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Ardido como Pimenta
 
A vida secreta incluía a participação ativa de John Kennedy no assassinato do líder sul-vietnamita Ngo Dinh Diem e nas tentativas da CIA para matar Fidel Castro com a ajuda (outra vez) da máfia. Havia também - e sobretudo - um registradíssimo vaivém de amantes na Casa Branca.

Lançado no ano passado nos Estados Unidos, com estardalhaço, o livro de Hersh inaugura a enésima onda de interesse editorial por Kennedy, Jackie e seus amigos - a Camelot do título, uma referência ao mito do rei Arthur que passou a designar o clima de sonho em que vivia a "realeza" americana. Depois de morto, Kennedy foi entronizado como herói até que, na década seguinte, os revisionistas puseram-se a trombetear seus pecados. Em 1993, os trinta anos do assassinato foram saudados com uma enxurrada de teses conspiratórias. A morte de Jacqueline Onassis, em 1994, reacendeu a curiosidade por ela e seu primeiro marido, acarretando uma onda de saudosismo romântico que os mais espertos estão transformando em dinheiro, como se constata pelo sucesso do leilão de objetos pessoais do casal, realizado na semana passada, em Nova York.

O mito de Camelot pode ser atribuído à morte trágica, ao glamour e à juventude de John Kennedy - bem como ao fato de ele simbolizar o período histórico crucial em que começaram a luta contra a discriminação racial e a revolução dos costumes nos Estados Unidos. Hersh sustenta, no entanto, que as fraquezas pessoais de Kennedy limitaram sua capacidade de cumprir os deveres de presidente. Não é o único com essa opinião, mas nunca antes um autor de prestígio tinha escrito sobre o assunto com tantos detalhes e igual agressividade.

Revirar a sujeira dos poderosos é a especialidade de Hersh, um dos repórteres investigativos mais conhecidos de sua geração. Quase trinta anos atrás, foi ele quem revelou o massacre de My Lai, cometido por soldados americanos no Vietnã do Sul. Valeu-lhe o Prêmio Pulitzer, o mais importante do jornalismo de seu país. Também provou que a CIA andava espionando dentro de casa e virou best-seller com um livro sobre os bastidores do governo Richard Nixon. "O Lado Negro de Camelot", no entanto, está longe de ter o mesmo poder de fogo dos livros anteriores.

Hersh está para a vida do presidente como Oliver Stone, o cineasta de JFK, está para sua morte. Seu livro é um compêndio de escândalos sexuais e conspirações de bastidor - a perfeita receita do sucesso editorial. Certa ocasião, conta Hersh, Kennedy escapou por um triz de ser surpreendido pela primeira-dama com duas mulheres nuas na piscina. Visto que sua amante Judith Campbell Exner também namorava o chefão Sam Giancana, o presidente a usou como intermediária nas transações com a máfia. Outra namorada, Ellen Rometsch, com livre acesso à Casa Branca, era espiã da Alemanha Oriental.

O autor diz ter trabalhado durante cinco anos e feito mais de 1.000 entrevistas. O problema é que a carreira política e a vida privada do presidente têm sido impiedosamente vasculhadas desde os anos 70, deixando pouca coisa nova para ser contada. Já se sabia que o imensurável apetite sexual não permitia ao presidente galã ficar a seco um só dia. A presença de uma espiã na cama presidencial foi revelada numa investigação do FBI. O que Hersh tinha de exclusivo e sensacional - documentos provando que Kennedy pagou 600.000 dólares pelo silêncio da atriz Marilyn Monroe - revelou-se uma fraude e foi retirado do livro dois meses antes do lançamento nos Estados Unidos. Permaneceu o já sabido: a musa namorou o presidente e cantou um tórrido "Parabéns a Você" em seu aniversário. Em outras palavras, "O Lado Negro de Camelot" é como uma boa reportagem - o tipo de livro que se atravessa de um fôlego só. Mas não se deve acreditar em tudo que se lê.


 
 
 
 
Ardido como Pimenta

25 de março de 1998

Tudo o que você queria saber sobre Kennedy e sempre teve vergonha de perguntar

Horas depois do assassinato do presidente americano John Kennedy, em novembro de 1963, seu irmão Bob correu para esvaziar os arquivos do presidente na Casa Branca. A preocupação do primeiro-irmão, escreve Seymour Hersh em "O Lado Negro de Camelot" (L&PM Editores; tradução de Betina Becker e Lúcia Brito; 510 páginas; 29 reais), era evitar que caíssem nas mãos do sucessor, Lyndon Johnson, segredos verdadeiramente explosivos: a existência de uma esposa anterior a Jackie, eleições fraudadas com a ajuda da máfia, o histórico de sérios problemas de saúde, incluindo doenças venéreas.