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Agressão à Infância
 
 
 
 
Agressão à Infância

17 de fevereiro de 1999

O drama dos pais ao saber que monitor de acampamento de férias é preso por pedofilia

Leonardo Chain em janeiro de 1998, no Acampamento Atibaia (ao lado), onde era o querido "tio Leo"


 
Primeiro foi o ódio. Depois, o pavor. O inferno da empresária paulista Rosangela começou numa sala da acanhada delegacia de Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Cercada por policiais, ela assistia a um vídeo gravado na colônia de férias onde três de seus cinco filhos passaram duas semanas em julho passado, o Acampamento Atibaia, a 69 quilômetros da capital paulista. No início, as imagens corriam aceleradas. Era tudo muito confuso. De repente, voltaram à rotação normal. Na tela, Rosangela viu o filho de 11 anos. O garoto estava nu, debaixo do chuveiro. Constrangido, cobria os órgãos genitais com as mãos. Ao fundo, a mãe ouviu uma voz masculina. O homem tentava tranqüilizar o menino. Dizia que a câmara estava desligada. Aquilo era só uma brincadeira. O rapazinho acreditou. Tirou as mãos. Lentamente, a imagem foi se fechando no pênis do garoto. Na cena seguinte, ele está de costas. Close. "Nunca pensei que um acampamento para crianças escondesse segredos tão repugnantes", revolta-se Rosangela. O choque foi ainda maior quando ela soube que a voz era do "tio Leo" - o biólogo Leonardo Chain, de 27 anos, monitor da colônia de férias. O pior estava por vir. Quando conversou com o filho sobre o vídeo, o menino contou que numa madrugada despertou assustado. Tinha medo de escuro. Tio Leo, que estava acordado, para acalmá-lo propôs que dormissem na mesma cama. O garoto aceitou. "Meu filho não me disse mais nada", conta a mãe. Rosangela teme por aquela noite.

Desde janeiro passado, Chain está preso sob acusação de atentado violento ao pudor. Foi denunciado pelo dono do acampamento, o professor de educação física Mario Assi. No carro do biólogo, Assi encontrou farto material pornográfico: dezenove fitas de vídeo, 143 fotografias, além de quarenta cuecas infantis. Algumas imagens causam ojeriza. Os protagonistas são sempre meninos com idade entre 10 e 15 anos. Num vídeo, o monitor aparece fazendo sexo oral num garoto de aparentes 12 anos.

"Nunca pensei que um acampamento para crianças escondesse segredos tão repugnantes." Rosangela, mãe de um menino de 11 anos que aparece nu num dos vídeos feitos por Chain Complexo de inferioridade - O Acampamento Atibaia não é uma reedição da Escola Base - em 1994, a falsa acusação de abuso sexual contra crianças de 4 anos, alunas de uma escola de São Paulo, destruiu a vida de três casais inocentes. Primeiro, porque a denúncia contra Chain foi feita pelo dono da colônia de férias, que teria todo o interesse em evitar um escândalo. Segundo, porque Chain não apenas confessa a autoria dos crimes como também legitima seu comportamento. "Na Grécia antiga, a pedofilia era comum. Platão nunca foi condenado pelo que eu fiz", afirmou aos policiais. "O problema é que a sociedade atual não aceita o pedófilo." Pedófilo, do grego paidóphilos, aquele que gosta de crianças.

O abuso sexual de meninos e meninas não é um fenômeno raro. Um relatório da Organização das Nações Unidas conta em 500.000 os envolvidos em pedofilia. No Brasil são registrados cerca de 3.000 casos de abuso contra crianças todos os anos. Na prática, estima-se, o número é, no mínimo, quatro vezes maior. Muitos dos pais não denunciam para evitar a exposição pública de seus filhos. Para poupar os meninos do constrangimento, VEJA optou por identificar os pais e as mães ouvidos nesta reportagem apenas pelo primeiro nome.

O que faz com que um rapaz bonitão, de classe média alta, inteligente, formado pela Universidade de São Paulo, como Chain, acabe se envolvendo com a pedofilia? Estudos psiquiátricos feitos a partir do perfil de quem adota esse tipo de comportamento apontam, geralmente, para traços bastante definidos. Aparentemente são pessoas desprovidas de qualquer agressividade, incapazes de praticar atos de violência aberta. Mas são também pessoas com um grande complexo de inferioridade, que só conseguem exercer um mínimo de sedução e autoridade com garotos e garotas. Os advogados do biólogo alegam que ele sofre de distúrbios mentais. Se não se provar a doença, ele pode ser condenado a até 22 anos de cadeia.

