valverde del Camino, que conta com 12.000 habitantes. Em julho do ano passado, ele já havia publicado um artigo intitulado "Orgulho gay" em uma revista local defendendo a homossexualidade - mas então não dizia que falava sobre si próprio. Desta vez, não escondeu nada. Contou ter descoberto sua preferência sexual aos 12 anos. "Enquanto meus amigos olhavam para as loiras dos seriados de TV, eu preferia os caminhoneiros", disse. Garante ter mantido o voto de castidade até os 31 anos, quando teve um relacionamento com outro homem. "Foi uma história muito bonita, mas não deu certo."

A questão é que ele diz ter orgulho de sua orientação sexual e, ao mesmo tempo, gosta de ser padre. "Apesar de todos os defeitos, eu me sinto realizado dentro da Igreja", comenta. É difícil conciliar, visto que o Vaticano condena o homossexualismo e exige abstinência sexual de seus sacerdotes. Em discursos, cartas apostólicas e sermões, o papa João Paulo II deixou claro que esses são assuntos fechados a negociações ou mudanças. Tecnicamente, Mantero não foi suspenso por ser gay, mas por desrespeito ao celibato. Aliás, ele diz que saiu do armário porque, como os sacerdotes não respeitam o voto de castidade, é hora de a Igreja tornar o celibato opcional. Em tempo: os paroquianos de Valverde del Camino decidiram manifestar solidariedade ao vigário gay.