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Baleia Assassina
 
O ataque de uma baleia branca gigantesca, dotada de malícia e inteligência tipicamente humanas, contra o barco do capitão Ahab constitui-se no clímax de Moby-Dick, o clássico da aventura criado pelo americano Herman Melville (foto abaixo) em 1851. Para escrever sua obra, Melville inspirou-se no desastre do navio Essex, destruído por um cachalote. A realidade, nesse caso, superou a ficção. A verdadeira e dramática história do Essex e a inacreditável luta pela sobrevivência de seus tripulantes, recontada agora em livro, tornaram-se rapidamente um best-seller nos Estados Unidos. A obra deve ser lançada no Brasil até dezembro pela Companhia das Letras, que já adquiriu os direitos de publicação. Nas 302 páginas de In the Heart of the Sea (No Coração do Mar, em português), o pesquisador Nathaniel Philbrick recupera o trágico encontro da velha baleeira americana com um cachalote de 26 metros de comprimento no meio do Oceano Pacífico. O episódio ocorreu em novembro de 1820. Para surpresa dos vinte marinheiros a bordo, o animal avançou feito um touro enfurecido contra a embarcação. Depois de se chocar estrondosamente com o barco, o gigantesco cetáceo fez meia volta, recuperou o fôlego e repetiu o ataque. O navio afundou e seus homens salvaram-se em três pequenos botes. A grande diferença entre a realidade e a ficção é que, no caso do Essex, o naufrágio foi apenas o ponto de partida para testar até onde pode ir o animal humano na batalha pela sobrevivência.

Pelos três meses seguintes, a tripulação do Essex experimentou todos os limites de exaustão, fome e sede. A terra firme mais próxima, as Ilhas Marquesas, a 1.800 quilômetros do local do naufrágio, tinha a fama de ser habitada por canibais. Afastada mais que o dobro dessa distância, a costa da América do Sul acabou sendo a alternativa de salvação escolhida pelos marinheiros. Quando a provisão de comida se esgotou, os tripulantes passaram a agir como os selvagens. Os primeiros companheiros mortos de inanição serviram de alimento aos demais. Os náufragos arrancavam a cabeça e consumiam imediatamente o fígado e o coração. Em seguida, retalhavam o corpo em pequenos pedaços, que eram mastigados crus, na maior parte das vezes. No auge do desespero e sem nenhum cadáver disponível, os náufragos passaram a escolher por sorteio quem seria abatido para alimentar os demais. Até o resgate, seis homens foram canibalizados. De um total de vinte tripulantes do Essex, somente oito conseguiram sobreviver. Quando foram localizados em alto-mar, em dois barcos remanescentes, dois deles ainda chupavam os ossos dos companheiros. Em 1840, essa história fantástica chegou aos ouvidos de um jovem tripulante de uma embarcação baleeira. Era o futuro escritor Herman Melville. Entusiasmado pela inacreditável saga da embarcação, ele escreveria onze anos depois o clássico Moby-Dick.


 
 
 
 
Baleia Assassina

21 de junho de 2000

Tragédia que inspirou Moby-Dick vira um grande sucesso editorial nos Estados Unidos

Cachalote: exemplar com 26 metros de comprimento afundou navio