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Drama Homossexual
 
 
 
 
Drama Homossexual

13 de maio de 1998

Na vida real, trocar a família por uma relação homossexual é drama digno de novela

Nesta quinta-feira, depois de muita insinuação e protelação, o personagem Rafael de Por Amor vai - na expressão consagrada nos Estados Unidos - "sair do armário" e assumir seu homossexualismo.

"Resolvi seguir o caminho indicado pelo meu coração e pelo meu desejo", dirá Rafael (o ator Odilon Wagner), ao deixar a mulher e os filhos adolescentes para morar com o namorado, Alex (Beto Nasci).


 
Segundo o autor da novela, Manoel Carlos, o enredo simplesmente reflete um comportamento que vem ganhando cada vez mais adeptos. "Eu mesmo conheço dois casos", diz o autor, que se define como "um colecionador de pequenas histórias urbanas". Apesar de ter chegado à novela das 8, na vida real uma virada de mesa desse calibre está longe de transcorrer com facilidade. Pelo contrário - sofre quem assume a homossexualidade e, na maioria dos casos, sofre mais ainda o resto da família, que não conta com o atenuante do alívio de romper com uma vida de disfarce.

Houve mudanças, claro, em relação aos tormentos e à humilhação pública dos tempos do "amor que não ousa dizer o nome", na expressão bem mais delicada do escritor irlandês Oscar Wilde - que também se casou, teve filhos, assumiu um romance homossexual e, há exatamente um século, foi parar na cadeia em conseqüência de complicações decorrentes do caso, num dos maiores escândalos da Londres vitoriana. Assumir o homossexualismo, sobretudo depois de anos de vida aparentemente heterossexual, continua porém a ser uma decisão muito difícil. Com todas as mudanças de comportamento, o homossexualismo é visto com rejeição por grande parcela da sociedade. "Foi difícil dobrar meus pais. Minha mãe achou que eu devia fazer análise para me curar", diz o jovem estudante carioca que mora há três anos com o fotógrafo mineiro Carlos Alberto de Araújo (e pede para não ser identificado). É a reação clássica, da qual só escapam, assim mesmo às vezes, os artistas cuja imagem tem cacife suficiente para absorver um choque desse tipo. No ano passado, o seriado Ellen bateu recordes de audiência nos Estados Unidos quando a protagonista, Ellen Morgan, assumiu ser lésbica e, em seguida, a atriz Ellen DeGeneres confirmou ter a mesma preferência sexual na vida real. Detalhe: o seriado acaba de ser cancelado.

"Minha primeira experiência foi com um padre da cidade onde nasci, Barbacena. Quando fomos descobertos, ele foi transferido e eu fui parar no divã do analista. Tive algumas namoradas, mas quando vim morar no Rio conheci um rapaz e ficamos dois anos juntos. Voltei a me apaixonar por uma mulher. Apesar das idas e vindas, sabia que ia acabar ficando com um homem. Hoje, meu parceiro e eu não escondemos nossa relação, mas foi muito difícil assumir." Carlos Alberto de Araújo, fotógrafo, 25 anos

Raiva do pai

Enfrentar a sociedade preconceituosa pode até ser motivo de orgulho, mas a barra pesa mesmo é no ambiente familiar. "Quem mais sofreu com a minha decisão foram os meus pais", conta a assessora de informática Gisele Pimentel, 24 anos. Depois de um casamento de seis anos, ela largou tudo para viver com Audrey Mirabal, 26. O ex-marido, que sempre soube da atração de Gisele por mulheres, concordou com a separação. Os pais também aceitaram a decisão dela, mas penaram com a reação dos parentes e vizinhos. "Eles infernizam a vida da minha mãe", lamenta. Quando há filhos envolvidos, a história é ainda mais delicada. "Quem é casado esconde ao máximo, porque prevê o resultado de uma confissão: um verdadeiro drama familiar", afirma a sexóloga e psiquiatra baiana Gilda Fucs. Que o diga Renato, pseudônimo de um publicitário de 41 anos que rompeu o casamento quando os filhos tinham 3 e 5 anos. Ele conta que, antes de namorar sua ex-mulher, só havia tido relacionamentos homossexuais. "Mas ela engravidou e resolvi casar, porque queria experimentar viver com uma mulher." O publicitário não demorou a voltar às relações com outros homens, para decepção e frustração da esposa: "Ela achava que eu saía com homens porque não tinha encontrado a mulher certa".

