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De Lobo a Cordeiro

O Divertido Clive Barker

04 de junho de 2003

Conhecido por seus contos de horror, o inglês Clive Barker virou queridinho da Disney

Nos anos 80, o escritor e cineasta inglês Clive Barker ganhou notoriedade por criar um estilo próprio de terror. Além da farta quantidade de sangue e cadáveres, ele empregava em suas histórias ingredientes como o sadomasoquismo e a escatologia. Exemplo disso é seu trabalho mais bem-sucedido como diretor de cinema, Hellraiser (1987), que acrescentou à galeria do horror classe B uma criatura que tinha o rosto crivado de pregos - o demoníaco Pinhead. Com um currículo desses, soa bizarro que Barker seja queridinho da Disney. É como se o Marquês de Sade fosse contratado para produzir uma continuação de Toy Story. Mas assim é. Três anos atrás, Barker mostrou a executivos da Disney a sinopse de uma saga infanto-juvenil e vários desenhos que a ilustrariam. Eles se convenceram de que estavam diante de algo capaz de fazer frente ao sucesso do bruxo mirim Harry Potter, e adquiriram os direitos de filmagem da história por 8 milhões de dólares. Barker abocanhou metade dessa bolada sem que tivesse escrito uma única linha. A outra parte ele embolsará quando o primeiro filme baseado em sua idéia entrar em produção. Bastante motivado pelo pagamento, ele escreveu e ilustrou Abarat, que acaba de ser lançado no Brasil (tradução de Ricardo Gouveia; Cia. das Letras; 434 páginas; 49 reais).


 
Abarat deve ser o primeiro de uma série de quatro livros. O título se refere ao arquipélago sobrenatural em que se desenrola a trama, no qual cada ilha corresponde a uma hora do dia. Cansada dos maus-tratos que sofre nas mãos do pai alcoólatra e da vida tediosa numa cidade interiorana na qual tudo gira em torno da criação de galinhas, a heroína Candy Quackenbush foge de casa e descobre por acaso uma passagem para esse universo paralelo. Ao desenvolver dons de magia de que nunca suspeitara, Candy, sem saber por quê, entra na mira de monstros. Nesse ponto, Barker é coerente com suas origens: alguns bichos imaginados e desenhados por ele são tão horrendos quanto os mortos-vivos do velho Hellraiser.

Cinqüentão, Clive Barker tem um estilo de vida que não combina em nada com o figurino família que é a marca dos estúdios Disney. Ele é gay assumido e expõe sua intimidade de forma calculada para reforçar a aura de artista extravagante. Tempos atrás, resolveu explorar seu sex appeal ilustrando um de seus livros com uma foto sua peladão (em pose frontal). Para completar, autografou uma edição limitada da obra com gotas do próprio sangue. As pinturas que exibe em seus vernissages "para adultos" são bem diferentes das mais de 100 ilustrações que adornam sua saga infanto-juvenil. Uma delas retrata um cadáver sem cabeça de cujo pescoço jorra um vulcão de sangue. Outra, que ele considera sua obra-prima nupcial, mostra o pênis dele e o do companheiro atados por um cordão. Barker vive há sete anos com o fotógrafo de nus masculinos David Armstrong e diz ter se inspirado na personalidade da filha deste último para conceber a heroína de Abarat. Além da pintura, o artista se entretém com um zoológico particular em sua mansão em Los Angeles. Ele abriga serpentes, aranhas e até ratos capturados no porão da residência. "As pessoas precisam encarar os ratos domésticos sem preconceito", costuma dizer Barker, que adora tascar beijocas nesses "bichinhos".