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10 de fevereiro de 1999

Vida dupla custa carreira a deputado conservador

O problema de quem tem vida dupla é conseguir mantê-las em compartimentos estanques. Por descuido, o inglês Tom Spencer, deputado conservador no Parlamento Europeu, deixou que ambas se misturassem num lugar inconveniente: a alfândega do Aeroporto de Londres. Ao abrir a bagagem do deputado, que voltava de Amsterdã, a polícia encontrou vídeos pornográficos com protagonistas homossexuais, maconha, cocaína e roupas íntimas de couro. Safou-se da acusação de tráfico de drogas e contrabando de pornografia pagando multa equivalente a 900 dólares - mas não houve como esconder o incidente.


 
Na semana passada, ao saber que o vexame tinha chegado à imprensa, Spencer convocou os repórteres para, ao lado da mulher, Liz, assumir publicamente a homossexualidade e revelar um peculiar arranjo conjugal. Aos 50 anos, casado há dezenove e pai de três filhas, ele contou que a mulher tinha conhecimento de sua opção sexual desde o primeiro encontro, quando eram estudantes. Casaram-se com a condição de que ambos poderiam manter relações extraconjugais. Cada qual com os respectivos namorados. Liz, de 44 anos, até já recebeu para jantar em casa alguns amantes do marido.

Civilizadíssimo, não? Não, nem na Inglaterra. E muito menos com um político do Partido Conservador, que vem explorando quanto pode a presença de ministros gays no ministério do trabalhista Tony Blair e detestou expor seu telhado de vidro. Ao descobrir a infiltração rosada nas próprias fileiras, a liderança do partido forçou o deputado a desistir da campanha de reeleição para o Parlamento Europeu. O caso continuou fazendo a alegria dos tablóides. Os vídeos, constatou-se, eram todos estrelados por seu namorado, o ator americano Cole Tucker, que mais tarde contou que é soropositivo. "Admito que estou apaixonado por ele", declarou Spencer, para depois tentar explicar que as drogas foram parar em sua bagagem por obra de amigos de Tucker, durante um encontro a quatro num apartamento em Amsterdã. "Eu não participei ativamente, mas de qualquer forma foi um erro estúpido." Para provável desespero de seus colegas conservadores, o deputado ainda defendeu a legalização da maconha. "Sou da geração dos anos 60", justificou-se. "E, ao contrário de Clinton, eu traguei."

"Vidas passadas"

A franqueza de Spencer foi a nota mais positiva num caso de contornos patéticos e num momento em que a Inglaterra vive outro surto de escândalos protagonizados por figuras públicas. Ainda na semana passada, outro inglês perdeu o emprego por razões que nada têm a ver com seu desempenho profissional. Glenn Hoddle, o técnico da seleção de futebol, foi demitido porque declarou que os deficientes físicos pagam por pecados cometidos em "vidas passadas". Apesar de odiosa à luz do humanismo e dos princípios da civilização ocidental, a declaração expõe basicamente uma convicção pessoal, de resto compartilhada por determinadas crenças religiosas. De pouca valia foi o argumento. Até Tony Blair pediu a cabeça de Hoddle. Ficou no ar a suspeita de que a ofensa à sensibilidade dos deficientes físicos tenha sido usada para dar fim à carreira do homem considerado responsável pelo vexame da seleção inglesa na Copa do Mundo do ano passado.