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Ídolos de um Brasil Emergente
 
Ídolos de um Brasil Emergente

13 de maio de 1998

Populares e bem produzidos, eles são a nova cara do país - até porque não há outra

A cultura popular brasileira hoje tem o rosto de Alexandre Pires, vocalista do grupo Só pra Contrariar, campeão absoluto de vendas no país, com 3 milhões de CDs. A cultura popular brasileira também tem a cara de Fernanda Souza, a Mili das Chiquititas, novela infantil que é a líder de audiência entre a garotada. Tem a boca de Ivete Sangalo, que colocou a axé music entre os gêneros musicais mais consumidos no país. Mais que um novo rosto, tem pernas. A escolher: as de Carla Perez ou as de Scheila Carvalho, loira e morena catapultadas pelo grupo de samba É o Tchan! Em outras palavras: o brasileiro está consumindo como nunca pagode, axé music e telenovelas infantis de matriz hispânica. Ídolos populares aparecem e fazem sucesso de tempo em tempo, mas nunca tiveram a força dessa nova leva, que faz barulho em diferentes meios. Todos os nomes acima são simultaneamente campeões do mundo do disco, grandes chamarizes de audiência na televisão e garantia de altas vendagens de publicações especializadas. Ou seja: onde aparecem, dão lucro. Há outra característica que os distingue das gerações anteriores de ídolos populares: romperam as fronteiras entre "brega" e "chique". Até pouco tempo atrás, cantores como Alexandre Pires só eram consumidos pelo chamado povão. Hoje, lotam não apenas shows da periferia e rodeios no interior, mas também casas noturnas dedicadas ao público classe A.

A maior delas, o Metropolitan, no Rio de Janeiro, com capacidade para 8.500 lugares, apresentou, em 1995, doze atrações consideradas populares. Hoje, esse número mais que dobrou: subiu para trinta (veja quadro). Isso sem que houvesse diminuição no preço dos ingressos, que continuam na faixa dos 25 reais. "O Só pra Contrariar atrai, hoje, o mesmo público de shows internacionais, aquele que pode pagar mais pelo preço do ingresso e faz questão do conforto de uma mesa", explica Silvana Cardoso, diretora artística do Metropolitan - casa que, há três anos, apresentava artistas como o espanhol Plácido Domingo, um dos três maiores tenores da atualidade. Rádios antigamente consideradas populares - como a Cidade, líder de audiência em São Paulo - vêm conquistando, cada vez mais, ouvintes nas classes A e B. Hoje em dia ninguém sente vergonha de admitir que gosta de artistas anteriormente considerados bregas. "Dos seis CDs que levo em meu carro, dois são do Só pra Contrariar", diz Luciano Huck, colunista social e apresentador de TV. A atriz Malu Mader, mulher do roqueiro Tony Bellotto, é fã confessa dos funqueiros de periferia Claudinho & Buchecha. Outra colunista social, Joyce Pascowitch, diz ser grande admiradora da axé music do cantor Netinho.

Mudou o gosto da classe média brasileira, que antes ouvia gente como João Gilberto e congêneres? Seria mais correto dizer que mudou a expectativa das pessoas em relação aos produtos culturais. Quando vai assistir a um show da Banda Eva ou do É o Tchan!, o público, de qualquer classe social, está querendo ter apenas bom entretenimento, e não ver ilustradas artisticamente teses sociológicas ou uma "meditação sobre o Brasil", algo que os tropicalistas, nos anos 60, por exemplo, tinham a pretensão de oferecer. Por incrível que pareça, a noção de entretenimento voltou a entrar em cena, passada a longa ressaca do período ditatorial, quando as manifestações musicais e estéticas, especialmente aquelas que faziam furor entre os bem pensantes, eram predominantemente de cunho político. Com isso, perdeu-se aquele preconceito que existia no passado, segundo o qual artistas bregas como Vicente Celestino ou Peninha só podiam ser consumidos se filtrados pela voz chique de Caetano Veloso.