Quando se separaram, as crianças foram morar com o pai. Durante alguns anos, conviveram com seus namorados e amigos gays "sem ver nada de errado", conta Renato. Mais tarde, já morando com a mãe, o comportamento mudou. "Cheguei a sentir raiva de meu pai", diz o filho mais velho, hoje com 16 anos. "Minha mãe falava que homossexualismo era doença e meus meio-irmãos, filhos de outro casamento dela, diziam que eu também ia ser gay", relembra o rapaz. Atualmente, depois de muita conversa, tanto ele como a irmã de 13 anos aceitam a opção do pai, com quem voltaram a morar. "Tanta gente é homossexual, porque meu pai não pode ser também?", pergunta a menina.

Se para os filhos a separação dos pais carrega toda a carga de dor e sofrimento que se conhece, saber que um dos dois optou por viver com outra pessoa do mesmo sexo acrescenta um grave complicador. O filho adolescente provavelmente vai sentir vergonha e constrangimento, temendo ter o "segredo" descoberto pelos amigos da escola. "Nessa fase, qualquer crítica de seu grupo de referência é levada muito a sério", diz a psicóloga Ceres Alves de Araújo. Também podem surgir dúvidas quanto à própria sexualidade. "Ele tem medo da hereditariedade, e confunde a afetividade para com o mesmo sexo, comum nessa idade, com homossexualismo", explica a psicóloga. O conselho dos especialistas, no caso dos adolescentes, é que o pai ou mãe homossexual exerça a mais absoluta discrição - nada de fazer comentários na frente dos amigos, ou ir buscar o filho na escola ou nas festinhas com o parceiro a tiracolo. Quando possível, também pode ajudar contar para os filhos enquanto eles ainda forem crianças, sem preconceitos formados.

O parceiro que é deixado por alguém do sexo oposto tem a sua feminilidade ou masculinidade profundamente ferida. O ex-marido de Isabel, pseudônimo de uma comerciária de 50 anos que se separou para viver com outra mulher depois de 23 anos de casada, chegou a atribuir ao choque da separação o câncer que acabou por lhe tirar a vida. "Não pensei que fosse sofrer tanta recriminação", afirma Isabel, que durante dez anos escondeu de todos seu namoro com Mônica (ela também pede para não ser identificada pelo nome verdadeiro). O ex-marido de Isabel encarregou-se de contar a decisão para os quatros filhos e o resto da família. Os filhos agora moram com Isabel, mas não aceitam Mônica. Dois deles, adolescentes, simplesmente não falam com a companheira da mãe, embora vivam na mesma casa. A vida é mais complicada do que a novela.

Quem é, quem não é

Quantos homossexuais existem na população em geral? A resposta é complicada, já que muitos não revelam sua opção - embora o barulho dos que revelam pareça ampliar sua real dimensão. A estatística mundialmente aceita sustenta que 10% da população já teve alguma experiência homossexual. O número consta do Relatório Kinsey, o detalhado levantamento sobre a sexualidade americana feito na década de 40. Pesquisas mais recentes, baseadas em relações exclusivamente homossexuais, contabilizam o contingente gay em países como os Estados Unidos em 3% a 5% da população. Tomando por base os dois indicadores, metade das pessoas que já passaram por uma experiência homossexual ou acabou ficando com o sexo oposto ou esconde sua preferência pelo mesmo sexo.