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País Inventado
 
Dezenas de países foram criados nos últimos cinqüenta anos - mas nunca se tentou fundar uma nação sobre uma casca vazia, como está ocorrendo atualmente numa meia ilha entre o Pacífico e o Índico. O Timor Leste carece da maioria das necessidades básicas: além de não ter médicos, dentistas, enfermeiros, contadores, advogados, professores e policiais, também não dispõe de mesas, cadeiras, panelas, linhas telefônicas e, é bom que se diga, uma língua comum para que os habitantes entendam uns aos outros. Também não conta com as instituições fundamentais sobre as quais tantas nações fincaram raízes (escolas, museus, tribunais coloniais, um código legal, funcionalismo público, prisões, sinais de trânsito). Esse lugar anárquico é o cenário de uma inusitada experiência que a Organização das Nações Unidas apelidou de "construção de nação". A ONU, na verdade, é o único governo que há por lá. Na condição de chefe da administração transitória das Nações Unidas em Timor, a Untaet, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello é, pode-se chamar assim, o presidente em exercício do Timor Leste. Quem desembarca no aeroporto de Díli, a capital, recebe o carimbo "Untaet" no passaporte.

Por que, afinal, se quer construir uma nação em condições tão adversas? A resposta: Timor Leste foi vítima de uma ocupação brutal por tropas da vizinha Indonésia, que exterminou metade da população. Condoídos, os países ricos sentiram-se na obrigação de ajudá-lo. O Prêmio Nobel até foi concedido a duas figuras preeminentes da resistência timorense. Num plebiscito no ano passado, 80% dos habitantes votaram pela independência e a ONU assumiu a tarefa de lhes dar um Estado, coisa que nunca existiu na ilha. Os portugueses, que lá chegaram em 1512, saíram às pressas em 1975. Os integrantes dos vários movimentos de libertação nacional timorense passaram então a se matar uns aos outros. A Indonésia aproveitou para ocupar e anexar o lugar. Timor Leste é uma meia ilha do tamanho do município de Manaus, com população equivalente à de Campinas e dividida em 36 etnias. A língua dominante é o teto, que não tem gramática nem dicionário. A religião praticada pela maioria, o catolicismo, é um dos poucos traços fortes que une o país a seu passado português. A frágil infra-estrutura existente foi destruída nas duas semanas entre o plebiscito e a chegada das tropas de paz da ONU. A violência desatada pelo Exército da Indonésia e por milícias contrárias à autonomia não deixou pedra sobre pedra. Em vez de bombas e granadas, os vândalos usaram gasolina e fósforo para incendiar o território. Nem os documentos de identidade das pessoas ou os títulos de propriedade de terras ou bens foram preservados. É sobre essa massa amorfa de população, território e ruínas que a ONU se propõe, com a colaboração de alguns timorenses retornados do exílio, a construir um país.

Para não correr riscos, a ONU convocou um time de tecnocratas com experiência em missões similares para integrar a linha de frente. É o caso do carioca Sérgio Vieira de Mello, que fez coisa parecida em Kosovo, a província rebelde da Iugoslávia. "Encontramos um país arrasado, sem instituições ou gente capaz de assumir os cargos de comando", diz Vieira de Mello. Uma das primeiras medidas da missão da ONU foi a organização do poder público. Ele criou oito ministérios e nomeou seus titulares - mas só conseguiu quatro timorenses em condições de ser ministros. Na realidade, eles só estão lá porque é necessário treinar quadros para a administração do país. O embrião de um Parlamento surgiu com a criação do Conselho Consultivo, composto de representantes de vários setores da sociedade. O sistema judiciário começou a ser colocado de pé com o recrutamento de juízes e advogados e a restauração das prisões. Enquanto se redige um novo Código Penal, vigoram as leis indonésias do tempo da ocupação. O Banco Mundial, a Austrália, o Japão e outros doadores entraram com cerca de 45 milhões de dólares para construir a infra-estrutura básica. Atualmente, é possível fazer uma ligação telefônica para lá através de celulares habilitados somente na Austrália ou nos Estados Unidos.

A previsão é de que a ONU permaneça por mais três anos. Nesse meio tempo, os timorenses precisam aprender a viver em democracia. Um plebiscito já está previsto para a escolha da língua oficial do país. Além do teto, os mais jovens aprenderam o bahasa, falado na Indonésia, e os mais velhos, o português. Os nacionalistas históricos preferem o idioma do colonizador luso. "A língua portuguesa se transformou no traço que nos distingue e nos deu o direito de reivindicar a independência", disse o líder timorense Xanana Gusmão ao jornalista Paulo Markun, que esteve em Timor Leste produzindo um documentário para a STV, Rede Sesc de TV e TV Cultura de São Paulo. Xanana, que Vieira de Mello chama de "o pequeno Mandela", passou sete anos na cadeia e é agora candidato a presidente do futuro país. Ele liderou uma resistência mambembe, cujos remanescentes formam hoje o que há de mais perto de um movimento político.

O dólar americano foi adotado como moeda oficial, embora o povaréu só tenha rupias indonésias. O comércio é praticamente inexistente. Para a maioria, bastam os produtos de subsistência oferecidos em feiras livres e por camelôs espalhados pelas cidades. Os mais sofisticados cruzam a pé a fronteira para fazer suas compras em Timor Oeste, uma província da Indonésia. Pequenas lojas abastecidas com produtos importados da Indonésia ou da Austrália atendem às necessidades de consumo dos 12.000 estrangeiros a serviço da ONU. O Brasil participa com uma pequena força militar. A economia criada para atender os estrangeiros constitui a base de arrecadação de impostos. A renda prevista para este ano é de 17 milhões de dólares, o valor do passe de um jogador de futebol médio no Brasil.


 
 
 
 
País Inventado

16 de agosto de 2000

ONU tenta criar numa ilha sem economia ou idioma uma nação chamada Timor Leste

Timorenses voltam da Indonésia com produtos básicos: um país onde faltam cadeiras e mesas