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Ela e Ela, Não!

08 de julho de 1998

Lesbianismo é tabu até no festival de temas polêmicos das novelas das 8

Abalada pelos baixos índices de audiência, a novela "Torre de Babel", da Rede Globo, está passando por uma reestruturação que vai eliminar da trama um tema polêmico: o homossexualismo feminino. As personagens Rafaela (Christiane Torloni) e Leila (Silvia Pfeifer), que formam um casal lésbico na história, vão morrer na explosão de um shopping center no capítulo 47, previsto para ir ao ar na semana que vem. Inicialmente apenas Rafaela morreria. Leila tentaria reconstruir sua vida ao lado de Marta (Glória Menezes), que, talvez, correspondesse ao amor da amiga.


 
Mas o público, essa força poderosa que faz baixar ou subir os números do Ibope, não quis saber do assunto. Nas pesquisas realizadas pela Globo, os telespectadores identificaram diversos problemas em Torre de Babel, como violência desmedida e atores com um passado de personagens bonzinhos vivendo desajustados. Mas o único assunto que obteve rejeição unânime dos entrevistados foi a união homossexual de Rafaela e Leila. Com essa batata quente na mão, a Globo chegou a pensar em, depois da morte de Rafaela, transformar Leila em heterossexual, com namorado e tudo, o que seria meio ridículo. Acabou optando por também matar a personagem e não tocar mais no assunto.

Normalmente, o conservadorismo da população é camuflado pela aparente aceitação de situações controvertidas - desde que devidamente embrulhadas em ficção, fantasia ou espetáculo. O brasileiro adora ver Carla Perez rebolar na direção da boquinha da garrafa. Dá de presente para os filhinhos CDs com letras de música de enrubescer Madonna. Vota como um liberal dinamarquês nas questões mais delicadas de programas como Você Decide. Aceita com naturalidade sueca a quase nudez de homens e mulheres no Sambódromo. Assiste placidamente, como se pôde ver nas últimas novelas das 8, a um festival que mistura casais trocados, gays assumidos, hermafroditas e conflitos edipianos. Mesmo o tema do homossexualismo feminino não é novidade na telinha. Vale Tudo, que foi ao ar há dez anos, já apresentara cenas - muito menos explícitas, é certo - de um casal de lésbicas, sem causar maiores comoções. Por isso mesmo, a rejeição do público ao casal formado por Leila e Rafaela causou surpresa. A reação entre os entrevistados pela Globo foi como se o assunto fosse realidade, e não ficção. Por quê? Eis aí uma pergunta que está suscitando certa discussão entre especialistas em televisão e sociólogos. Uma das respostas possíveis é que Leila e Rafaela formam um casal abertamente feliz, bem resolvido, sem nenhum conflito com sua sexualidade, ao contrário dos casais homossexuais, masculinos ou femininos, que já apareceram em outros folhetins. Esse dado perturbador para a esmagadora maioria dos telespectadores de novelas fez com que as personagens trombassem na intolerância barra-pesada da vida real - uma muralha que a barulhenta militância gay está longe de abalar. Em termos mundiais, o Brasil forma no vasto bloco dos que adotam algumas iniciativas para, pelo menos, conter a discriminação. Só cinco países, todos europeus, garantem plenos direitos aos homossexuais. Em vários, o homossexualismo é proibido e pode dar cadeia (veja quadro abaixo).

A tolerância do brasileiro em relação ao universo gay é uma falácia. No caso das lésbicas, a discriminação é ainda mais pesada. "Para o público, o universo íntimo de duas mulheres é mais ameaçador do que o do gay masculino, porque parece estar mais distante do cotidiano das pessoas", diz a socióloga Jacqueline Pitanguy, ex-presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Por causa do preconceito, e também porque é mais fácil disfarçar, as lésbicas aparecem menos do que os homossexuais masculinos. "Vivemos numa espécie de complô de silêncio, de anonimato. Essa invisibilidade nos protege das fofocas, das brincadeiras de mau gosto", afirma Mônica (nome fictício), médica paulista de 35 anos, que se casou com o primeiro namorado, teve outros depois de separada, mas que depois do primeiro relacionamento homossexual nunca mais voltou a se encontrar com rapazes. "O sexo é melhor, a intimidade é maior, a cumplicidade é total. O único senão são os outros", explica. Ou seja, dentro de casa, sua relação é motivo de felicidade. Fora, de angústia. "As pessoas nunca são totalmente felizes na clandestinidade. O ideal é ter a aceitação de todos", diz a psiquiatra e sexóloga baiana Gilda Fucs.