Essa função - divertir - as novas bandas cumprem com eficiência. Foi-se o tempo em que cantor popular tocava em churrascarias e lançava disco de vinil porque era mais barato. Hoje, eles são muito bem produzidos - e esse é um dos motivos do sucesso entre um público classe A. Goste-se ou não de pagode, o show do Só pra Contrariar é um espetáculo digno de ser visto. O cantor Alexandre Pires chega ao palco a bordo de um elevador iluminado, num efeito claramente inspirado no show do mago David Copperfield. Os figurinos que a banda usa são baseados em modelos usados pelas grandes estrelas da música romântica internacional. Os cenários, as coreografias e a iluminação também têm matrizes em produções estrangeiras de sucesso - no caso, as turnês de Mariah Carey e Celine Dion. A maior parte desses novos artistas populares tem inspiração americana. Os programas de Márcia Goldschmidt, no SBT, e Ratinho, na Record, são decalcados de Jerry Springer, aquele que transforma o mundo-cão em espetáculo na TV dos Estados Unidos. Antigamente, quando queria telenovelas populares, o Brasil importava do México. Hoje, o SBT produz Chiquititas com atores brasileiros, embora grave na Argentina por razões econômicas. Da mesma forma, a música com finalidade de apenas "entreter" era importada dos Estados Unidos. Hoje é feita no Brasil mesmo.

Mobilidade

"Carla Perez e o É o Tchan! são, de certa forma, a tradução brasileira de Michael Jackson e Prince - ou seja, daquela música que tem um forte componente coreográfico e que, justamente por isso, é ideal para ser veiculada na televisão", diz o professor Luiz Tatit, da Universidade de São Paulo, autor de vários livros sobre música popular. O fato de o Brasil ter criado, na música, um similar do pop americano garante ao país a primazia de ser um dos poucos do mundo onde há uma clara predominância do produto nacional. Aqui, 80% dos discos vendidos são de artistas brasileiros - enquanto um país como a Alemanha, que não tem Carlas Perez e importa Michaels Jacksons, tem apenas 33% do mercado ocupado pelo artista autóctone.

O sucesso de grupos como Só pra Contrariar e É o Tchan! é, também, expressão de outra característica brasileira: a mobilidade social. Parte do público das classes A e B que consome esses produtos é composta de pessoas oriundas das classes C e D que ascenderam socialmente há pouco tempo, mantendo o mesmo gosto mas exigindo produtos mais bem-acabados. São os chamados "emergentes sociais", dos quais Alexandre Pires, Claudinho & Buchecha, Carla Perez e outros são ídolos até por pertencer à mesma categoria. Natural de Uberlândia, cidade rica do Triângulo Mineiro, Alexandre Pires é filho de uma cantora e de um baterista que ganhavam a vida num conjunto de baile, e chegou a trabalhar numa lavanderia antes de trilhar o caminho da fama. Hoje, circula pelas ruas da cidade a bordo de um Porsche conversível que comprou por 200.000 reais. Recentemente, o "emergente" Alexandre teve um encontro com o maior "mauricinho" do mundo, o príncipe Albert, de Mônaco, das mãos do qual recebeu o World Music Awards, prêmio dado aos maiores vendedores de disco do planeta. Claudinho e Buchecha nasceram numa favela em Niterói, cidade famosa pela piada segundo a qual sua única atração turística é a "vista do Rio de Janeiro", e hoje têm casa própria na Ilha do Governador. Carla Perez, que acaba de assinar um contrato com o SBT para se tornar apresentadora de um programa nos sábados à noite, é outra que saiu de uma família pobre de Salvador.

Diante desse fenômeno, a pergunta que fica no ar é: o que significa, para a cultura de um país, ter ídolos populares como a loura do tchan ou pagodeiros com roupas de griffe? Não é um sinal de decadência, inclusive da elite, que consome os mesmos produtos? A resposta é não. Cultura de massa e cultura de elite se desenvolvem em universos totalmente diferentes, e uma não esmaga a outra. Os Estados Unidos são a nação que mais produz lixo cultural em larga escala, mas ao lado de Jerry Springer e Michael Jackson o país tem também alguns dos melhores escritores da atualidade, como Philip Roth. A Inglaterra é o país das Spice Girls, mas também do maestro "sir" Neville Mariner e do escritor Martin Amis. O Brasil vive uma fase em que as orquestras sinfônicas se deterioram por falta de patrocinador, o teatro padece de uma crise de criatividade e a literatura não tem consistência. Há vários culpados disso, e certamente Carla Perez, Scheila Carvalho, Ivete Sangalo e Alexandre Pires não estão entre eles.