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O Outro Genocídio Americano
 
 
 
 
O Outro Genocídio Americano

12 de maio de 1999

Bem antes da chegada dos europeus, os ancestrais dos nossos índios já haviam dizimado os primeiros habitantes do continente

A arqueologia, um ramo da ciência já bastante habituado à polêmica, acaba de se meter numa confusão das grandes. Descobertas recentes nessa área revelam que os ancestrais dos índios americanos, incluindo os brasileiros, podem ter sido os responsáveis por um dos maiores casos de limpeza étnica da história da humanidade.


 
A partir da análise de crânios e artefatos pré-históricos, encontrados em várias regiões do continente, os cientistas estão constatando que os primeiros povos a chegar à América não foram antepassados dos índios, como se imaginava até pouco tempo atrás. Antes deles, havia aqui outros povos (veja mapa). O problema é que eles desapareceram do mapa sem deixar nenhum vestígio, além dos ossos e ferramentas de pedra achados em sítios arqueológicos. Seus traços genéticos também não aparecem nas populações indígenas atuais. O que teria acontecido com esses primeiros americanos? A hipótese mais provável é que foram massacrados, milhares de anos antes da chegada de Cristóvão Colombo e de Pedro Álvares Cabral ao continente.

Os novos achados transformaram-se num assunto delicado em meio às comemorações dos 500 anos dos descobrimentos. Até agora, os índios e várias entidades que os representam têm-se recusado a participar das festividades, alegando que não há nada para comemorar. Ao contrário. Na opinião deles, o que houve no continente americano há 500 anos não foi a descoberta de um Novo Mundo, como diz a história oficial dos colonizadores europeus. Houve, sim, um extermínio em massa da população nativa. Os números lhes dão razão. Antes da chegada de Cabral, havia no Brasil cerca de 6 milhões de índios. Hoje restam pouco mais de 300 000. Os demais foram dizimados em guerras ou por doenças trazidas pelos colonizadores. O último protesto indígena aconteceu no dia 22 de abril, em Porto Seguro, na Bahia. Um grupo de 100 índios de três aldeias pataxós interrompeu, com lanças e pintura de guerra, uma missa comemorativa do 499º ano do Descobrimento.

As novas descobertas não diminuem em nada a tragédia dos índios. Mostram apenas que seus ancestrais, tanto quanto os europeus de cinco séculos atrás, também foram protagonistas de massacres e genocídios. Contudo, a simples idéia de que os nativos americanos não são descendentes dos primeiros habitantes do continente é explosiva. Nos Estados Unidos, a primeira reação dos índios às novas teses de povoamento da América foi atrapalhar ou boicotar as pesquisas científicas. Os líderes das tribos shoshone-bannock, de Idaho, exigiram de volta os ossos da chamada Mulher de Buhl, um esqueleto de 10600 anos cujas características não se assemelham a nenhum dos grupos indígenas modernos. Por ser uma possível prova da existência de povos anteriores, o fóssil foi imediatamente sepultado pelos shoshone-bannock. Representantes de outras tribos já pediram a devolução de crânios. "Sabemos que nosso povo faz parte desta terra desde o início dos tempos", afirma Armand Minthorn, líder religioso umatilla.

A teoria original da ocupação da América, que até hoje se aprende nas escolas, foi alinhavada em 1983 pelo antropólogo americano Christy Turner. Ele se baseou nas análises de pontas de flechas encontradas em uma escavação na região de Clóvis, no Novo México. Segundo Turner, os donos das flechas eram povos que saíram da região da Sibéria, chegaram à América do Norte pelo Estreito de Bering, há cerca de 11.000 anos, e se espalharam pelo Novo Mundo. Antes disso, a América seria um continente vazio, sem nenhum vestígio de ocupação humana.

Nariz proeminente

Um dos primeiros a questionar Turner foi o arqueólogo brasileiro Walter Neves, da Universidade de São Paulo, USP. No início desta década, ele estudou as formas e dimensões de crânios humanos com mais de 11.500 anos encontrados na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. "Pelas características morfológicas, o grupo que viveu ali há milhares de anos não era antepassado dos atuais índios brasileiros", conta. Outro pesquisador brasileiro, o arqueólogo André Prous, da Universidade Federal de Minas Gerais, também fez descobertas que levavam a conclusões semelhantes. No ano passado, apareceu a prova que faltava. O pesquisador Tom Dillehay, da Universidade de Kentucky, comprovou, de maneira inequívoca, que já havia humanos em Monte Verde, no Chile, mais de 12.500 anos atrás.

Todas essas evidências montaram uma outra versão para o povoamento da América. Por essa nova teoria, há cerca de 15.000 anos um povo partiu provavelmente do sul da China, cruzou o Estreito de Bering e chegou à América. Entre 9.000 e 8 000 anos atrás, essas tribos foram substituídas por outro grupo completamente diferente, esse sim antepassado dos índios atuais. "Os originais provavelmente foram extirpados pelos que chegaram depois", diz Neves. Para complicar, no entanto, há ainda uma terceira teoria na disputa. Controversa, ela diz que povos da Europa teriam atravessado o Atlântico de barco.

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O Brasil tinha, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 730 mil índios em 2000, entre tupis, guaranis, yanomamis, kayapós entre outros. Sem contar os cerca de 60 grupos de índios isolados ainda existentes no Brasil. Ainda segundo o IBGE, o país mantém uma grande diversidade indígena, mas um número proporcionalmente pequeno em relação à sua população total, ou seja, cerca de 0,5% da população brasileira.

O antropólogo Darcy Ribeiro, que estudou as questões indígenas a vida inteira, afirmava que desapareceram mais de 80 povos indígenas somente na primeira metade do século 20, no Brasil, sendo que a população total teria diminuído, de acordo com esse autor, de 2 milhões na época do descobrimento para 200 mil pessoas em meados de 1970.

Os censos realizados pelo IBGE mostram que a realidade tem mudado um pouco. Desde os anos 80 do último século, a população indígena no país tem crescido de forma constante, indicando uma retomada demográfica por parte da maioria desses povos.