Assumir tudo na frente de todos, no entanto, é jogo duro. A jornalista Regina Macedo, 40 anos, resolveu arriscar. Em 1993, fundou em São Paulo o grupo Estação Mulher, que publicava um jornal com informações sobre sexualidade, saúde e comportamento. A iniciativa só durou dois anos. "O grupo acabou por falta de mulheres homossexuais que quisessem mostrar a cara. Aí ficava difícil marcar reuniões, organizar passeatas", reclama ela, que hoje acredita que a melhor forma de um homossexual enfrentar o preconceito é criar em torno de si um grupo de amigos e familiares que aceitem a situação. "O movimento homossexual não conseguiu derrubar muitos preconceitos. Cada um tem de contribuir com sua meia dúzia de amigos", acredita. "Quando vou a um ginecologista e digo que não uso métodos contraceptivos porque não transo com homens, e sim com mulheres, sou logo olhada como se fosse um monstro", conta Regina, que já trocou de médico várias vezes.

A vontade da mulher homossexual de preservar sua vida pessoal tem outro aliado além do silêncio: o visual. "Ouço sempre que sou bem feminina, muito sensual. Uso colar, lápis nos olhos, batom e brincos. Ninguém diz que sou homossexual", diz Sandra, vendedora paulista de 28 anos que não divulga o sobrenome. Sandra não é a única a dispensar o figurino "sapatão" das piadas. "O estereótipo da mulher machona caiu por água abaixo. Muitas lésbicas têm instinto materno e querem ser mães", constata Gilda Fucs, que tem duas pacientes lésbicas que ficaram grávidas no esquema de produção independente. Foi o desejo de ser mãe, por exemplo, que fez com que a cantora Cássia Eller, uma rara homossexual assumida, tivesse um filho. Mesmo casada com uma mulher há dez anos, ela teve um relacionamento com um músico de sua banda, engravidou e hoje é mãe de Francisco, de 4 anos.

Para quem tem filhos e decidiu assumir uma vida lésbica, o preconceito pode vir dobrado. É o caso da carioca Marta (outro nome fictício), de 36 anos, que foi casada e tem um filho de 9 anos e uma filha de 5. Há dois ela vive com os filhos e a namorada, uma economista, no mesmo apartamento. No último aniversário de sua filha, a mãe de uma amiguinha descobriu que Marta é lésbica. No dia seguinte, a amiguinha foi proibida de freqüentar sua casa. "Quando meus filhos chegarem à adolescência, vamos ter ainda mais problemas", prevê.

Com certeza terão, dentro e fora de casa. "A maioria dos relacionamentos homossexuais é conturbada. Esse equilíbrio da novela é raro, mesmo em casais heterossexuais", analisa Gilda Fucs. A rejeição começa em família, como aconteceu com "Raquel", 33 anos, assessora de um vereador em São Paulo. "Aos 18 anos, meu irmão me flagrou beijando minha namorada. Foi horrível. Ele disse que não admitia aquilo e ficou sem falar comigo seis anos", conta. "Acho que o preconceito hoje tem uma nova cara. As pessoas parecem mais condescendentes, por causa da mídia, que transformou a sexualidade em produto de consumo." No caso de Torre de Babel, novela que até agora só trouxe dores de cabeça à Globo, a estratégia falhou. O produto Leila-Rafaela, mesmo embrulhado em embalagem linda, chique e bem resolvida, nos próximos dias irá, literalmente, para o espaço.

"Meu irmão me flagrou beijando uma namorada e ficou sem falar comigo seis anos. Acho que o preconceito é sutil. Sei que já fui demitida de emprego por causa da minha homossexualidade, mas ninguém disse isso às claras. Hoje, as pessoas até parecem mais condescendentes. Mas experimente perguntar: 'E se for com seu filho?' '' "Raquel" , 33 anos.