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20 de janeiro de 1999

Brasileiros querem indenização por viagem em navio repleto de gays

No final de outubro, quando embarcaram no Sovereign of the Seas para um cruzeiro pelo Caribe, o dentista curitibano Carlos Schwabe, 33 anos, e sua mulher, Brenda, sonhavam com uma segunda lua-de-mel. O clima de romantismo durou pouco. De cara, Schwabe estranhou a presença de produzidíssimas drag queens circulando pelo convés.


 
Outro brasileiro, Francisco Manso, servidor público de 29 anos que mora em Brasília e também embarcou com a mulher, surpreendeu-se com o que jura ter sido uma cantada por parte de outro passageiro. Não demorou muito para eles descobrirem que, dos 2.000 turistas a bordo, 600 faziam parte de excursões de grupos gay. "Fiquei embasbacado", conta Manso. O choque com o diferente acabou em queixa apresentada ao Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor e numa pergunta instigante para a sociedade em geral: viajar com gays dá processo?

Da mesma forma que os grupos da terceira idade e estudantes em formatura de colegial, os homossexuais, homens e mulheres, são adeptos do turismo em grupo, com agências exclusivas e roteiros favoritos - sendo o mais-mais o Caribe. Vista portanto sob o ângulo dos costumes contemporâneos, a presença de 600 gays assumidíssimos num navio de turismo não é nenhum fenômeno. Transportada para o Sovereign of the Seas no final de outubro, porém, azedou o passeio dos dois casais brasileiros. Schwabe conta que ele e Brenda, constrangidos, não saíram da cabine, onde faziam até as refeições. "Um ou outro não faz muita algazarra. Mas imagine 600 gays juntos num navio", reclama o dentista curitibano. "Só aproveitei o cruzeiro quando estávamos em terra." Manso, por sua vez, se pisava no convés levava a mulher a tiracolo, como um escudo de proteção "para não correr o risco de ser paquerado por um gay". À piscina, foi apenas uma vez. "Tinha homem se despindo e se beijando", escandaliza-se. Na volta, os dois casais, unidos na desdita, mandaram carta de reclamação para a Royal Caribbean, proprietária do navio. Francisco ainda aguarda uma resposta; os Schwabe ganharam desconto de 25% numa próxima viagem.

Schwabe também apresentou queixa ao Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, exigindo a devolução dos 5.000 reais que pagou pelo cruzeiro. Seu argumento: o navio pulou a escala prevista em Nassau e parou dois dias em Key West, Flórida, onde acontecia um concorridíssimo festival gay. "Alguma agência americana deve ter feito uma promoção dirigida aos homossexuais", explica Mariz Leiman, diretora da Sun & Sea, representante no Brasil da Royal Caribbean. "Nós, aqui, não ficamos sabendo de promoções como essa." Homossexuais e Caribe têm vínculos estreitos e tempestuosos há tempos. Por mau comportamento, segundo o governo, ou puro preconceito, segundo os turistas embargados, neste último ano dois navios fretados por gays foram impedidos de atracar, primeiro nas Ilhas Cayman, depois nas Bahamas. "Tudo isso é preconceito", diz Marcelo Cerqueira, vice-presidente do Grupo Gay da Bahia. "Somos tão alegres quanto um grupo de adolescentes." Mesmo entre os passageiros não gays do Sovereign of the Seas, houve quem simpatizasse com os companheiros de viagem. "Eu não vi nenhum gay", afirma a distraída aposentada mineira Conceição Paiva, de 66 anos. A filha dela, Alvimarina Costa, agente de turismo de 37 anos, viu mas não ligou. "Eles eram muito animados."