Chain se diz integrante de um movimento muito difundido na Inglaterra e na Alemanha, conhecido como Boylovers - em português, amantes de meninos. Os participantes alegam seguir regras de conduta bem rígidas. Afirmam não usar da violência e não forçar ninguém a nada. Numa lógica absurda, defendem que se deve primeiro conquistar a amizade das crianças e só dar vazão aos desejos com a permissão delas, como se crianças tivessem discernimento e defesas psicológicas suficientes para serem tratadas dessa maneira adulta. Tio Leo era o monitor querido. Durante seis meses freqüentou a casa do administrador de empresas Sergio, pai de dois meninos e uma menina. O mais velho, de 11 anos, foi filmado enquanto tomava banho. A primeira visita aconteceu logo após as férias de julho. O biólogo alegou que queria mostrar as fotos da estada no acampamento. No mesmo dia, agendou com os meninos uma partida de futebol para a semana seguinte. E assim foi. "Estranhei que um rapaz de 27 anos gostasse tanto de sair com adolescentes", lembra Sergio. No Brasil há 300 acampamentos de férias, que recebem, todos os anos, 1 milhão de crianças. Longe de casa, a meninada geralmente cria um vínculo emocional e de cumplicidade com os "tios" e "tias" mais divertidos. Felizmente, os casos de abuso são absoluta minoria, uma tragédia estatisticamente muito improvável.

Felicidade e pureza
A atração por crianças, sobretudo aquelas no limiar da puberdade, não é um assunto novo nem pouco explorado. Está nas estátuas gregas dos efebos, nas fotografias de meninas em poses sensuais do matemático, escritor e pastor anglicano Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas, nos quadros que retratam garotas ingênuas e lascivas do pintor francês contemporâneo Balthus ou no romance Lolita, do russo Vladimir Nabokov, levado duas vezes para o cinema. "Os adolescentes são a imagem da felicidade e da pureza, sem a culpa que, em geral, está associada ao sexo adulto", define o psicanalista Jorge Forbes. "Daí o fascínio que despertam em muitos adultos."

Pelo Código Penal brasileiro, fazer sexo com uma pessoa de menos de 14 anos, mesmo com o aval dela, é crime: violência presumida. Mas mesmo isso está mudando. Alguns juízes defendem que hoje os adolescentes são mais maduros do que os da década de 40, quando o código foi promulgado. Atenção: fala-se aqui de adolescentes, não de crianças. Em 1996, o ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal, inocentou da acusação de estupro e violência presumida um homem que manteve um relacionamento amoroso com uma menina de 12 anos. Entre outras declarações que usou para explicar a razão de ter consentido na relação carnal, a menina disse que fez aquilo porque "pintou uma vontade". O ministro julgou que ela tinha consciência do que estava acontecendo. Em 1998, a Inglaterra reduziu a idade mínima legal para manter relações homossexuais de 18 para 16 anos. Difícil é convencer pais e mães que confiaram a guarda de suas crianças a gente como tio Leo de que ele representa qualquer coisa relacionada a essa suposta "modernidade".



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Condenado por pedofilia pede diminuição da pena no STF
07/07/2006

Leonardo Chain, condenado por tirar fotos pornográficas de crianças, impetrou, no Supremo Tribunal Federal (STF), o Habeas Corpus (HC nº 89.107). Leonardo pede no HC a redução da pena e que possa cumpri-la em liberdade condicional (benefício que prevê aos condenados, que atendam alguns requisitos, a antecipação do retorno ao convívio social). O advogado de Chain alega que ele já cumpriu 1/3 da pena a que foi condenado (15 anos). Leonardo, que está preso desde 1999 no presídio de Tremembé (SP), pede o afastamento da aplicação da lei de crimes hediondos. Para isso, alega que a referida lei não se aplica ao crime pelo qual foi condenado (atentado violento ao pudor). Segundo a defesa, nem todos os casos de crimes sexuais podem ser considerados como hediondos. Neste caso, por exemplo, não houve violência ou grave ameaça, e o crime apenas se configurou como violência presumida.